Como seria o resultado das eleições se o Brasil usasse o modelo eleitoral dos EUA?
21 Mar, 2026
Reconhecidos historicamente como a maior democracia do mundo, os Estados Unidos têm um modelo bastante peculiar de escolher seus presidentes. Por lá, a regra é o voto indireto, em um modelo no qual delegados decidem quem é o vencedor em turno único – não necessariamente seguindo o resultado do voto popular nas urnas. Se o Brasil seguisse o mesmo modelo, qual seria o efeito? Para esse exercício de imaginação, a Gazeta do Povo estabeleceu para o Brasil alguns critérios de semelhança com o modelo de votação nos EUA. O primeiro deles é determinar a quantidade de delegados que fariam parte do colégio eleitoral. Nos Estados Unidos, a Constituição determina que esse quórum seja definido pela quantidade de congressistas, deputados e senadores, de cada estado. Com isso, estados menores contam com apenas 3 delegados. No total, o colégio eleitoral norte-americano é formado por 538 delegados, e o candidato que obtiver maioria simples, 270 votos, é eleito presidente. Aplicando essa regra no Brasil, a quantidade de delegados aumentaria para 594. Isso porque segundo a nossa Constituição, cada estado conta com no mínimo 8 deputados federais. Somados, os parlamentares na Câmara formam um quórum de 513 pessoas. A quantidade de senadores é a mesma para todos: 3 em cada estado, independente da população ou da quantidade de eleitores. Logo, os estados teriam, no mínimo, 11 delegados cada. Aqueles com maior população contariam com uma presença maior no colégio eleitoral, como Rio de Janeiro (49 delegados), Minas Gerais (56 delegados) e São Paulo (73 delegados). Veja a lista de delegados que cada estado brasileiro teria hoje, segundo as regras eleitorais dos EUA: O segundo critério é estabelecer, com base no voto popular, qual seria o número de delegados que cada candidato teria nas eleições presidenciais desde 1989, a primeira desde a redemocratização, até 2022, a mais recente. Assim como nos EUA, onde não há segundo turno, só entraram na conta os resultados oficiais do primeiro turno. Para ser escolhido vencedor no colégio eleitoral brasileiro, um candidato precisaria somar no mínimo 298 delegados. Dessa forma, uma hipotética eleição poderia ser vencida por alguém mais votado apenas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná e Tocantins. O vencedor em um estado leva todos os delegados Com apenas duas exceções, Maine e Nebraska, o candidato eleito pelo voto popular em um estado leva os votos de todos os delegados daquela região dos EUA. O modelo é conhecido como “the winner takes it all”, ou “o vencedor leva tudo”, em tradução livre. Por ser o padrão nas eleições norte-americanas, a forma de definição dos votos dos delegados foi a mesma adotada em todos os estados brasileiros nesse exercício de imaginação. Nos EUA, estados são fiéis aos partidos Nos Estados Unidos, alguns estados mantêm sua posição eleitoral há décadas, o que leva as coordenações de campanha a definirem suas prioridades de investimento. Em um estado democrata como Nova York, uma campanha republicana traria poucos resultados, independentemente do valor investido. O mesmo com os republicanos do Texas, onde os democratas costumam nem fazer campanha. Por isso, o foco dos estrategistas fica nos “swing states”, ou “estados pêndulo”, onde os resultados nas urnas costumam mudar entre as eleições. No Brasil, o período eleitoral analisado ainda é muito curto em relação ao histórico de eleições nos EUA. Por isso é difícil atribuir a um estado um histórico mais alinhado a este ou aquele lado. São Paulo é um tradicional eleitor de candidatos adversários do PT. A única vez em que essa regra foi quebrada foi em 2002, ano em que Lula sairia vitorioso no colégio eleitoral levando 73 delegados. Do outro lado do espectro está o Ceará. À exceção de 1989 e 1994, em todas as outras eleições os vencedores no colégio eleitoral local foram alinhados à esquerda, como Lula, Dilma, Haddad e Ciro Gomes. Um possível exemplo de “swing state” brasileiro seria o Distrito Federal, onde os delegados apoiariam Lula, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Aécio Neves e Jair Bolsonaro. Minas Gerais seria o principal ponto das campanhas Caso o modelo dos EUA estivesse valendo para o Brasil nas eleições de 2026, o principal foco das campanhas políticas seria o estado de Minas Gerais. Para o cientista político Mario Sergio Lepre, a região ganharia ainda mais importância dentro do colégio eleitoral brasileiro. À Gazeta do Povo, ele explicou que em uma eventual campanha à presidência, Flávio Bolsonaro precisaria de um nome forte nos palanques mineiros, como o de Nikolas Ferreira, para a disputa pelo governo. O mesmo valeria para o PT de Lula, que também