Ainda firme, emprego em 2026 deve começar a dar sinais de ‘fadiga’
8 Jan, 2026
Após quatro anos de grandes avanços, batendo e renovando recordes da série histórica, o mercado de trabalho brasileiro deve seguir resiliente em 2026, mas mostrar sinais mais claros de fadiga e piora, ainda que sem grande intensidade. É o que esperam economistas consultados pelo Valor . A mediana de 54 projeções coletadas junto a entidades, consultorias e instituições financeiras aponta para uma taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua encerrando o ano passado em 5,6% - o resultado será divulgado no dia 20 de fevereiro - e alcançando 6,1% no fim de 2026. No trimestre encerrado em novembro, último dado disponível, a desocupação caiu para 5,2%, após renovar a mínima histórica em outubro em 5,4%. Embora comemorada, a queda da taxa de desemprego, sobretudo no último semestre, ocorreu menos pela maior quantidade de empregos criados na economia, mas principalmente pela queda da taxa de participação no mercado de trabalho. Após uma recuperação leve no pós-pandemia, ela voltou a cair e, em novembro, atingiu 62,2%, ainda abaixo do pico do ano, de 62,8%. Com menos pessoas procurando trabalho, a taxa de desemprego consegue cair mesmo que a economia não tenha criado novos postos de trabalho. “Nos últimos anos, a população ocupada estava crescendo a taxas superiores a 2% ao ano. Só que, a partir de 2025, esses números ficaram bem mais modestos”, nota o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Daniel Duque. Ele ressalta que a queda da população está mais visível entre os informais. Em termos dessazonalizados, esse grupo vem observando destruição de vagas desde maio, segundo acompanhamento da 4intelligence. “Até meados de 2025, havia aumento de vagas com carteira e o Caged [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados] rodava acima de 100 mil postos. Conforme a economia foi desacelerando, o mercado de trabalho foi dando os primeiros sinais de arrefecimento e a taxa de empregos formais do Caged caindo para perto dos 80 mil, com a população formal da Pnad recuando mais também”, acrescenta Natália Cotarelli, economista do Itaú. O banco reduziu sua projeção de taxa de desemprego de 6,2% para 5,8% em 2025 e de 6,4% para 6% em 2026. O movimento, no entanto, se deu justamente porque a taxa de participação deve ficar abaixo do que o inicialmente imaginado para o ano passado e para este ano. Para a economista, o que se viu no segundo semestre de 2025 continuará como uma tendência ao longo de 2026, ainda que os recuos nas taxas de emprego e desemprego sejam “suaves”. A analista acrescenta que as eleições majoritárias do próximo ano deverão dar impulso fiscal e estimular setores cíclicos e menos sensíveis à política monetária, como a construção civil, mas isso recairá em ofertas sazonais no primeiro semestre, não sendo significativo para alterar o rumo tendencial do ano previsto pelo banco. Pelos números da Pnad Contínua, a força de trabalho caiu quatro meses consecutivos, com perda de 104 mil postos desde junho. No relatório anual do BTG Pactual, a instituição alerta que, com o ajuste sazonal, esse recuo foi de 469 mil vagas. Porém, dada a queda de 0,5 ponto porcentual (p.p.) na taxa de participação no período, o banco revisou para baixo ambas as projeções para a taxa de desemprego para o final de 2025 e 2026: de 6,3% para 5,9% e de 6,8% para 6,5%, respectivamente. Transferência de renda Segundo Cotarreli, um dos motivos para a taxa de participação estar mais baixa é o novo patamar das transferências de renda em relação à renda total das famílias. “Conforme elas vão ficando mais significantes, é natural que a taxa de participação também recue. E não estou falando de programas como o Bolsa Família, mas dos novos, como o ‘Pé de Meia’ [incentivo estudantil], que corroboram para esse cenário de curto prazo.” Os jovens são os mais atraídos nessas condições e acabam compondo renda com atividades informais que flexibilizam horários, acrescenta a economista. Para 2027, o banco projeta uma taxa de desemprego em 6,2%, mantendo a tendência de 2026. Duque, que já fez estudos mostrando que o Bolsa Família contribuiu para a menor participação no pós-pandemia, avalia que 2025 é um caso diferente. “O que estamos observando é um aperto do número de beneficiários e valores congelados. Então, se existe alguma contribuição, é no sentido contrário, de aumentar a força”, comenta. Em sua avaliação, a questão não são os programas sociais, mas outros