Musical propõe uma viagem psicanalítica pela personalidade de Gal Costa
6 Mar, 2026
Se nada for alterado no roteiro, Gal, o Musical, que estreia nesta sexta, 6, no 033 Rooftop do Teatro Santander, é encerrado com os versos de O Quereres. A escolha da canção, composta por Caetano Veloso em 1984 e gravada por Gal Costa (1945-2022) onze anos depois, é uma das pistas de que o espetáculo, dirigido por Marilia Toledo e Kleber Montanheiro, foge de pistas óbvias – como foi a carreira da artista. Walerie Gondim interpreta Gal Costa em ‘Gal, o Musical’Mesmo não sendo associada à trajetória de Gal, O Quereres dialoga com a dramaturgia construída por Marilia e Emílio Boechat para o musical biográfico da baiana, que, no teatro, será revelada a partir dos contrastes de sua personalidade.Em um elenco de dezenove componentes, a atriz e cantora Walerie Gondim, de 35 anos, vive a protagonista em seus paradoxos. É a mulher tímida que explorava a sensualidade em cena e a artista transgressora avessa às exposições íntimas. É a responsável pela difusão do tropicalismo no auge da ditadura, mas que continuava apegada às orientações da mãe, Dona Mariah (papel de Dani Cury), e que sempre sonhou em ter os próprios filhos, o que só se realizaria em 2008, com a adoção de Gabriel. Guiados pelas contradições, os autores perseguem a humanização de Gal e investigam suas conexões com as revoluções comportamentais e políticas do País em quase seis décadas. “A ousadia é que criamos um musical inspirado no psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) porque tudo é contado a partir do que acontece dentro da cabeça da Gal”, antecipa Marilia. “A gente imaginou um processo de evolução sob a influência de mitos sumérios, como Ereskigal, Gilgamesh e Inana, para mostrar como Gal lidou com as sombras e desenvolveu os potenciais.” Ao contrário do apresentador Silvio Santos (1930-2024) e do cantor Ney Matogrosso, personagens explorados por Marilia nos musicais Silvio Santos Vem Aí e Homem com H, a biografia da cantora não se caracterizou por superações ou viradas dramáticas. “Ela fez sucesso cedo, nunca se expôs emocionalmente e botou a artista à frente da mulher, então montamos um quebra-cabeça autoral”, diz Marilia. Conversas com o coreógrafo Ciro Barcelos e a atriz Lúcia Veríssimo, íntimos da cantora, foram fundamentais para juntar peças de difícil encaixe. Assim que deram a largada às pesquisas, em janeiro de 2024, Marilia e Boechat entenderam a dificuldade de traçar um perfil baseado em jornais e revistas porque, se de um lado, a artista costumava ser evasiva nas declarações, por outro, as análises sobre os trabalhos vinham cercadas de preconceito. “Raras artistas foram tão desrespeitadas por uma imprensa machista”, observa Marilia. “Gal sempre foi acusada de viver apegadas às figuras masculinas, como se não tivesse vontade própria.”Como é de se esperar, os parceiros de vida e arte da cantora figuram no espetáculoComo é de se esperar, os parceiros de vida e arte da cantora figuram no espetáculo. Edu Coutinho representa Caetano Veloso, Calu Manhães é Maria Bethânia e Théo Charles, Gilberto Gil. Ivan Parente interpreta o empresário Guilherme Araújo. Vinicius Loyola se divide entre Tom Zé e João Gilberto, assim como Barbara Ferr transita entre Dedé Gadelha e Vera, personagem inspirada na atriz Wilma Dias, que namorou Gal no início anos de 1970. Lúcia Verissimo, parceria de Gal nos anos de 1980, é a atriz Bruna Pazinato, e os mitos Ereskigal, Inana e Gilgamesh, sempre presentes em cena, são representados por Badu Morais, Fernanda Ventura e Marco França. “Eu não queria nada contaminado de Broadway e foi fundamental realizar audições em Salvador porque testamos gente que nunca teve contato com esse mercado musical”, declara Montanheiro. “A maior parte do elenco é nordestina e temos cinco baianos.”Duas vezes GalWalerie Gondim nasceu em Manaus, foi criada em Araruama (RJ) e, desde 2018, mora em Salvador. Ser Gal não é novidade. Ela interpretou a cantora em Djavan, O Musical: Vidas pra Contar, no ano passado. “Ali era um recorte de como Gal performava e me apeguei a um estereótipo de sua imagem, agora busco entender o ser humano por trás de todas as fases de sua vida”, explica Walerie. “Tento encontrar o equilíbrio entre o que vejo e o que ouço dela com a Gal icônica que o público gosta.”Na primeira conversa com Walerie, Montanheiro avisou da importância de descontruir a personagem do musical de Djavan. O que contaria agora é o que reverberou em Gal de suas relações pessoais, como os conflitos travados com a mãe, as vivências com os colegas e os reflexos da ausência de uma figura paterna. “Walerie construiu uma Gal pautada na essência e como suas experiências moldaram a visão de vida e arte”, diz Montanheiro. “Para quem viu Gal, por exemplo, no show O Sorriso do Gato de Alice, ficava claro que era uma mulher destemida e não baixava a cabeça para ninguém.” É justamente com O Sorriso do Gato de Alice, o cultuado show dirigido por Gerald Thomas em 1994, que Gal, o Musical se encerra. Depois de O Quereres, o público ouve a popular Festa do Interior na hora dos agradecimentos. Mesmo que não faltem sucessos, como Força Estranha, Baby, Vaca Profana, Azul e Brasil, canções menos famosas colaboram para a dramaturgia. Eu Sou Terrível, Mãe de Todas as Vozes, Lua de Mel e Sol Negro são algumas delas. “Vapor Barato e Recanto Escuro mostram os mergulhos de Gal em suas depressões”, conta Marilia. Montanheiro, porém, alerta que a Gal festiva se faz presente em diversos momentos, como ao som de Balancê e Pegando Fogo. “O objetivo é mexer com o inconsciente do público e vê-lo tomado de emoção”.Em um elenco de dezenove componentes, a atriz e cantora Walerie Gondim, de 35 anos, vive a protagonista em seus paradoxos.Gal, o Musical Onde: 033 Rooftop – Teatro Santander - Complexo JK Iguatemi (Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, Itaim Bibi, São Paulo, SP)Quando: Sexta, 20h30; sábado, 16h30 e 20h30; domingo, 15h30 e 19h30. Até 10 de maio. A partir de sexta, 6 Quanto: R$ 50 a R$ 300