Irmãos gêmeos escalam montanhas para checar se de fato elas são as mais altas do mundo
11 Jan, 2026
Em 2020, o professor de engenharia mecânica Eric Gilbertson, na Universidade de Seattle, escalou as cem montanhas mais altas do estado americano de Colorado. Ou pelo menos foi o que ele pensou. No ano seguinte, ele viu algo que lhe pareceu preocupante nos dados publicados pelo Serviço Geológico dos EUA (USGS, na sigla em inglês) sobre um cume chamado Crestone Peak. Os dados faziam a montanha parecer mais pontiaguda —e, portanto, talvez mais alta— do que Gilbertson sabia. A apenas 120 metros a leste havia outro ponto, East Crestone. Sua altura parecia corresponder à do Crestone Peak. Seria o East Crestone, ele se perguntou, o verdadeiro cume? "A única maneira de ter certeza é ir e fazer medições", disse ele. Gilbertson disse já ter encontrado diversos erros em registros sobre os picos montanhosos do mundo, resultado de colaborações em escaladas com seu irmão gêmeo, Matthew Gilbertson, engenheiro mecânico da divisão de sistemas espaciais da Lockheed Martin. Quando escalam montanhas, os irmãos levam não apenas comida, água e itens de primeiros socorros, mas equipamentos avançados de topografia. No topo de onde quer que estejam, eles coletam dados sobre a elevação precisa da montanha. Assim, estão corrigindo o registro topográfico mundial, um pico de cada vez. No ano passado, Eric voltou ao sul do Colorado, desta vez sem seu irmão. Ele subiu o East Crestone e começou o processo, de várias horas, para coletar dados. Em seguida, foi para o Crestone Peak, o ponto ligeiramente mais arredondado que as pessoas têm escalado e reivindicando como o mais alto por pouco mais de cem anos. Lá, ele reuniu um conjunto de medições. East Crestone, ele descobriu, era pouco mais alto que Crestone Peak, e o verdadeiro topo da montanha, uma descoberta publicada em novembro de 2025 na revista Progress in Physical Geography: Earth and Environment. Os irmãos também publicaram outro artigo , no fim do mesmo mês, que estabeleceu novos pontos mais altos em cinco países. É parte de um projeto que administram, o Country Highpoints , para escalar as montanhas mais altas de cada país. Em meio ao projeto, eles começaram a medi-las. Até agora, escalaram 149 e coletaram dados sobre muitas delas. Já chegaram ao topo, por exemplo, do Aconcágua, na Argentina , do monte Branco, na fronteira entre França e Itália , e do monte Elbrus, na Rússia . "Nosso objetivo é encontrar a verdade", disse Matthew. 50 estados, 50 picos Quando crianças no estado americano de Kentucky, os gêmeos caminhavam pelas colinas dos Apalaches e pelas montanhas Smoky. Na faculdade, matricularam-se em engenharia mecânica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde estudaram até o doutorado. Lá, juntaram-se ao MIT Outing Club, um grupo de recreação ao ar livre. Com essa equipe, aprenderam habilidades de montanhismo em viagens para New Hampshire, onde decidiram escalar todas as montanhas do estado com 1.200 metros ou mais de altura. Rapidamente, concluíram essa tarefa. Então, com listas gerando mais listas, escalaram os pontos mais altos de todos os 50 estados. Denali, o ponto mais alto do Alasca e também o dos Estados Unidos , suscitou uma nova lista. "Nós já tínhamos um país", disse Eric. "Seria uma ótima desculpa para visitar todos os países do mundo." Essa lista global, no entanto, exigia mais do que obtiveram do clube universitário. "Você não precisa apenas de experiência em montanhismo de alta altitude", afirmou Eric. "Precisa fazer trilhas na selva, falar muitos idiomas diferentes, viajar pelo deserto e descobrir qual é a montanha mais alta do país." E essa, talvez, foi a parte mais difícil. Eles descobriram isso quando foram escalar o ponto mais alto da Arábia Saudita . Uma montanha chamada Jabal Sawda era listada como o ponto superior, com base em medições de satélite. Mas essa estimativa tinha uma margem de erro, e outro pico, Jabal Ferwa, estava dentro dessa margem. Levantamentos históricos feitos pelos militares dos EUA e soviéticos forneciam informações conflitantes. Os gêmeos não tinham outra opção além de escalar ambas as montanhas, coletar dados e responder a uma dúvida que ninguém mais parecia saber que existia. O que observaram divergia dos registros oficiais. Jabal Ferwa era cerca de três metros mais alto que Jabal Sawda. "Isso nos fez pensar: se isso acontece em um país, pode acontecer em outros países também", disse Eric. Reescrita da cartografia Eles iniciaram, então, o projeto para escalar todos os picos mais altos e descobrir, de uma vez por todas, quais são de fato os mais altos. Não é só mais uma lista de escaladas, é uma reescrita da cartografia (se, é claro, os árbitros geológicos de um determinado país aceitarem os resultados). Em alguns países, eles já provocaram mudanças, estabelecendo pontos altos anteriormente não reconhecidos. Além de estabelecerem que a colina Sare Firasu na Gâmbia, o Jabal Ferwa na Arábia Saudita e o Alpomish no Uzbequistão são pontos altos, eles encontraram novas elevações superiores em Togo (monte Atilakoutse) e em Guiné-Bissau (monte Ronde). Estes foram recentemente publicados na mesma revista em que saiu o artigo sobre a Crestone. "Você pensa que a altura de uma montanha é fixa e nunca muda, e que pode de certa forma confiar nisso", disse Matthew. O trabalho dele e de Eric, ao contrário, mostra que o planeta está sempre mudando. Por exemplo, o ponto mais alto do monte Rainier em Washington é oficialmente o Columbia Crest, uma cúpula de gelo que cobre parte do vulcão ativo. "Na verdade, esse já não é mais o ponto mais alto", afirmou Eric. Uma escalada em 2024 mostrou que um ponto rochoso na borda sudoeste, não tão sujeito ao aquecimento da Terra, está agora mais de três metros mais alto, de acordo com dados recentemente publicados na revista científica Arctic, Antarctic, and Alpine Research e reconhecidos pelo American Alpine Journal , a publicação de referência da comunidade de escalada. "Não sei como tornar isso mais oficial do que já é", disse Eric. Isso ocorre porque, embora o USGS faça mapas topográficos e colete e mantenha um conjunto abrangente de dados de elevação, ele não mantém uma lista completa de cumes que foram medidos novamente. "Não realizamos levantamentos cartográficos para determinar alturas oficialmente reconhecidas de picos montanhosos", disse Jason Burton, porta-voz do órgão. Ele direcionou questões mais detalhadas ao National Geodetic Survey (NGS), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). O NGS mantém um banco de dados preciso de pontos de pesquisa em todos os EUA, incluindo alturas de picos onde são relevantes para seus levantamentos de latitude e longitude. Mas não é função da agência medir picos de montanhas específicos. Anteriormente, agrimensores externos podiam enviar informações ao banco de dados do NGS se atendessem a padrões específicos estabelecidos em uma publicação apelidada de livro azul —os gêmeos afirmam que suas medições atendem a esses padrões. Você só pode redesenhar mapas, ao que parece, se cartógrafos permitirem. Mas os irmãos pretendem continuar escalando, registrando e publicando mesmo assim. Eles querem apresentar um novo registro, respaldá-lo com rigor e deixar que o mundo faça o que quiser com essa informação.