Como relógios de pulso podem prever o surgimento de diabetes

admin
20 Mar, 2026
Quando se trata de doenças, prevenir é melhor do que remediar. Normalmente são os sintomas que nos levam ao médico e, quando o sintoma aparece, a doença já está instalada. E aí sobra tratar. Prevenir é mais difícil, pois é necessário avaliar indicadores que mostram que a doença vai se instalar. E como todos nós podemos desenvolver quase todas as doenças, a prevenção para ser efetiva tem de medir indicadores para todas as doenças, em toda a população. Uma tarefa hercúlea e caríssima. Na prática, visitamos o médico uma vez por ano e nos submetemos a uma bateria de exames capazes de prever o aparecimento de algumas poucas doenças. Aumentar os exames é possível para uma minoria capaz de arcar com os custos. Para o restante da população, ou nada é feito, ou os exames se limitam a algumas doenças. Por esse motivo, a busca por métodos simples e baratos capazes de prever o aparecimento futuro de uma doença é um desafio constante. A novidade é a descoberta que é possível detectar o início do processo que leva ao surgimento do diabetes tipo 2 usando dados coletados continuamente pelos chamados smart-watches. Cientistas apontam que dados coletados por relógios, se coletados por longos períodos e tratados por um sistema de IA, podem ser capazes de detectar a resistência à insulina. Pessoas que virão a sofrer de diabetes possuem o que os médicos chamam de resistência à insulina. É uma dificuldade crescente do corpo em manter a glicemia sob controle. À medida que o tempo passa, esse esforço do sistema de controle aumenta desgastando o sistema até que nos tornamos pré-diabéticos. Nesse ponto o nível de glicose sobe um pouco. E finalmente nos tornamos diabéticos quando o controle é perdido. Detectar o pré-diabetes e o diabetes é relativamente fácil medindo a glicose presente no sangue. Mas a resistência à insulina é mais difícil de ser medida pois envolve testes mais sofisticados. Acontece que a doença pode ser evitada mais facilmente se a resistência à insulina pudesse ser facilmente identificada. Aí o processo que leva à doença pode ser revertido por medidas como dietas, perda de peso e exercícios. Os cientistas intuíram que os dados coletados por esses relógios, como batimentos cardíacos e sua variação ao longo do tempo, períodos de sono e vigília, e passos dados, se coletados por longos períodos e tratados por um sistema de inteligência artificial seriam capazes de detectar a resistência à insulina. Para verificar se isso de fato era possível, coletaram os dados de relógios de 1.165 pessoas e submeteram essas pessoas a testes sofisticados para medir o grau de resistência à insulina. A pergunta era simples, os dados dos relógios eram suficientes para detectar a resistência à insulina? Usando os dados do relógio e os dados da medida direta da resistência da insulina, os cientistas conseguiram construir um modelo capaz de, usando somente os dados do relógio, classificar as pessoas em três grupos. As totalmente saudáveis, as no início do processo de resistência, e as com resistência à insulina. Pessoas nos últimos dois grupos, se submetidas a testes simples, podem confirmar a resistência à insulina. O método não é perfeito, mas é suficientemente bom para identificar as pessoas com risco alto e que devem se submeter a testes complementares. E essas pessoas, com atitudes relativamente simples, podem evitar o aparecimento do diabetes. Hoje, 90% dos 537 milhões de pessoas com diabetes sofrem do tipo dois e esse número deve crescer para 643 milhões em 2030. E se acredita que 20 a 40% da população mundial sofra de resistência à insulina não identificada. Se uma fração dessas pessoas puder ser identificadas pelos relógios e se elas conseguirem evitar o progresso da doença o impacto no crescimento de pessoas com diabetes pode ser enorme. Esse trabalho de validação dos dados de relógios para detectar resistência à insulina foi feito por um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge na Inglaterra e os cientistas do Google na Califórnia. Ele vai permitir que os fabricantes de relógios possam propagandear essa capacidade de seus relógios com base em um estudo científico cuidadoso. Muitos fabricantes de relógios afirmam que seus produtos podem detectar doenças, mas que eu saiba esse é o primeiro caso em que isso foi comprovado cientificamente. Mais informações: Insulin resistance prediction from wearables and routine blood biomarkers. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-026-10179-2 2026