Os insetos estão desaparecendo. E sim, isso afeta a sua vida

admin
12 Apr, 2026
A quantidade de insetos no mundo está diminuindo ano após ano. E sim, isso é importante: uma queda como a que está sendo verificada na Europa e nos EUA, superior a 75% da quantidade de insetos em menos de três décadas, tem potencial para afetar a produção global de alimentos e causar prejuízos bilionários à economia mundial. Quem faz essas afirmações são estudiosos que há anos vêm percebendo a queda no número de insetos. Os meios para chegar a esse diagnóstico são os mais diversos possíveis, mas todos muito plausíveis de acordo com a ciência. Em um dos estudos, pesquisadores do Reino Unido analisaram as marcas de insetos deixados nas placas e dos carros em um determinado período. O resultado: até 62,5% menos insetos entre os anos de 2021 e 2024, segundo um levantamento [https://cdn.buglife.org.uk/2025/04/Bugs-Matter-2024-Report.pdf] do Instituto Kent Wildlife Trust chefiados pelo Dr. Lawrence Ball, pesquisador com passagens pela Ohio State University, nos EUA, e pela Universidade de Kent, na Cantuária, Inglaterra. A inspiração para a pesquisa veio de uma percepção popular de quem viaja por áreas rurais: antigamente os carros juntavam mais "sujeira" de insetos mortos do que hoje em dia. Em outros, os pesquisadores Radboud University, da Holanda, e da Sociedade Entomológica Alemã Krefeld espalharam armadilhas [https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0185809] em reservas naturais na Alemanha. Os dados mostram que o peso total de insetos voadores capturados nessas armadilhas caiu mais de 75% em quase 30 anos, chegando a 82% de queda durante o verão, quando eram esperadas mais capturas. E, novamente, isso é muito importante. Os insetos cumprem um papel relevante na natureza. Desde colaborar na decomposição de matéria orgânica e manter a fertilidade dos solos até servir como alimento para um ilimitado número de aves e outros animais. Estudos citam que cerca de 60% dessas espécies dependem dos insetos como fonte primária de alimento. Morte de insetos impacta na produção de alimentos Mas talvez o ponto principal e que deveria realmente acender um alerta entre os humanos está o impacto deles na produção de alimentos. Pesquisadores apontam que até 30% da dieta humana nos EUA dependem direta ou indiretamente da polinização por insetos. Mais do que isso: os insetos são responsáveis por US$ 3,07 bilhões da produção de frutas e vegetais nos EUA. Um exemplo notável é o tomate: embora não precise de ajuda externa para a fertilização, a visita de abelhas nativas a uma plantação pode aumentar o peso do fruto em quase 200%. E o que está causando esse declínio dos insetos mundo afora? Um dos culpados, apontam os pesquisadores, pode ser o modo como se preparam as sementes das principais culturas plantadas nos EUA e na Europa. Para evitar o ataque de pragas e economizar na aplicação de defensivos, os agricultores recorrem a sementes que contam com uma cobertura química que afasta os visitantes incômodos. Só que o efeito desses compostos acaba saindo do controle, e os extensos campos de milho e soja acabam se tornando verdadeiros desertos venenosos para todos os insetos, não só os que destroem as plantas. A química que ataca o agressor também afasta quem poderia ajudar. Estudos mostram que os insetos poderiam ser os principais responsáveis pelo controle natural de pragas em 33% das lavouras. Sem eles, os danos causados às plantações por espécies imunes aos pesticidas ultrapassarão os US$20 bilhões anuais, alerta uma das pesquisas. Esse é um cenário sem volta? Não, até porque a natureza consegue se recuperar de baques como esses, desde que algo real seja feito. A proibição do uso do DDT, banido nos EUA na década de 1970 – e no Brasil só em 2009 –, levou 25 anos para mostrar efeitos concretos na recuperação das populações de insetos. A União Europeia tem sido mais ágil na regulamentação do uso de sementes protegidas quimicamente. Em 2018 o bloco proibiu o uso de três neonicotinoides no tratamento de sementes (imidacloprida, clotianidina e tiametoxam). O foco era salvar as abelhas. A recuperação começou a dar seus primeiros sinais cerca de quatro anos depois. Nos Estados Unidos a abordagem é outra. Em fevereiro de 2026 foi assinado um decreto para impulsionar a produção e garantir o acesso ao glifosato, tratado pela gestão de Donald Trump como uma questão de segurança nacional e essencial para a agricultura americana.