precisaria conquistar os delegados de Minas Gerais caso quisesse uma nova vitória. “Não faria sentido para a campanha de Bolsonaro investir muitos recursos em São Paulo. Esse estado já seria dele. Seria assim também com o Lula, que não precisaria de uma campanha muito forte na Bahia, por exemplo. Agora, os 56 delegados de Minas Gerais, esses sim seriam os mais disputados”, analisou. Veja qual seria o resultado das eleições com o modelo norte-americano aplicado à realidade brasileira: 1989 Na primeira eleição após o fim do período de governo militar, 22 nomes se apresentaram à disputa. Naquele primeiro turno, Fernando Collor (PRN) e Lula (PT) foram os mais votados nas urnas. O petista foi derrotado no segundo turno, com Collor sendo eleito. Naquele ano, a bancada paulista na Câmara era de 60 deputados, 10 parlamentares a menos do que há hoje. As bancadas de Amapá e Roraima tinham 4 deputados federais cada, metade do tamanho atual. Caso a disputa fosse decidida pelo colégio eleitoral, o resultado não seria alterado, uma vez que o “caçador de marajás” teria somado 463 delegados. Mas o segundo mais votado não seria o ex-sindicalista, e sim Leonel Brizola (PDT), vencedor do voto popular no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 1994 Escaldado por planos econômicos desastrosos, como o Plano Cruzado de José Sarney, em 1986, e o confisco das poupanças promovido pela equipe de Collor no início de 1990, o eleitor brasileiro apostou suas fichas no sucesso do recém-implantado do Plano Real, encabeçado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Eleito pelo voto popular no primeiro turno, FHC teria tido uma vitória ainda mais avassaladora contra Lula no fictício colégio eleitoral brasileiro, contabilizando 549 delegados contra 45 de Lula, mais votado apenas no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul. 1998 A primeira votação com a possibilidade de reeleição foi vencida justamente por quem já estava no poder nos últimos quatro anos. Fernando Henrique Cardoso manteria a supremacia, com 486 delegados, derrotando Lula, com 83 delegados, e Ciro Gomes (PPS) e seus 25 delegados cearenses. 2002 Depois de três derrotas seguidas nas urnas, Lula foi eleito em 2002 para o seu primeiro mandato como presidente. Seu adversário no segundo turno foi José Serra (PSDB), que obteve menos da metade dos votos do petista no primeiro turno. A eleição de Lula não seria alterada no colégio eleitoral, com 508 delegados, mas os resultados nos estados mostram o que seria um cenário bem diverso do que se viu nas urnas. O segundo colocado seria Anthony Garotinho (PSB), com 49 delegados graças à sua vitória no Rio de Janeiro. O terceiro colocado seria Ciro Gomes, novamente impulsionado pelos 25 delegados do Ceará, estado conquistado por ele. Serra só foi o mais votado em Alagoas, e com isso teria apenas 12 delegados a seu favor. 2006 Assim como em 1994, apenas dois candidatos dividiriam os votos dos delegados do colégio eleitoral. Lula, assim como no resultado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sairia vencedor com 349 delegados. Seu adversário era o hoje vice-presidente Geraldo Alckmin (PSDB), que conquistaria insuficientes 245 delegados em 11 estados. 2010 Impedido de disputar a presidência após duas eleições sucessivas, Lula passou o bastão para Dilma Rousseff (PT), eleita no segundo turno em 2010 contra José Serra. No colégio eleitoral, ela com 403 delegados e ele com 180 delegados dividiriam os votos com Marina Silva (PV), a mais votada no Distrito Federal (11 delegados). 2014 Marina Silva voltaria a aparecer na lista de votos do colégio eleitoral graças às vitórias em Pernambuco (28 delegados) e no Acre (11 delegados). Ainda assim seria apenas a terceira colocada atrás de Aécio Neves (PSDB) (213 delegados) e a reeleita Dilma Rousseff (342 delegados) 2018 Na primeira eleição em que o PT saiu derrotado nas urnas em 16 anos, o mais votado no colégio eleitoral seria o mesmo aclamado pelo TSE, Jair Bolsonaro (PSL). Vencedor em 17 estados, o “capitão” contaria com os votos de 396 delegados, contra 173 do petista Fernando Haddad e os 25 delegados de sempre de Ciro Gomes no Ceará. 2022 Assim como ocorreu em cinco oportunidades nos EUA, a mais recente em 2016 – quando Donald Trump foi eleito contra Hilary Clinton –, nessa eleição o mais votado nas urnas brasileiras não seria aclamado vencedor no colégio eleitoral. Apesar da maioria dos votos populares, Lula perderia a eleição. Agora no PL, Bolsonaro seria aclamado presidente reeleito graças aos votos de 307 delegados contra 287 do petista – a menor diferença no período analisado pela Gazeta do Povo. A vitória viria pela conquista de estados-chave com muitos delegados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná.