A compra da CNN pela Paramount (e o fim do jornalismo tal como o conhecemos)
10 Apr, 2026
A compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount, que está em vias de finalização, significará muito mais do que parece. Não será apenas uma mudança de propriedade sobre o destino de estúdios históricos de cinema, seus catálogos valiosos e canais tradicionais de notícias. Está em jogo também o futuro da autonomia da criação artística e a própria essência do jornalismo. O foco deste artigo é entender como a fusão de poder tecnológico, financeiro e editorial ameaça a autonomia jornalística em qualquer democracia. I - Da esquerda para a direita, por enquanto Em agosto de 2025, foi concluída a fusão entre Skydance Media e Paramount Global, com David Ellison assumindo o comando da nova empresa, chamada Skydance Paramount. David é filho de Larry Ellison, fundador da Oracle, uma das figuras mais poderosas do capitalismo tecnológico americano, próximo de Donald Trump e peça central na sustentação do novo grupo de mídia, pois é dele que vem o dinheiro. Com a fusão, os Ellison passaram a controlar um dos principais canais de TV dos EUA, a CBS. A emissora foi rapidamente reorientada de maneira visível, com o desmonte de estruturas ligadas à diversidade, equidade e inclusão, a substituição de quadros e a nomeação de figuras associadas a uma visão mais conservadora do jornalismo e da cultura. O resultado está sendo uma rede menos identificada com a linguagem progressista que marcou boa parte da imprensa americana nos últimos anos. Se a aquisição da Warner pela Paramount vingar, Ellison passará a controlar também a CNN, o famoso canal de notícias da TV a cabo de viés igualmente progressista. A rede, embora não lidere a audiência como a Fox News, possui enorme peso simbólico e projeção internacional. Por isso, se a CNN sofrer uma inflexão semelhante à da CBS, o que é esperado, a mudança tende a ser ainda mais impactante mundo afora, inclusive no Brasil, onde o canal também atua. Progressistas podem lamentar, conservadores podem comemorar, mas o problema ou solução não está no viés político-ideológico de um órgão de mídia, seja qual for. O problema é quando se submete o jornalismo, que pressupõe apuração factual e compromisso com a verdade, ao controle de uma determinada visão de mundo, de uma narrativa. Neste caso, deixa de ser jornalismo para se tornar, na melhor das hipóteses, propaganda. Isso não é novidade. O que sim é novo — e progressistas e conservadores não parecem perceber — é que os Ellison não estão apenas mudando o viés da cobertura. Estão automatizando a própria lógica de seleção da realidade. II - O Império do Algoritmo Se até aqui os grandes grupos de mídia detinham impérios de prédios e antenas, os Ellison operam um império de nuvem e códigos, em cujo ecossistema a Oracle impera. A empresa fornece uma infraestrutura diferente, que organiza dados, acelera rotinas, prevê comportamentos e incorpora inteligência artificial às etapas mais sensíveis da produção. Isso muda muito mais do que parece. Não se trata apenas de substituição do trabalho humano pela inteligência artificial. A lógica aqui é mais sutil e profunda: redesenha o ambiente em que decisões editoriais, escolhas criativas e estratégias de distribuição passam a ser tomadas. O ecossistema Ellison sugere a consolidação de um modelo em que jornalismo e entretenimento deixam de ser campos separados e passam a operar como partes de uma mesma engrenagem técnica, financeira e algorítmica. A mídia já é hoje calibrada, analisada e distribuída segundo parâmetros de eficiência que a inteligência artificial tende a acelerar e sofisticar ainda mais. No jornalismo, significa crescente capacidade de definir pautas, classificar temas e antecipar reações do público, não com base na importância dos temas, mas em tendências de audiência e sinais de engajamento. Um exemplo concreto: se o algoritmo detecta que notícias sobre uma bobagem que viralizou nas redes sociais mantêm o público atento, enquanto análises econômicas provocam abandono, as pautas de economia tendem a diminuir, até desaparecer, independentemente de sua importância para a compreensão da realidade. O resultado pode