Conheça o filósofo que trouxe Deus de volta à universidade
19 Apr, 2026
Quando o filósofo Alvin Plantinga subiu ao palco para aceitar o Prêmio Templeton, em 2017, fez uma observação direta. "Não sei se fiz muito progresso na religião", disse ao receber a honraria apelidada de "Nobel da Religião". "Comecei como membro da Igreja Cristã Reformada e ainda sou um cristão reformado." A frase sintetiza o tom de sua trajetória. Em um ambiente acadêmico que tratou a fé como um problema intelectual, Plantinga sustentou uma tese específica: crer pode ser racional. Segundo o filósofo israelense e judeu ortodoxo Yoram Hazony, a filosofia de Plantinga atingiu o "velho e sonolento ateísmo das universidades como um tornado passando por um palheiro", tornando a crença em Deus uma possibilidade acadêmica novamente. E isso se explica pela trajetória dele. Plantinga dedicou sua carreira, com passagens pelo Calvin College e pela Universidade de Notre Dame, a sustentar que a fé cristã não é apenas um consolo emocional, mas uma posição que pode ser tratada como racional. Para entender sua importância no cenário intelectual de 2026, é útil situá-lo entre dois marcos que influenciaram o pensamento ocidental: o otimismo metafísico de Aristóteles e o diagnóstico de crise de Friedrich Nietzsche. Em Aristóteles, Deus aparece como o "Primeiro Motor Imóvel", a causa que explica o movimento e a ordem do mundo. A ideia ocupa papel estrutural na metafísica clássica. Não se trata de um elemento periférico, mas de uma tentativa de explicar por que há movimento em vez de imobilidade. Esse eixo, que guiou a filosofia por séculos, entra em crise na modernidade. No século XIX, Nietzsche lançou o diagnóstico de que "Deus está morto". Ele não estava apenas defendendo o ateísmo, mas apontando que o colapso da fé em Deus teria consequências para a moralidade ocidental construída sobre esse alicerce. Abandonar o divino colocaria em questão pressupostos que orientaram o pensamento por séculos. A tese aristotélica foi relevante, por exemplo, no desenvolvimento da teologia de Tomás de Aquino. Sem o fundamento divino, valores como altruísmo e responsabilidade moral perderiam sua âncora, segundo essa leitura, gerando desorientação. Plantinga surge para enfrentar esse quadro e o domínio do positivismo lógico, corrente que, até meados do século XX, descartava proposições religiosas como "cognitivamente vazias". O cristão que lia Platão Nascido em Ann Arbor, Michigan, Plantinga cresceu em um ambiente de forte formação intelectual. Seu pai, Cornelius Plantinga Sr., um imigrante frísio e também filósofo, lia Platão com o filho quando este tinha 13 anos. Essa herança moldou um pensador que não via a inteligência como oposta à devoção. Aos 16 anos, ele já estava na faculdade, passando por Harvard antes de se transferir para o Calvin College, atraído pelo professor William Harry Jellema. Embora tenha considerado o seminário, Plantinga decidiu que sua contribuição seria na filosofia. Ele argumentou que a exigência de provas para toda crença é "auto-referencialmente incoerente". A regra "só é racional crer no que tem evidências" não possui, ela mesma, uma base evidente. Em vez disso, propôs que a crença em Deus pode ser "apropriadamente básica", uma resposta legítima do ser humano mediada pelo sensus divinitatis — conceito teológico formulado por João Calvino que sugere uma consciência inata de Deus. Essa disposição explicaria por que a crença pode surgir sem depender de argumentos formais, assim como ocorre com crenças em outras mentes ou no passado. O argumento evolucionista contra o naturalismo O ponto mais conhecido da obra de Plantinga é o Argumento Evolucionista Contra o Naturalismo (EAAN). Nele, Plantinga retoma uma dúvida que o próprio Charles Darwin expressou em carta de 1881: "Em mim sempre surge a dúvida horrível sobre se as convicções da mente do homem, que se desenvolveu a partir da mente dos animais inferiores, têm algum valor ou são de todo confiáveis." Plantinga leva essa dúvida ao limite lógico: se a evolução seleciona comportamentos voltados à sobrevivência e o naturalismo nega qualquer dimensão além do físico, então nossas faculdades mentais não teriam sido moldadas para captar a verdade, mas para favorecer a adaptação. Nesse cenário, a probabilidade de que nossas crenças sejam confiáveis se torna incerta. A conclusão proposta por Plantinga é que o naturalista que aceita a evolução teria razões para duvidar da confiabilidade de sua própria mente — o que enfraqueceria a própria crença no naturalismo. Críticos do argumento, no entanto, contestam esse passo. Filósofos naturalistas sustentam que a seleção evolutiva pode favorecer, ao menos em parte, faculdades cognitivas capazes de rastrear a realidade, já que percepções amplamente falsas tenderiam a comprometer a sobrevivência. Além disso, argumentam que o EAAN pressupõe uma separação rígida entre verdade e utilidade que nem sempre se sustenta em teorias contemporâneas da cognição. Plantinga tem uma resposta para isso. Ele concede que a evolução pode selecionar crenças verdadeiras em domínios imediatos — detectar predadores, localizar alimento, reconhecer rostos. O problema está em outro nível: crenças sobre a estrutura abstrata da realidade, sobre causalidade, sobre a existência de outras mentes ou sobre a validade do próprio naturalismo não têm relação direta com a sobrevivência. Um ancestral que acreditasse que pedras têm consciência, mas fugisse delas ao vê-las cair, sobreviveria tão bem quanto um que tivesse crenças verdadeiras sobre física. A seleção natural, argumenta Plantinga, é indiferente à verdade teórica — ela seleciona comportamento, não metafísica. E é exatamente no domínio da metafísica que o naturalismo se situa. Portanto, o naturalista não tem como garantir, a partir de seus próprios pressupostos, que sua crença mais fundamental é confiável. Aposentado em Grand Rapids, Plantinga continua a influenciar o debate filosófico sobre religião e racionalidade. Seu trabalho não encerra o debate entre teísmo e ateísmo. O que ele faz é alterar o ponto de partida da discussão. A questão deixa de ser apenas "Deus existe?" e passa a incluir outra: em que condições é possível confiar na própria razão? Ao recolocar esse problema no centro da filosofia, Plantinga contribuiu para que a fé voltasse a ser discutida dentro de critérios filosóficos mais amplos.