Rico em recursos, pobre em estratégia: o paradoxo do comércio exterior brasileiro

admin
23 Mar, 2026
Os números recentes do comércio exterior brasileiro têm sido celebrados pelo governo Lula [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/lula/] como evidência de vigor econômico incontestável. Alardeia-se aos quatro cantos, com a costumeira bazófia embusteira típica do lulopetismo, que o País ampliou suas exportações e seu superávit com a China, consolidando-se como um de seus principais fornecedores globais de insumos básicos. Esses dados, entretanto, precisam ser colocados em sua devida perspectiva, para infelicidade dos oficiais de propaganda e marqueteiros do governo. Em 2025, as exportações brasileiras para o mercado chinês chegaram a cerca de USD 100 bilhões, cerca de 30% de tudo que vendemos no exterior. Dessa pauta, 90% são commodities, com soja, petróleo bruto e minério de ferro representando 80% do total e alavancando um superávit de USD 29,1 bilhões. Isso representa, na verdade, um decréscimo significativo em relação a 2023, quando as exportações brasileiras para a China ultrapassaram USD 104,3 bi, com superávit de USD 51,1 bi. Embora esses números sejam superlativos, é nessa aparente fortaleza que se esconde uma fragilidade estrutural. Enquanto o Brasil aprofunda sua inserção como fornecedor global de commodities e acentua sua dependência de um mercado único, alterando o perfil exportador do país, com graves repercussões domésticas, tanto em termos de geração de emprego e renda quanto em termos de desenvolvimento tecnológico, sua relação com os Estados Unidos se deteriora de forma acelerada e revela um quadro mais complexo e, por isso mesmo, mais revelador. O déficit bilateral com os EUA, que já vinha em trajetória de alta, registrou uma expansão significativa recente, impulsionado por queda nas exportações brasileiras e aumento das importações de bens industriais e tecnológicos. Os EUA eram um dos principais destinos para a exportação de produtos manufaturados brasileiros, situação que vem se alterando. Desde 2023, o Brasil vem demonstrando incapacidade de aumentar suas exportações para o mercado americano, registrando USD 37 bi em 2023, USD 36 bi em 2024 e USD 35 bi em 2025, valores que representam, na média anual, apenas cerca de 25% a 30% das exportações brasileiras para a China. O déficit, entretanto, subiu de USD 1 bi em 2023, situação de quase equilíbrio, para USD 8 bi em 2024 e em 2025. Essa oscilação em torno de um eixo negativo não indica instabilidade; indica regularidade. Trata-se de um déficit estrutural, que se ajusta em intensidade, mas não em direção. Mais do que a existência do déficit (ou do superávit, no caso chinês), importa sua natureza. O Brasil não exporta apenas bens de baixa complexidade para os EUA. Ao contrário, há presença relevante de produtos de maior conteúdo tecnológico, como aeronaves, partes aeronáuticas e autopeças, além de bens industriais diversos. Essa é, inclusive, uma das dimensões mais qualificadas da inserção externa brasileira. O problema aqui é outro: o Brasil importa dos EUA, e do mundo, em geral, muito mais tecnologia do que exporta. Máquinas, equipamentos, insumos industriais sofisticados e sistemas de alta intensidade tecnológica dominam a pauta de importações. Não se trata, portanto, de uma simples ausência de capacidade, mas, sobretudo, de assimetria de escala, densidade e complexidade. Para a China, o Brasil exporta volume e gera caixa; para os EUA, exportava valor. E é essa assimetria que torna o déficit com os EUA recorrente. O Brasil participa das cadeias produtivas mais sofisticadas, mas o faz de maneira parcial, frequentemente em segmentos específicos e com menor agregação de valor sistêmico. Exporta nichos de excelência; importa a base estrutural da produção avançada. É neste ponto que a comparação com a China se torna particularmente elucidativa. O Brasil ostenta superávit robusto com os chineses, enquanto acumula déficits com os EUA. À primeira vista, o saldo agregado parece confortável, mas essa leitura é enganosa. O superávit com a China é, em grande medida, um superávit de commodities, dependente de preços internacionais, ciclos de demanda e vantagens naturais. Já o déficit com os Estados Unidos é, essencialmente, um déficit de densidade tecnológica e integração produtiva. A diferença qualitativa entre esses dois vetores comerciais é incontornável. Para a China, o Brasil exporta volume e gera caixa; para os EUA, exportava valor. Ao perder densidade nessa segunda relação, o que revela limites estruturais, o país compromete não apenas seu saldo comercial, mas sua posição nas cadeias globais de produção. A soma desses dois vetores não produz equilíbrio, mas o retrato de uma economia que, embora possua ilhas de excelência tecnológica, ainda opera com baixa difusão de complexidade em sua estrutura produtiva. Que exporta valor em segmentos específicos, mas importa sistemas inteiros de produção. Os dados confirmam essa tendência mais ampla. Hoje, menos de 30% das exportações brasileiras são compostas por bens manufaturados, enquanto commodities e produtos básicos dominam a pauta. Em economias que lograram escapar da armadilha da renda média, como a Coreia do Sul, esse percentual supera amplamente os 70%. Não se trata de uma diferença marginal, mas de um abismo estrutural. Como se esse quadro estrutural não bastasse, o modelo primário-exportador brasileiro revela agora uma vulnerabilidade adicional e imediata, de natureza geopolítica. O conflito deflagrado em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã, transformou o Golfo Pérsico, por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial e um terço da ureia comercializada globalmente, em zona de guerra ativa. Os bombardeios iranianos a instalações de petróleo, gás e produção de fertilizantes na Arábia Saudita, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, em retaliação ao ataque israelense ao campo de gás de South