ser um jornalismo mais eficiente na captura da atenção, mas também mais homogêneo, mais dependente de métricas e mais inclinado a confirmar expectativas do que a confrontá-las. No setor de entretenimento, esse movimento já se encontra mais avançado. A inteligência artificial vem sendo usada para apoiar o desenvolvimento de roteiros, a análise de personagens, a segmentação de públicos, a previsão de consumo e a otimização da pós-produção. Tudo isso amplia a velocidade, o alcance e a capacidade de ajuste, mas também altera a própria natureza da decisão criativa. Antes mesmo de uma obra existir, passa a pesar a pergunta sobre sua probabilidade de funcionar segundo os modelos disponíveis. O espaço da invenção continua existindo, mas em ambiente cada vez mais estreito, delimitado por sistemas capazes de calcular riscos, prever comportamentos e orientar escolhas com crescente sofisticação. Nesse ponto, a questão política se torna mais complexa. Não se trata apenas de deslocar o jornalismo para a direita ou para a esquerda. Essa disputa ideológica é apenas a superfície de um problema mais grave. O que está em curso é algo mais sério: a substituição progressiva da busca pela verdade factual por uma lógica de aderência ao público, em que o critério decisivo deixa de ser a robustez da apuração e passa a ser a capacidade de manter audiência, gerar permanência e reduzir atrito. A tendência de tabloidização da mídia não é nova. Mas com IA e Oracle, a mudança vai além da aceleração de um processo antigo. Estamos mudando sua natureza. Antes, havia pelo menos a possibilidade de confrontação ideológica, de jornalistas questionarem suas próprias métricas. Agora, as métricas questionam a si mesmas, automaticamente, em tempo real. Ninguém deliberadamente escolherá a mediocridade, ela emergirá naturalmente do sistema. Nesse ambiente, o jornalismo corre o risco de se aproximar cada vez mais da lógica do entretenimento, não porque tenha abandonado a seriedade, mas porque incorporou os mesmos incentivos que moldam a indústria do espetáculo. A Oracle, nesse cenário, deixa de ser uma empresa de tecnologia e passa a ser uma empresa de infraestrutura que reúne tudo — mídia, dados, decisões, audiência — e permite esse novo arranjo de poder. Talvez essa seja a consequência mais importante da compra da Warner pela Paramount: a consolidação de um modelo em que o poder não se mede apenas pela propriedade dos estúdios ou pela audiência dos canais, mas pela capacidade de integrar mídia, tecnologia e inteligência artificial num mesmo sistema de organização da atenção. É isso que passará a controlar os mecanismos de formação do imaginário em um ambiente dominado por poucos conglomerados, algumas dinastias familiares e uma tecnologia capaz de influenciar, prever e enquadrar quase tudo. Justo por isso que a autonomia jornalística tende a se tornar uma raridade. Nesse caso, é de se questionar se ainda poderá se chamar de jornalismo. III - O Futuro O que mais impressiona é a perda da consciência dessa captura do jornalismo. O algoritmo define a pauta, mas os editores acreditam estar escolhendo livremente. Antes, a possibilidade de resistência era uma garantia da autonomia jornalística. Recusar uma ordem vinda de cima ou de fora, confrontar o patrocinador, questionar a métrica. Um editor podia olhar para os números e dizer: "não, isso é importante mesmo que ninguém leia". Um repórter podia apresentar uma história que não funcionava no algoritmo, mas que precisava ser contada e os editores a bancavam por causa disso. Agora, a resistência exigiria não apenas coragem, mas aparência de insanidade. Porque o sistema não funciona por coerção explícita. Funciona por conveniência matemática. As opções de escolha serão pré-delimitadas de tal forma que optar por algo imprevisto soará como loucura ou sabotagem. Pior do que ser dirigido é acreditar que se está caminhando com as próprias pernas. E é exatamente isso que o futuro parece nos reservar: um mundo em que ninguém precisará mais escolher a narrativa, porque a narrativa já terá escolhido por todos - e ninguém perceberá. A autonomia jornalística não morre por censura explícita. Morre quando a liberdade se torna uma ilusão.