Hey, KondZilla, brasileiro também gosta de música boa

admin
16 Mar, 2026
Um produtor musical amigo meu me fala, indignado, a respeito de uma entrevista com KondZilla publicada no jornal Meio & Mensagem . Para quem não sabe, Konrad Dantas, o KondZilla, criou um canal de videoclipes dedicado ao funk que hoje conta com 68 milhões de inscritos e tem em seu catálogo dois dos clipes mais vistos do país – cerca de 40 bilhões de views. Ele também produziu e dirigiu Sintonia , uma série sobre o universo da periferia, exibida pela Netflix . PUBLICIDADE Me debrucei sobre a publicação pensando que encontraria o terceiro segredo de Fátima ou a prova definitiva de que o Palmeiras tem, sim, um mundial. Mas encontrei um executivo de plenas convicções de suas ideias, ainda que sejam diferentes do que entendo como arte. Algumas colocações, no entanto, chamaram a minha atenção – e não de modo simpático. “Na minha visão, o brasileiro não gosta de coisa boa. Ele gosta de sucesso. E o sucesso, para o entretenimento que está associado à mídia, pode ser conduzido”, diz KondZilla. Pois bem. É esse tipo de visão mercantilista que criou o cenário desolador que conhecemos hoje. Que produz popstars de papel, ótimos no engajamento às custas de declarações polêmicas e trânsito livre no universo publicitário, mas que são incapazes de colocar mil pessoas numa casa de espetáculos. Estrelas de celofane, que alardeiam carreiras internacionais – às custas de alguns milhares de dólares em marketing e publicidade – e participações em festivais de música outrora badalados, mas falham na hora de arrumar um produtor musical de ponta que traduza seu trabalho para as plateias internacionais. O caminho de volta para o Brasil, claro, é sempre acompanhado por declarações de amor ao feijão e saudades da família. A situação se torna ainda mais complicada no funk, universo no qual KondZilla é um dos reis absolutos. É um cenário em que o vendedor de casquinha de sorvete pode virar um astro da noite para o dia – e até retornar para a antiga profissão, caso não consiga saciar a voracidade do mercado pelo hit da semana. Habitat que atua como deuses famintos dos templos pagãos da antiguidade. “Neste momento, temos três músicas no Top 200 do Spotify, mas tive que fazer 600 para essas performarem tão bem e pagarem a conta das outras 597”, confessa Konrad Dantas na mesma entrevista. Os produtores são os que mais sofrem nessa cadeia alimentar: estima-se que a maioria ganhe de 1,5 mil a 3 mil reais mensais e, em alguns casos, 10% dos royalties do single, para criar a batida da vez (um privilégio para poucos). De tempos em tempos, alguns desses operários padrão do pancadão se tornam superstars. Dennis DJ , por exemplo, passou anos produzindo singles de sucesso para a equipe de baile Furacão 2000 (e por um salário bem inferior à sua qualidade como produtor) até se tornar protagonista do próprio baile – que, aliás, é imperdível. Publicidade A estratégia de KondZilla reproduz, de modo ainda mais cruel, a atitude mercantilista das gravadoras na virada das décadas de 1980 para 1990. Em tempos passados, havia o astro de sucesso, que renderia dividendos para a companhia, e o de catálogo, que poderia até não vender de imediato mas cuja carreira seria apreciada tempos depois (e hoje o catálogo tem um lucro considerável nas plataformas de streaming para as companhias discográficas). A partir dos anos 1990, só o popstar de lucro fácil seria admitido nas companhias. Hoje em dia, esse negócio é ainda pior: o tal contrato 360 faz com que a gravadora seja sócia de seu funcionário em todas as suas fontes de renda – shows, merchandising, patrocínios e direitos autorais. Mais uma vez, no funk, essa estratégia chega a índices predatórios. “O que eu faço para ser, então, o dono da música? Entendi que precisava ser o dono do artista e, assim, fui entendendo no meio do caminho. Nada foi planejado”, diz o empresário. Rock virou música de velho. E a culpa é do próprio roqueiro que se recusa a escutar algo novo Estes admiradores da música resgatam raridades da MPB - e as compartilham com o mundo Há futuro para as divas do rebolado? Por ora, carreiras passeiam pelo grotesco mundo dos escândalos Mas o brasileiro gosta de cultura, sim. Segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados no início de 2026, o setor cultural emprega mais de 6 milhões de pessoas e contribuiu com 388 bilhões para a nossa economia. E brasileiro, como diriam os Titãs, também gosta de diversão e arte. Uma pesquisa da Fundação Itaú, publicada em 2023, mostra que as atividades mais comuns, de acordo com a maioria dos entrevistados, foram, em ordem de preferência, ouvir música, assistir a filmes em streaming, acompanhar séries online e participar de eventos ao ar livre. Segundo o relatório, “eventos ao ar livre em espaços públicos são os mais comuns entre os entrevistados, embora essa escolha seja menos citada entre aqueles com níveis mais elevados de escolaridade e pertencentes às classes AB.” O brasileiro gosta de música boa. Sou vintage o suficiente para ter presenciado a Filarmônica de Israel e a Royal Concertgebouw Orchestra no Parque do Ibirapuera, que aconteceram respectivamente em 1997 e 2013. Ou a festa que Ray Charles promoveu no mesmo local, em junho de 1995, que reuniu mais de 150 mil pessoas. Todos esses eventos foram para um público diversificado, de todas as idades e classes sociais. Publicidade Por outro lado, brasileiro assiste o que tem à sua disposição. Nesse caso, apresentações de duplas sertanejas e de astros do pop funk – nada contra esses gêneros, mas bem que poderíamos ter uma programação mais equilibrada em vez da monocultura popularesca. PUBLICIDADE A declaração de KondZilla chega no exato momento em que assisto, pela mesma Netflix que exibe Sintonia , ao documentário sobre Paulinho da Costa. The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa , dirigido por Oscar Rodrigues Alves, é uma celebração ao poder musical do percussionista carioca que tocou com praticamente todo mundo que importa no século 20 e 21. A lista tem desde nomes do jazz como Dizzy Gillespie e Diana Krall, do soul e do funk como o Earth Wind & Fire, de popstars (de verdade, não de papel) como Madonna e Michael Jackson aos maestros e produtores Quincy Jones e Lalo Schifrin. É um ser apaixonante, que saiu de um cenário de extrema pobreza para os grandes palcos internacionais. E sabem como? Porque preferiu a coisa boa ao sucesso. Nesse universo, eu fecho com Paulinho. E torço para que KondZilla use seu talento também para a arte. Qual a sua opção?