Michelle des Bouillons junta provas para validar recorde nas ondas gigantes: ‘Missão da minha vida’
18 Mar, 2026
Em 13 dezembro, Michelle des Bouillons participava do Nazaré Big Wave Challenge , competição da WSL realizada na vila portuguesa famosa por suas ondas gigantes. Ao longo dos últimos meses, a surfista brasileira tem se dedicado a juntar evidências para comprovar que, naquele dia, pegou a maior onda já surfada por uma mulher. Sai a adrenalina do surfe e entra a ansiedade acompanhada de documentações, medições e burocracia. Se tudo der certo, o feito será reconhecido em setembro, durante o Big Wave Awards , conhecido como o Oscar das ondas gigantes. “Tem sido a missão da minha vida”, conta ao Estadão . “Realmente dá uma ansiedade, uma esperança, não tem como negar. O que vai me mantendo mais calma em relação à essa espera é a parte do meu trabalho. Então, eu já tenho uma medição, agora eu já estou trabalhando em uma segunda medição. Quero ter pelo menos três.” Michelle des Bouillons tenta comprovar recorde nas ondas gigantes. A cada evolução no trabalho científico, Michelle entra em contato com Bill Sharp , o idealizador do prêmio, de quem já obteve um retorno inicial positivo. Dedicada a não dar margem a erros, busca apoio na academia e tem conversado com especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de uma instituição de Portugal. O dossiê passará por avaliação da equipe técnica do prêmio, que valida o recorde em parceria com o Guinness World Records . A primeira medição, feita pelo especialista Paulo Vinícius Lopes, atribuiu 24,99 metros à onda surfada pela carioca de 35 anos, número que superaria o atual recorde feminino de 22,4 metros, mantido pela também brasileira Maya Gabeira, desde 2020. Entre os homens, a marca é do alemão Sebastian Steudtner, com 26,21 metros. Bater o recorde de maior onda não era exatamente um objetivo para Michelle. “Eu nunca na minha carreira quis me preocupar com esse título. Agora, com isso em mãos, tenho de fazer a minha parte”. Quando estava surfando a onda, ela percebeu que vivia algo especial. Ao sair do mar, a reação dos outros surfistas deixou claro que fazia sentido pensar que poderia ter surfado uma onda rara. O momento único veio para a carioca em sua nona temporada em Nazaré. Era um dos mares mais agitados dos últimos tempos, por isso o plano consistia em pegar a maior onda possível logo na primeira oportunidade. Tudo convergia para um desfecho positivo, da confiança em si à sintonia entre ela e Ian Cosenza, seu parceiro na vida e na água, responsável por pilotar o jet ski que a posiciona na onda. “O mar estava muito grande, top 3 dos maiores dos últimos 10 anos. Eu não estava com medo. Era como se eu estivesse muito pronta para tudo que viesse para mim, inclusive essa onda que veio. Eu sabia que tinha que entrar ali e fazer o meu trabalho. Eu não estava deixando o medo entrar na minha cabeça. Minha sintonia com o Ian estava excelente, ele conseguiu me deixar muito calma. A minha equipe de resgate, que foi o Daniel Rangel e o Paulo Diego, também me deixaram muito tranquila”, lembra. Surfista brasileira Michelle des Bouillons tenta comprovar recorde feminino nas ondas gigantes. Michelle se sentia preparada por causa da relação que mantém com o mar e da experiência acumulada ao longo dos anos, seja em Nazaré ou outros pontos tradicionais de ondas gigantes. É certo que ondas tão grandes quanto a daquele dia 13 dezembro passaram por ela em outras ocasiões. “A gente está lidando com a força da natureza. Isso requer uma relação muito forte com a onda, aquela potência toda que existe ali, aquela energia... Não é nem um pouco de sorte, eu acho que Nazaré escolhe a pessoa, o momento certo e você tem que estar 200% pronto para esse momento. Tenho certeza que eu já tive oportunidade de bater o recorde antes”, diz “Já vieram ondas incríveis para mim, gigantescas, mas eu acho que eu não estava preparada. Não fiz uma linha radical como a que eu fiz agora. Deixei ondas passarem, entrei e saí. Quando