Pars (de propriedade compartilhada entre Catar e Irã), comprometeram severamente o abastecimento global de insumos críticos para a agricultura, em especial fertilizantes nitrogenados e derivados de petróleo. Para o Brasil, que importa mais de 80% dos fertilizantes que consome e quase a totalidade da ureia, das quais cerca de metade transita pelo Estreito de Ormuz, o impacto é significativo. A interrupção do fornecimento não apenas eleva os custos de produção em toda a cadeia do agronegócio, desde o plantio até a logística de exportação, como ameaça a própria produtividade das safras de soja e milho, base da pauta exportadora nacional. Trata-se de um fenômeno cujas consequências, caso o conflito se prolongue, poderão se estender pelo médio prazo, reconfigurando a estrutura de custos do setor e comprimindo margens de rentabilidade que já operam sob pressão. A história oferece paralelos instrutivos: a crise do petróleo de 1973 não apenas elevou preços, mas reorganizou cadeias energéticas por décadas, e a invasão russa da Ucrânia em 2022 provocou um choque de fertilizantes cujos efeitos inflacionários se fizeram sentir nas gôndolas dos supermercados de Brasília a Bangkok. Além da questão dos insumos, existe um segundo vetor de vulnerabilidade igualmente grave: o acesso logístico das commodities brasileiras aos mercados da região do conflito, e possivelmente a outros mercados cuja conectividade depende das mesmas rotas marítimas. Os países do Golfo são destinos relevantes das exportações brasileiras de commodities alimentícias, incluindo carnes, açúcar e cereais, e o quase fechamento do Estreito de Ormuz, combinado com a elevação abrupta dos prêmios de seguro marítimo e dos custos de frete, dificulta ou inviabiliza o escoamento desses produtos. O Brasil se vê, assim, duplamente exposto: não consegue importar os insumos de que depende para produzir, e enfrenta barreiras crescentes para exportar aquilo que produz. Essa dupla compressão evidencia, com brutalidade raríssima, que a especialização em commodities não é apenas estruturalmente frágil, como se demonstrou acima, mas também conjunturalmente vulnerável a choques geopolíticos sobre os quais o país não exerce qualquer influência. Sob o governo Lula, não se vislumbram quaisquer sinais de reversão dessa trajetória. Ao contrário, observa-se uma reafirmação desse modelo de reduzida sustentabilidade. A política econômica segue ancorada em ganhos de curto prazo, na valorização de saldos comerciais agregados e em uma retórica que confunde desempenho conjuntural com transformação estrutural. O problema não é exportar commodities, o que é, aliás, fundamental para um país de dimensões continentais como o Brasil. Países como a Austrália realizam essa atividade com enorme sucesso. A diferença é que a economia australiana combina sua base primária com alta produtividade, instituições robustas, segurança jurídica, sistema regulatório estável e forte integração tecnológica e logística. Não é exatamente uma potência industrial como a Coreia do Sul, mas possui indústrias especializadas com elevado teor tecnológico, cadeias produtivas eficientes, serviços financeiros de ponta e um dos melhores sistemas educacionais do mundo. O Brasil, por sua vez, parece aceitar a especialização primária como destino, não como ponto de partida. A crescente dependência da China agrava esse quadro e não para de se aprofundar. Trata-se de uma concentração elevada para qualquer economia de porte continental. Mais do que isso: é uma relação assimétrica em todos os sentidos. Enquanto Pequim diversifica fornecedores e mantém sua margem de autonomia estratégica, o Brasil concentra compradores e perde margem de ação. Em um contexto de rivalidade sistêmica entre China e Estados Unidos, o comércio exterior deixa de ser apenas uma questão de eficiência e passa a ser instrumento de poder. Cadeias produtivas são reorganizadas com base em critérios geopolíticos, políticas industriais retornam ao centro da ação estatal e tecnologia se converte em ativo estratégico. Nesse novo mundo, a passividade cobra um preço elevado. E o Brasil, até aqui, tem sido passivo, aceitando o avanço chinês sem esboçar qualquer arremedo de resistência. Não há uma estratégia clara de inserção internacional. Não há política industrial coerente com as transformações em curso. Não há diplomacia e promoção comercial com parâmetros de desempenho e produtividades definidos. Não há sequer uma leitura adequada da natureza da disputa global contemporânea. Opera-se com categorias analíticas do passado para enfrentar desafios do presente. O resultado é um paradoxo inquietante: o Brasil aumenta sua relevância como fornecedor de insumos e reduz sua relevância como produtor de valor. Essa é a essência da chamada especialização regressiva, que consiste num processo no qual a economia cresce em volume, mas perde em complexidade; amplia exportações, mas reduz sofisticação; ganha mercado, mas perde autonomia. A história econômica é pródiga em exemplos de países que se acomodaram nessa posição e pagaram o preço. Reverter esse tipo de trajetória exige tempo, planejamento, coordenação e, sobretudo, visão estratégica. Nada disso é visível no horizonte imediato sob Lula. Celebrar os números atuais como sinal inequívoco de sucesso é, portanto, mais do que um equívoco interpretativo. É uma escolha que privilegia o curto prazo em detrimento do futuro, a quantidade em detrimento da qualidade, a conveniência em detrimento da ambição. O Brasil ainda não está sentenciado a esse destino medíocre que o lulopetismo insiste em impor. Mas, se persistir na bisonha tentativa de confundir superávit com desenvolvimento e dependência com autonomia, continuará desperdiçando janelas históricas e consolidará a imagem declinante de um Brasil cada vez mais distante do tão almejado “país do futuro”, condenado a ser uma economia grande, rica em recursos e pobre em estratégia. Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.