Crônica: ‘A cem por hora’

admin
10 Jan, 2026
"Tive um 2025 ainda mais acelerado e viciante e me perdi de mim mesma no processo"Estava com saudades de mim. Nos primeiros três dias de férias, fui no automático. Marquei dois passeios por dia: um logo pela manhã, para no impulso conseguir sair da cama, e outro no final da tarde, para ter certeza de que não emendaria o soninho da tarde noite adentro. Foi uma boa técnica. A exaustão estava presente em cada passeio, mas cancelar programas já pagos não faz parte da cultura da minha família — foi uma estratégia segura.No primeiro dia, percebi minha irritação com o ritmo local. Arranquei sem querer a maçaneta do banheiro com a força do puxão. Vi, na bolsa de praia, o absurdo de levar três protetores solares para o rosto, dois para o corpo e dois para o cabelo. Minha ansiedade havia se revelado um dia antes, na compulsão dentro da farmácia.Fazer uma coisa de cada vez. Não checar o celular a cada cinco minutos. Focar na conversa presente. Eu sabia o que tinha que fazer. O problema nem era não fazer, mas o incômodo que a resistência ao hábito me trazia. “O vício acontece quando perdemos a liberdade de nos abster de algo”, segundo Sêneca. Tenho um vício no trabalho, um vício no ritmo acelerado da minha vida.Tive um 2025 ainda mais acelerado e viciante e me perdi de mim mesma no processo. Parei de me reconhecer e, ao final do ano, já tinha desistido de mim: só queria cumprir e entregar. Um dia antes da viagem ao Ceará, pensei que a ideia de passar dez dias em uma praia deserta tinha sido feita por outra pessoa.No quarto dia, me olhei com carinho no espelho. A menina Alice estava dando as caras. Lenta, suave e de uma morenice brasileiríssima. Não sabia onde ela estava; não lembrava de tê-la visto por muito tempo. Estava com saudades. Minha nora disse que descobriu que sou engraçada. Rimos muito — eu não lembro do quê. Talvez o melhor riso seja mesmo esse: rir sem nem se lembrar do que era engraçado.Estou de volta a São Paulo e sei o quanto fica difícil ver a paisagem em um carro a cem por hora, como é a vida que levo e que não tenho intenção de mudar. Pensei nesses dias em criar rotas de fuga, pequenas paradas no acostamento da vida. No mesmo momento em que penso isso, tenho medo de perder algo que, com certeza, naquele mesmo instante, passará em altíssima velocidade.Por que, então, não tenho medo de perder o que pode ser visto do acostamento?Onde a velocidade se tornou sinônimo de vida plena e produtiva?Sei que, dentro de mim, trouxe um pouco dessa Alice que consegue ver a vida plena em uma comunidade que habita a caatinga do interior do Ceará.Feliz 2026!