acontece, a gente até sai da água pensando: ‘Cara, eu falhei” Só que com o tempo e com a experiência a gente vai entendendo que na verdade eram processos para para o seu amadurecimento ali dentro”, completa. Michelle de Bouillons está no mundo dos big riders desde 2017, caminho que decidiu por causa da falta de oportunidades no circuito de competições de surfe no Brasil nos anos 2010. O período foi marcado por uma crise severa, caracterizada pela ausência de patrocínio e cancelamento de circuitos profissionais. Surfista brasileira Michelle des Bouillons tenta comprovar recorde feminino nas ondas gigantes. Da falta de oportunidades às ondas gigantes Filha do shaper francês Jean Noel e “surfista desde a barriga da mãe”, como gosta de frisar, nunca pensou em abandonar o esporte. Mesmo que tenha frequentado a universidade e trabalhado como modelo, manteve o surfe por perto por meio de trabalho na televisão, participando de produções do canal OFF. Foi quando se mudou para a França, terra de seu pai, que se aproximou das ondas gigantes. “Lá eu me senti mais próxima desse universo. Um dia eu fiquei refletindo sobre minha vida. Como é que está a minha carreira? Como eu estou sendo vista hoje como uma surfista profissional? O que eu quero deixar como legado? Como eu quero ser vista no futuro? E aí veio esse insight na minha cabeça. Eu falei: ‘Cara, aí acho que é isso. Eu vou tentar, eu vou eu vou começar. Eu quero pegar umas ondas grandes, gigantes, maiores’”. À época, já tinha Ian, também big rider, ao seu lado para experimentar o novo desafio. O círculo de amizades do namorado também ajudou, especialmente a presença de Lucas Chumbo, um dos grandes nomes brasileiros da modalidade. Um convite para Nazaré bastou para que as portas se abrissem. Surfista brasileira Michelle des Bouillons tenta comprovar recorde feminino nas ondas gigantes. Criada em um país que chegou a ter uma crise de falta de competições feminina, chegou ao surfe de ondas gigantes como uma das poucas mulheres a se aventurar nessa vertente da modalidade. De qualquer forma, sentiu-se bem recebida, especialmente pelos homens ao seu redor, com exceção de um professor que contratou para ajudá-la no início. “Ele me comparou, que eu nunca seria igual a outra surfista que na época estava com muito destaque. Mas não deixei aquilo me fragilizar, sabe? Aquilo até me deu força.” Michelle se vê abraçada pela comunidade dos big riders e não vê qualquer resistência à sua presença no ambiente ainda predominantemente masculino. Além de tudo que mostra em cima da prancha, atua como suporte no jet ski, pronta para resgates em zonas críticas se necessário. “Eu quebrei essa figura de frágil com meu empenho, meu esforço, minha disposição de estar nas viagens, de lidar com materiais brutos. De estar ali é passando frio igual, e pilotando super bem também. E eu acho que eu também inspiro muitos homens. Porque eu sei que tem uma um pessoal que me admira bastante. A gente tem muita troca, muita conversa. Eu acho que Nazaré é uma família, num todo, muito legal.” No futuro, quando espera já ostentar o título de recordista feminina das ondas gigantes, a carioca quer fomentar uma nova geração de mulheres big riders. Para ela, no momento, a grande questão é gerar oportunidades. “Para o surfe feminino de onda grandes evoluir, as mulheres têm de se dedicar mais à pilotagem. Por ser algo de certa forma caro, eu acho que isso assusta um pouco as mulheres. Eu tenho um projeto de formar meninas que eu veja um potencial para seguir a mesma carreira que a minha.” “Tem muito machismo ainda, mas eu acho que mais para o lado do surfe competição. No surfe de ondas grandes... é um esporte que já dá medo em muitos homens, imagina em meninas. Então, é uma questão de querer mesmo, Eu acho que não é uma questão de preconceito, porque fui muito bem recebida em Nazaré. Quando eu fui para Havaí, fui muito bem recebida, respeitada, admirada. Acho que é uma questão do querer. E eu vejo que o maior bloqueio é como se estruturar para estar ali”.