Por que a Groenlândia não é independente e como ficou ligada à Dinamarca?
16 Jan, 2026
Embora tenha governo próprio e discuta a separação, a Groenlândia segue vinculada ao Reino da Dinamarca por razões históricas, econômicas e institucionais que remontam à colonização nórdica e ao modelo atual de autonomia. O que aconteceu A discussão sobre a independência da Groenlândia voltou ao centro da política internacional. O debate foi reativado por declarações de Donald Trump e pelo interesse estratégico dos Estados Unidos e da China no Ártico. Apesar da autonomia, a ilha segue formalmente vinculada ao Reino da Dinamarca, responsável por áreas como defesa e política externa. Ligação entre Groenlândia e Dinamarca remonta à ocupação viking e foi formalizada no século 19. A ilha foi colonizada por nórdicos a partir do ano 982 e, em 1281, passou a integrar o Reino da Noruega, que mais tarde se uniu à Dinamarca. Com a separação entre Dinamarca e Noruega, em 1814, a Dinamarca manteve a posse da Groenlândia. Desde então, o território permaneceu sob soberania dinamarquesa, mesmo sem fronteira física com o país europeu, em um arranjo herdado do período colonial. Autonomia sem soberania A Groenlândia tem autonomia administrativa, mas não é um Estado soberano. O território possui Parlamento próprio e governa assuntos internos, porém não controla funções centrais de soberania. Temas como relações internacionais, defesa e política monetária seguem sob responsabilidade do Reino da Dinamarca. A ilha ampliou o controle sobre políticas internas sem romper com o Reino. O modelo atual foi construído ao longo das últimas décadas, com sucessivas ampliações de direitos. O processo começou em 1979 e avançou em 2008, quando a Groenlândia passou a ter maior autonomia administrativa, mantendo o vínculo institucional com o Estado dinamarquês. O que a Dinamarca controla na Groenlândia A Dinamarca mantém o controle das áreas estratégicas do Estado. Mesmo com amplo autogoverno, a Groenlândia segue vinculada ao Reino da Dinamarca em temas centrais. Cabe a Copenhague o controle da política externa, da defesa e da segurança nacional, incluindo acordos internacionais e a presença militar no território. O reino também responde pela política monetária e pela cidadania dos groenlandeses. Os moradores da ilha são cidadãos dinamarqueses, e a coroa dinamarquesa é a moeda oficial, mantendo o território integrado ao sistema institucional do reino. O peso da economia na independência Economia é hoje o principal entrave à independência da Groenlândia. O governo dinamarquês transfere um subsídio anual que financia mais da metade do orçamento do território, sustentando a administração local. Além disso, a economia é pouco diversificada: a pesca responde por cerca de 95% das exportações, o que torna a ilha vulnerável a oscilações externas e dificulta uma separação imediata. Exploração de recursos naturais não garante autonomia econômica. Projetos de mineração e de terras raras existem, mas enfrentam restrições climáticas e estruturais. Os longos invernos e a logística no Ártico limitam a viabilidade econômica de curto prazo, reforçando a dependência do subsídio dinamarquês. Independência é legalmente possível, mas depende de decisão interna. A legislação permite que a Groenlândia se torne independente se essa for a escolha da população local, e o próprio governo dinamarquês reconhece esse direito. Separação, porém, é tratada como um projeto de longo prazo. Autoridades da ilha afirmam que a independência só faria sentido com base econômica sustentável e sem a troca de tutela por outra potência estrangeira. O papel de Trump no debate Declarações de Donald Trump reacenderam a discussão sobre a soberania da Groenlândia. Ainda em seu primeiro mandato, o então presidente dos Estados Unidos afirmou publicamente que tinha interesse em "comprar" o território, proposta rejeitada imediatamente pela Dinamarca e pelo governo local. Mais recentemente, Trump voltou a tratar a Groenlândia como peça estratégica para os EUA. As falas se inserem em um contexto de disputa geopolítica no Ártico, marcado pelo avanço da China, pela presença militar americana na região e pela importância crescente de rotas marítimas e recursos naturais, mas não alteram o status jurídico do território, que segue definido pelo Reino da Dinamarca e pela autonomia groenlandesa. *Com informações de matérias publicadas em 08/01/2020 e 20/01/2020 ; e da agência Reuters, de 08/01/2025 .