Crônica: Piiiiiiiiiiiiiiiii
7 Mar, 2026
"Cada um de nós terá que ter uma conversa franca consigo mesmo." Crédito: Juliana AzevedoQuando eu era pequena, em algum momento da madrugada, a televisão parava. Não tinha mais programação e listras verticais coloridas apareciam na tela, muitas vezes acompanhadas de um som de piiiiiiii. Tínhamos que parar.Ontem peguei um voo de 12 horas para Roma. Eram cinco da tarde quando saí de São Paulo e me preparei para trabalhar e acompanhar a programação do dia através das mídias sociais e dos sites de notícias.Piiiiiiiiii. O voo não tinha internet. Tive que parar.Algo que sempre me chamou atenção nas cidades europeias que conheci até hoje é que elas param. Tem uma certa hora em que a cidade para. E isso causa angústia em várias pessoas que conheço e que vivem em São Paulo ou Nova York. Como se, quando você estivesse em um domingo em Milão e visse a cidade desacelerar, isso causasse uma angústia. Um espaço vazio externo que provoca um desconforto interno.Da década de 80 para 2026 — ou seja, da minha televisão de listras coloridas para o meu computador de bolso conhecido como iPhone — passamos, na produção de conteúdo, da época da escassez (Galtung e Rudge, 1965) para a época da hiperabundância, termo usado por Laura Preston em An Age of Hyperabundance, ainda sem tradução para o português. Segundo dados recentes, o mundo produz cerca de 402,74 milhões de terabytes por dia.E isso só vai aumentar. Sabemos disso, mesmo que às vezes eu escute a pergunta: “Alice, você acha que essa loucura das mídias sociais vai continuar?”. Não acho. Tenho absoluta certeza.Dito isso, se não podemos contar com mecanismos externos para nos conter — as barras coloridas, a falta de internet no voo ou mesmo cidades que “param” (o que me parece que vai desaparecer aos poucos) — teremos que desenvolver um mecanismo interno que nos pare. Um mecanismo de restrição muito mais forte do que jamais tivemos.Digo desenvolver porque ainda não o temos. Somos criaturas construídas, de alguma forma, para sermos contidas por forças externas.Bebíamos ao dirigir até que a Lei Seca aparecesse (por favor, quem não lembra de beber e dirigir antes da lei que jogue a primeira pedra). Mulheres apanharam — e ainda apanham — até a Lei Maria da Penha estabelecer como crime o que antes era muitas vezes tolerado como “problema de foro íntimo. É como se precisássemos, para tomar consciência e alterar o comportamento, de regras claras e aceitas por um grupo maior de pessoas. Não faz sentido negar — ou pior, tentar segurar — o volume de informação que circula no mundo. Somos uma espécie altamente criativa, com um cérebro não só grande, mas de enorme capacidade e complexidade. Queremos e vamos usá-lo para criar, compartilhar, comunicar, entreter e tudo mais que a comunicação pode realizar.Também não podemos criar leis impedindo adultos de passarem horas da vida em frente às telas. Primeiro foi a televisão, agora são os celulares.Cada um de nós terá que ter uma conversa franca consigo mesmo. Quanto tempo é meu tempo? Quanto tempo absorvo — e quanto tempo estou apenas ali, como um zumbi em frente à tela?Bem, no meu voo, sem a tela do celular ou do computador e ansiosa, pega de surpresa pela falta que eles me fariam, não pensem que usei meu próprio argumento. Assisti quatro filmes que faltavam para poder acompanhar o Oscar. Preenchi o vazio externo que me inquietou com algo que vi como trabalho.Se absorvi os quatro? Claro que não.Se tive consciência disso enquanto assistia? Claro que sim.