Não há estouro de bolha das bets, mas clubes começam 2026 com menos patrocínios de casas de apostas
16 Jan, 2026
A bolha estourou? Bets diminuem número de times patrocinados na Série A e mudam cenário para 2026 Coritiba, Grêmio, Inter, Santos e Vasco não têm casas de apostas entre seus patrocinadores no início desta temporada. Crédito: Produção: Vitória Schmitz | Fotografia e som: Felipe Pedro E Lucas Ghitelar | Edição: Júlia Pereira O ano de 2026 começou com vários clubes de primeira divisão sem patrocínio de casas de apostas. Coritiba , Grêmio , Internacional , Santos e Vasco . O Bahia também deve ficar sem, apesar de a saída ainda não ter sido oficializada. Comparado a 2025 — quando toda a Série A tinha marcas desse segmento no uniforme —, o cenário atual nos faz perguntar: a bolha das bets estourou? A resposta é não, pelo menos por enquanto. Se considerarmos que o estouro da bolha se caracteriza pelo colapso generalizado da indústria, pela quebradeira de empresas e por calotes para todos os lados, não é o que ocorre com as apostas. 51% das bets no Brasil passam por casas ilegais que faturam R$ 18 bilhões; entenda as consequências Há uma consolidação desse mercado, que, aliás, não surpreende ninguém. No Brasil, hoje, existem 82 empresas autorizadas pelo governo a operar legalmente, com 183 marcas diferentes. Outras três firmas, com nove marcas, estão autorizadas por determinação judicial. E está óbvio para todo o mercado que não haverá consumidor e dinheiro para tanta gente. Ficarão no jogo só as maiores. PUBLICIDADE Na linha de frente das negociações, intermediários de patrocínios estão com visão pessimista. Talvez por perceberem uma resistência das companhias em relação a contratos que nos últimos anos teriam sido assinados com facilidade. Marcelo Damato — que acaba de se desligar da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, após trabalhar no ramo por dois anos e meio — não acredita em retração de todo o segmento. “O mercado vai se consolidar, mas não vai retrair em um horizonte de muitos anos. O brasileiro está descobrindo as apostas”, diz. Publicidade A consolidação se nota caso a caso. O Flamengo tinha um contrato de R$ 117,5 milhões por ano e saltou para R$ 268,5 milhões, quando trocou para a Betano. O Corinthians anunciou dias atrás a extensão do patrocínio da Esportes da Sorte, que sobe de R$ 100 milhões para R$ 150 milhões anuais. O Palmeiras está com a Sportingbet. O São Paulo , com a Superbet. Com cerca de R$ 100 milhões cada. O Cruzeiro trocou Betfair por Betnacional, mas a mudança é só de marca. Ambas pertencem ao mesmo grupo, a Flutter, e o grupo achou melhor priorizar a Betnacional no mercado brasileiro. O Vasco também poderia passar pela mesma mudança, mas a sua diretoria tem tentado aumentar o valor dos atuais R$ 45 milhões para R$ 70 milhões. A Flutter não quis pagar, por isso está de saída. O Coritiba ficou sem o patrocínio da Reals Bet, porque a empresa decidiu mudar de estratégia e se concentrar no ambiente digital. Assim como o Bahia , com a Viva Sorte, uma empresa de títulos de capitalização que entrou para o mundo das bets há alguns anos. Ela pertence ao mesmo grupo da GingaBet, que patrocinava Paysandu , Ponte Preta e Vila Nova , mas mudou de rumo. O Santos ficou sem o patrocínio da 7K, mas a empresa não deixou outro patrocinado, como o Vitória . Havia uma relação desgastada com o clube paulista. Marcelo Teixeira, presidente santista, deu entrevista coletiva diante de backdrop com o logo de uma concorrente e irritou a casa. A 7K, por sua vez, virou alvo da Fazenda por venda casada em clássico e pôs o clube em posição desconfortável. Grêmio e Internacional ficaram sem patrocinador após a saída da Alfa.bet. Aí, de fato, houve problemas. Um sócio deveria injetar capital na companhia e não o fez, os pagamentos aos clubes atrasaram, e os contratos foram rescindidos. Do que se espera da bolha — quebradeira e calote —, este é o único caso que se enquadra. Publicidade “Não é uma bolha. É uma reorganização. Os valores que algumas empresas estavam pagando, elas não conseguiam. Ainda vai se manter forte o patrocínio das bets, mas um patrocínio assertivo”, avalia Bernardo Cavalcanti Freire, sócio do escritório Betlaw e consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). Ainda há no contexto, em 2026, a Copa do Mundo. Bets investem em cotas de patrocínio e publicidade das emissoras que transmitirão o torneio para o Brasil — Globo , CazéTV e a dupla N Sports e SBT . Essas empresas de mídia já fecharam com Bet365, KTO e Esportes da Sorte, que passam a ter menos verba para clubes. Algumas casas ainda conseguem elevar valores. Muitas não acompanham o ritmo e mudam de estratégia. E algumas vão quebrar. De novo: parece que estamos diante da consolidação do mercado de apostas no Brasil. Do meio. Não do fim.