O turismo que aprendeu a escutar e curar

admin
11 Jan, 2026
Projeto Casa Daia de Eduardo Hargreaves, no CE, contou com a consultoria de Viviane Gruetzmacher. Crédito: Colagem de Thais Barroco sobre fotos de DivulgaçãoCriada inicialmente com a intenção de ser uma casa de uso pessoal, a Casa Daia, na Barra dos Remédios — também conhecida como Praia dos Remédios, no extremo oeste do litoral do Ceará —, transformou-se, quase sem que seu fundador percebesse, em um projeto de hotelaria regenerativa guiado pelo ritmo do lugar, da comunidade e do tempo.Implantada em uma antiga fazenda de 220 hectares, entre dunas, mangue, carnaubais e a maré que dita o compasso dos dias, a casa nasceu sem pressa, sem projeto fechado e sem vocação imediata para virar hotel. Começou como refúgio e foi ganhando forma à medida que seu criador entendia que, ali, não bastava chegar. Era preciso escutar. “Cheguei aqui e aos poucos entendi que poderia cuidar da história, da memória das pessoas”, diz Eduardo Hargreaves, fundador do projeto, em entrevista à Coluna.Há um Brasil que anda cansado que tenta se curar com um novo turismo. No litoral do Ceará esse caminho se manifesta em iniciativas que trocam velocidade por escuta e excesso por cuidado. No caso da Casa Daia, isso significou aceitar desde o início que o tempo não seria o do mercado, nem o da urgência do turismo tradicional, mas o dos ciclos naturais e das relações humanas que já existiam ali.Carioca, 51 anos, com 15 deles vividos em Nova York, Hargreaves voltou ao Brasil em 2020, no meio da pandemia, depois de um esgotamento profundo com o mercado financeiro. “Tive burnout e falei: ‘Vou tirar um ano sabático’”. O plano era simples e quase banal: comprar um terreno no litoral e construir uma casa para uso pessoal. O que veio depois — um projeto de turismo regenerativo ancorado no contexto local, na cultura e no tempo — não estava no roteiro. “Isso aqui era para ser a minha casa. Nada do que você está vendo foi uma coisa preconcebida. Não foi assim: vou fazer impacto, vou fazer regeneração. Foi algo que cresceu em mim e tem me transformado”.A porta de entrada foi o mar — e a paixão de Eduardo pelo kitesurf que o levou ao Ceará. Mas logo ficou claro que o vento não explicava tudo. À medida que Eduardo começou a circular pela Barra dos Remédios, conversar com moradores e observar como aquele trecho do litoral havia permanecido relativamente preservado, tornou-se evidente que repetir a lógica dominante em outras regiões do Nordeste não era uma opção. “Você olha do Preá até Barra Grande e vê loteamento, condomínio, adensamento, falta de respeito com a comunidade. Gente que loteia, vende e não quer saber do impacto socioambiental”. A pergunta deixou de ser apenas o que construir — e passou a ser como permanecer e integrar hotel, comunidade, natureza. Hotelaria regenerativa Foi nesse momento que ele entendeu que precisava de ajuda especializada. Chamou uma especialista em desenvolvimento regenerativo, permacultora e educadora socioambiental, com mais de uma década de atuação no Nordeste. Viviane Gruetzmacher entrou quando quase nada estava definido — e talvez por isso tenha sido decisiva. “Ele não tinha claro que ia virar hotel. Sabia o que não queria. Eu vim para fazer a leitura do território, entender quem são as pessoas, o que existe de potencialidade”. Durante quase um ano, não se construiu nada. “A gente só reconheceu o lugar. Fez mapeamento, zoneamento ambiental, para saber onde pode fazer, o que pode fazer, como agir no mangue, na duna, no salgado”, afirma a especialista.Esse período de suspensão — tão raro no mercado imobiliário e turístico — foi, na prática, um exercício de desaprendizado. A área revelou uma complexidade rara o que também a torna especialmente bela para o turismo: praia, Caatinga, rio, mangue, áreas de transição e carnaúbas protegidas. “Aqui o tempo é regido pelo sol e pela maré. A maré é quem escolhe o que a gente vai fazer e quando vai fazer”, conta Eduardo. Não se tratava apenas de desenhar edificações, mas de compreender fluxos naturais, ciclos de cheia e vazante, períodos de reprodução, ventos e silêncios. “Não é só onde construir, é quando. A natureza tem um tempo que não é o nosso”.DesafiosA arquitetura surgiu como consequência dessa escuta. A casa principal reaproveita a antiga sede da fazenda, enquanto as suítes e bangalôs foram implantados em clareiras naturais, com mínima interferência no solo, utilização de materiais locais, madeira engenheirada, saneamento ecológico, ventilação cruzada e conforto térmico. Nada de impor um desenho idealizado ao entorno. “A gente teve que aceitar que tem coisa que simplesmente não dá para fazer. E tudo bem”.Para alguém acostumado ao ritmo acelerado do mercado financeiro, esse processo foi também um aprendizado sobre tempo e valor — inclusive na relação com investidores. “É um negócio de mais de cinco anos para começar a ter uma visão melhor. Não adianta ter pressa, porque a comunidade tem uma velocidade, a natureza tem uma velocidade que não é a nossa”. Convencer o capital a acompanhar esse compasso fez parte do caminho. “Eu sou majoritário, tenho controle, mas tenho investidores. E eu falei: ‘fazer certo hoje valoriza mais o investimento’”. Quando a decisão de abrir a casa para hóspedes finalmente se impôs, outro desafio apareceu: como reduzir a dependência do vento e da sazonalidade do kitesurf. “Não dá para depender só disso. Eu montei tudo aqui para ser menos dependente do kite”. A resposta veio na forma de experiências que extrapolam o esporte e convidam o visitante a desacelerar e se relacionar com o entorno. “A gente leva para fazer a tradicional coleta de sururu com marisqueiras, levamos para conhecer e tomar café na comunidade, levamos para visitar os currais de pesca onde além de entender essa técnica tradicional se pode escolher um peixe para comer a noite na Casa Daia.Nem todo mundo se encanta — e isso também faz parte. Tem gente que fala: ‘Eu queria estar vendo televisão’. Tudo bem. Mas há quem fique. Quem escute. Quem entenda que o novo luxo não está na oferta infinita de tudo, mas na possibilidade de outro ritmo, outra interação com a natureza”. “E sobre nosso impacto na comunidade local, não é sobre salvar ninguém. É sobre não atropelar”, resume.