‘A psicanálise não sobrevive ao positivismo. Todo conhecimento é construído’, diz Leopold Nosek
8 Jan, 2026
Leopold Nosek atravessou mundos — em tempo e espaço — para construir sua trajetória: nascido na Polônia, em 1947, veio para o Brasil na infância e se formou em medicina pela USP. Saltou a barreira entre a psiquiatria e a psicanálise , deixou a Europa do pós-guerra para ser preso pela ditadura militar brasileira e vivenciou transformações sociais, econômicas e tecnológicas ao longo de décadas de produção intelectual e experiência clínica. É parte desse percurso que ele expõe em seu novo livro, O Método Marlow: Estudos Indisciplinares em Psicanálise (Ed. Perspectiva), que reúne artigos, palestras e ensaios que investigam as intersecções entre psicanálise, arte e política. PUBLICIDADE O título da obra faz referência ao protagonista do romance Coração das Trevas , do escritor britânico-polonês Joseph Conrad , para quem “o significado de um episódio não estava dentro, como um caroço, mas fora, envolvendo o relato que o revelava como o brilho revela o nevoeiro”, trecho que, para Nosek, reflete sua convicção de que a psicanálise opera por alusões, metáforas e construtos narrativos, não por explicações racionais. Não por acaso, seu livro é apresentado como “estudos indisciplinares”, provocação deliberada ao cânone acadêmico. “Penso a análise por três vieses: um epistemológico, da construção do conhecimento. Um ético, da primazia do Outro — o Outro é infinito, como diz um autor de que eu gosto, o Levinas, e o Outro é demasiado para mim, então ele também me traumatiza, não cabe na minha casca. E tem o viés estético”, diz Nosek, que é analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo em entrevista ao Estadão. O autor alude à atuação psicanalítica não como uma ciência, tampouco como prática terapêutica, mas como uma forma de arte performática e efêmera cujos autores e únicos espectadores são o analista e o analisado: “Eu gosto de pensar a situação analítica como uma instalação que tem momentos de representação e, pelo acúmulo deles, vai se desenvolvendo.” Publicidade O filósofo e químico francês Gaston Bachelard diz que a ciência sem a poética é apenas alienação. Nosek parece ir além e afirmar que, sem a capacidade narrativa, é impossível produzir conhecimento de qualquer espécie: “A teoria das esferas cósmicas de Ptolomeu, que postulava que o Sol e as estrelas giram ao redor da Terra presos em esferas consecutivas, dava conta da navegação no Mediterrâneo e é carregada de poesia. A figuração helicoidal do DNA também não é? Os espaços, localizações, energias e dinâmicas postuladas por Freud não são maravilhosas tentativas metafóricas?” Ao longo dos ensaios, o autor defende a prática analítica como um “iluminismo noturno”, uma técnica de escuta e construção de sentidos à margem da consciência: “Com certeza a psicanálise não sobrevive ao positivismo”, afirma ele quando perguntado sobre a recorrente crítica da psicanálise como uma pseudociência. “Todo conhecimento é construído”, diz Nosek. “As pessoas falam ‘Que equação elegante!’ e as equações mudam. Acho que se tivéssemos o olho da mosca, uma multiplicidade de olhos, construiríamos outras equações.” Psicanálise é ciência? Se não, o que é, afinal? Leia livros para se aprofundar no assunto Nosek não deixa de refletir sobre os fenômenos contemporâneos, lançando luz sobre os rumos da política, da tecnologia e da sociedade: “Até que a transformação se torne cotidiana, eventualmente uma geração não alcança. Essas transformações são muito rápidas, não são mais de uma geração para outra, mas ocorrem no decurso de uma geração. Eu educo meus filhos, mas educo para o mundo de hoje e eles viverão em outro mundo. Segundo Freud, há três tarefas impossíveis: governar, educar e psicanalisar. Como vamos estar em 2030?”, pondera o psicanalista. Para além das questões mais abstratas e filosóficas, o livro reúne percepções instigantes a respeito da sociedade contemporânea, sempre perpassadas pela erudição e por um senso crítico afiado. “Perguntei para uma moça que estava tendo seu primeiro filho: ‘O que gostaria que ele fosse?’ Tem culturas que gostariam que fosse messiânico, presidente, médico... Ela falou que queria que ele fosse um Bill Gates. Eu acho que, para cada nenê que nasce, a gente sonha com uma maravilha, mas cai do cavalo rápido. A gente busca a maravilha, é a raiz dos sonhos, dos devaneios, dos vícios, das verdades inquestionáveis.” Publicidade “Uma das coisas mais interessantes da contemporaneidade é a epidemia de cachorro”, analisa o autor. “Não é mais aquele que fica no quintal, come comida de resto e foge se abrir o portão. Agora é uma entidade atrás de quem eu ando recolhendo dejetos humildemente. O que aconteceu para de repente o cachorro virar isso? Não é só tecnologia, mudou o lugar do cachorro no mundo. Freud, em uma carta, falava do amor pelos cachorros — ele atendia com dois cachorros na sala. É a única relação que não tem ambivalência: não tem ódio, é puro amor. São amores fáceis. A mulher briga comigo, meus filhos me decepcionam, mas meu cachorro não.” ‘Como entender nosso fascínio pela tirania sem levar em conta a psicanálise?’, questiona pesquisador Bisneta de Freud cresceu distante do legado familiar, mas hoje coloca famosos no divã; conheça Psicanálise fora do consultório: Como as ideias de Freud ajudam a aprofundar a leitura Em tempos de polarização ideológica, convicções firmes e superficialidade nos debates, os textos de Nosek oferecem um refúgio de estofo intelectual e mostram que, se a História é escrita pelos vencedores, como professa Walter Benjamin, a psicanálise “trafega dando voz a ideias que foram derrotadas”. O que Freud diria sobre nosso comportamento online?