Trilhas na Serra do Mar guardam histórias de sobrevivência e tragédias. Conheça algumas delas
5 Jan, 2026
O dia de ontem foi de alívio e comemoração no meio do montanhismo. Após cinco dias de buscas, o jovem Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, foi encontrado com vida depois de se perder na trilha do Pico Paraná, a maior montanha de toda a região Sul do Brasil, logo no primeiro dia de 2026. O rapaz estava na região do Vale do Cacatu, em Antonina, no Litoral paranaense, e apresentava hematomas e perdeu muito peso após encarar uma verdadeira epopeia na luta pela sobrevivência na floresta.Contudo, nem sempre os desfechos em casos assim são felizes. E a própria Serra do Mar guarda outras histórias como a de Roberto. Algumas com desfechos positivos, outras tantas com desfechos trágicos.Em novembro de 2024, por exemplo, dois jovens de 25 e 26 anos se perderam na região do Ferraria, uma montanha que também fica na Serra do Ibitiraquire, onde está localizado o Pico Paraná. Ficaram dois dias desaparecidos numa região de vale e pegaram muita chuva. Corredores que auxiliavam o Corpo de Bombeiros nas buscas, contudo, conseguiram os localizar.Quase um ano depois, no começo de dezembro do ano passado, a cena se repetiu. Outros dois jovens que seguiam para a mesma montanha, o Ferraria, se perderam numa região de vale entre o Taipabuçu e o outro pico. Acabaram resgatados após ficarem perdidos por aproximadamente 24 horas.Já em setembro de 2021 aconteceu um dos casos mais notórios na Serra do Mar. Na ocasião, Maicon Willian Batista, de 28 anos, caiu em um vale quando subia o Pico Paraná e ficou desaparecido por seis dias. Ele sobreviveu tomando água do rio Cacatu e racionando barras de cereais e frutas que levava numa mochila.Como já citado, entretanto, nem sempre os desfechos nessas situações são felizes. E além de pessoas que se perdem, outros tantos tipos de acidente podem acontecer em trilhas, sejam elas em montanhas ou cachoeiras.O Pico Ferraria, à esquerda, e o Taipabuçu, à direira. No meio, ao fundo, o Conjunto Ibiteruçu, onde fica o Pico Paraná. Foto: Rodolfo Luis KowalskiTragédias recentes em cachoeiras, caminho histórico e numa das mais emblemáticas montanhas do ParanáEm janeiro de 2021, o policial militar aposentado Delcides Félix de Oliveira faleceu no Marumbi, uma das mais emblemáticas montanhas da nossa Serra do Mar. Ele era corredor e conhecia bem a montanha, mas sofreu uma queda quando subia um paredão de grampos para acessar o Pico Olimpo, cume mais alto acessível ao público que frequenta o parque em Morretes, no litoral paranaense. Ele escorregou e caiu num trecho vertical, batendo a cabeça numa pedra.No ano seguinte, em fevereiro de 2022, um homem morreu depois de se afogar ao descer um tobogã de pedra na trilha do Salto dos Macacos, também em Morretes. A vítima teria se afogado ao descer na cachoeira. E em março de 2023, a mesma trilha virou cenário para outra tragédia, quando uma mulher de 32 anos faleceu ao cair num poço que tem uma piscina natural com “borda infinita” e a vista para o Marumbi. Ela caiu, teve múltiplas fraturas e faleceu no local. Familiares e amigos a acompanhavam e precisaram ser amparados.Ainda nas cachoeiras, em 2024 uma mulher de 28 anos morreu após sofrer uma queda de uma altura de oito metros em uma cachoeira no Morro Capivari Mirim, em Campina Grande do Sul. Ela teve vários traumas por causa do acidente, inclusive com lesões no crânio, e estava no local com o marido e um grupo de amigos, finalizando uma trilha quando houve o acidente.Já mais recentemente, em março do ano passado, um homem de 48 anos faleceu após pegar um caminho proibido no Caminho do Itupava, a mais antiga trilha do Paraná. Ao invés de seguir a trilha, ele pegou o caminho pelo trilho do trem e acabou sofrendo uma queda na altura do Véu da Noiva, ao se desequilibrar perto da cabeceira de uma ponte. Caiu e quando o resgate chegou, já estava morto.O Pico Olimpo, no Conjunto Marumbi, é uma das trilhas mais desafiadoras de todo o Paraná, técnica e fisicamente (Foto: Rodolfo Luis Kowalski)Tragédias durante trilhas “em família” na Serra do MarVoltando um pouco mais no tempo, outro caso marcante ocorreu em junho de 2014, quando um grupo de