ChatGPT dos bichos? Inteligência Artificial pode ajudar a traduzir a linguagem dos animais

admin
18 Mar, 2026
Aquela ideia de conseguir conversar com o seu cachorro pode não ser mais uma abstração tão distante. A organização sem fins lucrativos californiana Earth Species Project utiliza inteligência artificial para decifrar a linguagem dos animais. “Nossa capacidade de entender é limitada pelas nossas habilidades e a IA muda isso, abre uma nova porta”, contou Aza Raskin, cofundador da iniciativa. Ele falou sobre os avanços nos estudos sobre o tema no SXSW (South by Southwest) , festival de inovação que acontece na cidade texana de Austin, nos EUA. “Há 8 milhões de espécies no planeta e só entendemos completamente a linguagem de uma delas, os humanos”, diz. Organização utiliza inteligência artificial para decifrar a linguagem dos animais. O executivo observa que, pela primeira vez, será possível compreender, em escala, questões da natureza sem depender apenas dos cinco sentidos humanos. Com sensores que captam diferentes sons e a construção de amplas bases de dados sobre como os animais se comunicam, a inteligência artificial pode gerar conclusões inéditas. Um exemplo acontece na Universidade de British Columbia. Há mais de duas décadas, a instituição monitora os sons de orcas no oceano, sem grandes saltos em conhecimento a partir disso. Agora, esses ruídos têm sido submetidos à inteligência artificial, que pode encontrar padrões e decifrar como esses animais se entendem. No SXSW 2026, especialista fala sobre o uso de IA para compreender animais. Novas linguagens, novas visões de mundo Raskin entende que traduzir a comunicação dos animais poderá transformar a compreensão humana do universo. Ele cita pesquisas feitas com a linguagem humana para exemplificar isso. Segundo ele, embora os idiomas falados pelas pessoas sejam muito diferentes, análises feitas com o uso de inteligência artificial mostram que a visão de mundo ainda é muito parecida, independentemente da bagagem cultural ou da região do planeta que determinada comunidade habita. Já a linguagem dos animais será capaz de mostrar outro caminho. “Uma baleia, que passa a vida no fundo do oceano, terá uma compreensão de mundo muito diferente à de um corvo”, diz. Segundo ele, toda essa informação vai contribuir para que a ciência compreenda melhor as diferentes espécies, os ecossistemas e o planeta. Os animais têm nomes — e não são os que damos a eles Embora Raskin lembre que a compreensão da ciência sobre a linguagem dos animais ainda seja pequena, ele cita descobertas que provam o quanto a comunicação é essencial para algumas espécies. Segundo o especialista, algumas flores produzem imediatamente mais néctar só porque percebem abelhas se aproximarem, mostra estudo da Universidade de Tel Aviv. “É como se, mesmo sem um sistema nervoso, elas escutassem as abelhas e ficassem animadas.” Corvos, conhecidos pela inteligência, são também um tanto quanto “falantes”. Só recentemente a ciência descobriu que entre 60% e 70% da comunicação entre esses bichos acontece enquanto eles estão voando, conta o especialista. E, se você pensa que nome próprio é coisa de gente, saiba que há uma série de espécies que usam sons para definir determinado indivíduo. “Em muitos casos, isso indica uma autoconsciência, um senso do ‘eu’, que é algo que julgamos tão humano”, diz. Papagaios, por exemplo, sussurram no ouvido dos filhotes recém-nascidos um som que será o nome pelo qual aquele indivíduo será chamado a vida toda. Elefantes fazem o mesmo, conforme mostram pesquisas da Universidade do Colorado. Já os golfinhos não só definem nomes, como também usam esses sons para “falar” sobre um sujeito a outro indivíduo. Talvez, quem sabe, até a fofoca esteja presente em outras espécies. ‘ChatGPT dos bichos’ deve ser usado com cautela O Earth Species Project tem reunido descobertas científicas sobre o tema em sua base de dados e já alimentado sua IA com informações, conta o cofundador. A meta é ambiciosa: chegar a uma espécie de “ChatGPT dos bichos”, capaz de traduzir os sons do meio ambiente e gerar ruídos para que possamos comunicar algo a determinada espécie. Acontece que esse segundo movimento precisa ser feito com muito mais cautela. Raskin lembra que, durante um estudo, pesquisadores emitiram um ruído na natureza que era o chamado de uma mãe elefante que já havia morrido. Filhotes atenderam correndo, procuraram de onde o chamado veio por algum tempo e, incapazes de encontrá-la, demonstraram frustração e luto. “Imagine emitir uma mensagem errada em um ecossistema delicado. Isso pode causar uma imensa disrupção”, diz. Ele cita as baleias-jubarte, que têm uma comunicação quase viral no oceano, com mensagens que rodam o planeta. “Usar linguagem sintética pode abalar um equilíbrio de uma cultura delicada”, diz. Por isso, ele reforça que, como raramente acontece, a evolução tecnológica nesse campo venha também acompanhada de regulamentações e tratados internacionais para que seu uso seja feito de forma ética. “Com isso, podemos elevar a nossa compreensão e mudar nosso relacionamento com a natureza”, conclui.