os mecanismos que podem estar em operação no momento. “Um deles pode ser a própria renda do trabalho. Em toda casa, existe sempre um provedor principal e outros secundários, que também estão da força de trabalho. Mas, se a renda do chefe de família for suficiente, alguns dos secundários podem escolher deixar o mercado, já que as despesas da família estão cobertas”, explica. Desde 2022, o rendimento real efetivo e a massa de renda vêm crescendo quase que ininterruptamente. No trimestre móvel de setembro a novembro de 2025, a massa de rendimento real habitual chegou a R$ 363,7 bilhões, após recorde de R$ 357,3 bilhões, em outubro. Também avançou 5,8% ante o mesmo trimestre de 2024, que representa um acréscimo de R$ 19,9 bilhões na massa de rendimentos, aponta a Pnad. Nas contas do Santander, a massa de rendimento deve fechar o ano com crescimento real de 6% real, mas subir apenas 3,5% em 2026. A perda de ritmo deve vir, em parte, da menor população ocupada na comparação com 2025, parte por conta da própria desaceleração da economia, diz o economista Henrique Danyi. Já a taxa de desocupação deve encerrar o ano em 5,7% e subir a 6,2% no fim de 2026. Para isso ocorrer, no entanto, é preciso ocorrer uma retomada da participação, observa. “Como isso vai ocorrer? Não deve ser difícil, visto que a economia vai desacelerar bem em 2026 depois de anos crescendo uma média de 3%. A questão é que não é normal que a participação continue caindo. Da mesma forma, não precisa ocorrer uma recuperação expressiva para chegarmos a 6,2% de desemprego. Com retorno a 62,5%, o meu número já é possível”, afirma. Ele salienta ainda que, independentemente dos movimentos da taxa de participação, o concreto é que o mercado de trabalho já está virando. “A taxa de crescimento do emprego saiu de 2,4% na variação interanual em julho de 2025 para 0,9% em outubro. Em um espaço de apenas quatro meses, é uma desaceleração bem expressiva.” Do lado mais estrutural, o economista Paulo Paiva reforça atenção para a taxa de envelhecimento da população e a força de trabalho ativa, que comporão o contexto qualitativo do mercado de trabalho brasileiro do ano que vem e dos próximos. Outro desafio é o mercado informal que, cada vez mais, se estrutura como uma cadeia lucrativa, em especial, para jovens que podem, em um primeiro momento, se atrair para ocupações que se mostram flexíveis, ou mesmo não conquistem espaços com carteira assinada, como detalha Paulo Paiva. Ele reforça que o Brasil vive uma transição de curto e longo prazo nas remodelações de contratação, carreira e salários. No curto prazo, Paiva é mais otimista e vê os índices do setor “surpreendendo”, apesar de juros elevados e expectativas recorrentes de desaceleração. “Todo ano, se você comparar as expectativas do começo e do fim do ano, há uma melhora extraordinária nas previsões e o emprego segue forte”, diz Paiva. A economia tem crescido apoiada no consumo das famílias e do governo, mesmo com uma taxa de investimento baixa, o que dá suporte para que tendência de desaceleração das vagas formais aconteça mais devagar, sem prejudicar significativamente as estatísticas de taxas mínimas de desemprego. Porém, ele admite que a queda da taxa de desemprego para níveis historicamente baixos, sem pressão inflacionária relevante, também desafia os modelos tradicionais. Para Paiva, isso indica que fatores qualitativos - como mudanças na forma de ocupação, decisões racionais sobre formalização e novas preferências dos trabalhadores - têm pesado mais do que as relações clássicas entre emprego, inflação e crescimento. Para o próximo ano, a expectativa de Paiva é de continuidade do crescimento em torno de 2% a 2,5%, com custos fiscais mais relevantes aparecendo apenas mais à frente. Já no longo prazo, o ex-ministro do Trabalho e Planejamento do governo Fernando Henrique Cardoso alerta que a resiliência recente do mercado de trabalho não pode se limitar apenas à taxa de desemprego. “Não há solução sustentável para o mercado de trabalho sem crescimento econômico. E para crescer hoje, você tem dois fatores: ou aumenta o número de horas trabalhadas mantendo a produtividade, ou aumenta a produtividade”, afirma. A mudança de curto prazo se daria com maiores investimentos em tecnologia e automação de alguns setores e capacitação profissional em outros. A questão, porém, é que o envelhecimento populacional é o pano de fundo do cenário e reduz a expansão da força de trabalho, impondo um desafio adicional à dinâmica de crescimento.