seis pessoas se perdeu no Siririca, montanha que fica também na Serra do Ibitiraquire. Era uma trilha em família, que terminou em tragédia após uma forte chuva fazer o grupo se perder por três dias na Serra do Mar. Quando foram encontrados, um adolescente de 14 anos chamado Moisés já havia falecido, vítima de hipotermia.Já em fevereiro de 2003, quem faleceu foi um rapaz chamado Alexandre Maoski, que tinha 28 anos. Ele foi acampar no Pico Paraná com um primo, chamado Daniel, no dia 19 de janeiro. O cansaço e o mau tempo, contudo, fizeram o dois se separarem. Enquanto um continuou a subida, Alexandre montou acampamento numa clareira. Ao retornar, no dia 21, Daniel não viu o parente na trilha e achou que ele tinha voltado para casa. Dias depois, porém, a família deu pela falta do rapaz e as buscas tiveram início. Foram 13 dias desaparecido, até ele ser encontrado morto em uma fenda da encosta do Itapiroca, outra montanha que fica na região. A suspeita é que ele sofreu uma queda e machucou o braço, tornando-se dias depois vítima de hipotermia e inanição (fome e sede). Quando foi encontrado, tinha falecido há menos de dois dias e seu corpo estava ao lado de um cantil e uma lata de atum vazios, enquanto a barraca que ele carregava estava estendida, mas não armada.O Siririca e suas famosas “placas”: montanha é conhecida como o “K2 paranaense”, por sua exigência física e técnica. Foto: Rodolfo Luis KowalskiComo se planejar para fazer uma trilhaA procura pelas trilhas no Paraná tem crescido nos últimos tempos. Mas antes de se lançar pro meio do mato, é importante tomar alguns cuidados.Primeiramente, deve se escolher qual a rota a ser feita, inclusive pesquisando sobre o tipo de terreno que se encontrará e as dificuldades que ele pode impor. Sites especializados, como o Wikiloc, e vídeos no YouTube podem ajudar, além do contato com quem já tenha feito o percurso anteriormente. Também é interessante ter a trilha já baixada de antemão no seu celular, através do já citado Wikiloc, do Strava ou qualquer outro aplicativo similar, de trekking.Observar as condições meteorológicas também é fundamental, especialmente porque na Serra do Mar o tempo muda muito rapidamente. Um aplicativo bastante conhecido é o Windy, através do qual dá para pesquisar as condições do tempo para uma montanha específica, por exemplo, vendo a previsão de chuva, vento, temperatura e nebulosidade para diferentes horários e dias.Itens que não podem faltar na sua mochila antes de trilharPara subir uma montanha, é necessário também estar munido de equipamentos e suprimentos suficientes. Por isso, é necessário verificar a distância a ser percorrida e o tempo necessário para a atividade, para planejar a quantidade de água e comida a ser levada.Lanterna também é um item obrigatório e ainda melhor se levar junto pilhas extras. Uma bateria extra para o celular, por meio de carregadores portáteis (power banks), também pode ser interessante se a caminhada for mais longa. Apito de emergência; repelente; protetor solar; e kit de primeiros socorros são outros equipamentos básicos.Além disso, ter a indumentária adequada também é fundamental para se aventurar no mato. “Da mesma forma que a gente não vai para a praia como se estivesse vestido para ir a uma festa ou com uma roupa de frio, na montanha é a mesma coisa. Precisa ter um calçado adequado, um calçado confortável, que tenha boa aderência. De preferência uma bota, porque ela dá mais estabilidade no tornozelo. O ideal é ter um reservatório de água condizente com o tanto de água que você tem disponível no caminho e um isotônico ajuda muito para garantir a hidratação”, orienta Lineu Filho, que é guia de montanha e vice-coordenador do Corpo de Socorro em Montanha, o Cosmo.“A gente costuma estar de preferência com uma calça comprida, que proteja a canela de arranhões e também da temperatura. Uma jaqueta impermeável também é importante e uma mochila adequada para caber tudo o que você tem que carregar e que tenha conforto e estabilidade. E não se deve andar sem lanterna, é um equipamento fundamental”, ressalta ainda Lineu.O post Trilhas na Serra do Mar guardam histórias de sobrevivência e tragédias. Conheça algumas delas apareceu primeiro em Bem Paraná.