2a maior favela do Brasil, Sol Nascente vive sob contrastes

admin
21 Apr, 2026
Favelas são locais com predominância de domicílios com graus diferenciados de insegurança jurídica de posse, ausência ou oferta incompleta de serviços públicos, predomínio de edificações autoproduzidas e com parâmetros urbanísticos distintos dos definidos pelos órgãos públicos, além de restrições à ocupação. Esses são os critérios utilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para considerar o Sol Nascente como a 2a maior favela do Brasil. Localizada a 30 km do centro de Brasília, que completa 66 anos nesta 3a feira (21.abr.2026), a comunidade tem 70.908 moradores, segundo dados do Censo Demográfico de 2022. Mas os primeiros contrastes já começam no tamanho da população. Isso porque a Pdad (Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios) de 2024 estima 108 mil pessoas. [caption id="attachment_2385939" align="alignnone" width="1920"] Imagem aérea do Sol Nascente, a 2a maior favela do Brasil | Sérgio Lima/Poder360 - 10.abr.2026[/caption] Uma dessas moradoras é Ivanete Silveira, 51, que mora no Sol Nascente desde 2002 e administra o Instituto Ivanete Renovação. A sede da instituição, que oferece serviços de fisioterapia, pilates e massoterapia, fica a poucos passos da Ceilândia, região administrativa vizinha e que muitas vezes se mistura com a comunidade em que ela vive há 24 anos. Quando Ivanete chegou na região, em 2002, “não tinha nada”. O Sol Nascente se formou a partir de uma expansão da Ceilândia que se deu por meio da grilagem —ocupação e venda irregular de terras, muitas vezes sem documentação legal. Inicialmente, era um conjunto de chácaras. Chegou a ser tratada como área habitacional antes de se tornar região administrativa. É formado pelos Trechos 1, 2 e 3, além do Pôr do Sol, uma comunidade próxima. No início, segundo Ivanete, na região onde hoje está o Sol Nascente viviam chacareiros que cuidavam de hortas e criavam bodes e cavalos. “Os grileiros venderam as terras e o povo foi comprando, foi construindo. E virou o que é hoje o Sol Nascente, uma mistura e uma grande cidade”, afirma. Mas a grilagem na região segue até hoje. Nem todos os terrenos da comunidade estão legalizados e o território segue em constante expansão, em muitos casos feita de forma ilegal. E essa ocupação irregular impossibilita a chegada da ação do Estado. São nesses locais, por exemplo, que a energia elétrica só existe por causa de gambiarras. Uma das bandeiras do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) era transformar o Sol Nascente em uma região administrativa do Distrito Federal. O que foi feito em 2019. Outra bandeira era implementar reformas na comunidade. De fato houve avanços, mas a população ainda reivindica direitos básicos. O principal problema do Sol Nascente é a ausência de conexão à rede de esgoto. Segundo o Censo Demográfico de 2022, 37,88% dos domicílios ainda não têm acesso a esse serviço básico. Ou seja, das 25.224 residências, 9.807 não estão conectadas à rede de esgotamento sanitário. Cláudio Ferreira Domingues, administrador do Sol Nascente, diz que parte da população ainda não tem acesso à rede de esgoto devido a esse constante processo de grilagem. Segundo ele, moradores têm avançado ilegalmente para áreas fora do projeto da comunidade e, portanto, ficam sem conexão. Ferreira é pré-candidato a deputado distrital e é o 2o administrador do Sol Nascente. Sua função é articular a cobrança de demandas pela população e a execução de serviços pelo governo. Está no cargo, por indicação de Ibaneis Rocha, desde 2023. Antes, já havia ocupado a administração em 2020. [caption id="attachment_2387854" align="alignnone" width="1919"] Sede da administração regional do Sol Nascente | Reprodução/Administração do Sol Nascente[/caption] Segundo o administrador, a condição de região administrativa, promessa de campanha do ex-governador, foi fundamental para a melhoria na qualidade de vida da população. “Obrigou o governo a entrar com todos os investimentos”, diz. Antes, a tendência era que os recursos ficassem em Ceilândia. Natural de Minas Gerais, Ivanete conta que sua instituição oferece à população do Sol Nascente serviços que o Estado não consegue ofertar. O Instituto Ivanete Renovação atende a mais de 1.000 pessoas e, segundo ela, só não atende mais por não ter condições. Para ela, a saúde é a principal reivindicação dos moradores. [caption id="attachment_2388535" align="alignnone" width="1620"] O instituto de Ivanete Oliveira fica na 1a rua do Sol Nascente, logo após a Ceilândia | Sérgio Lima/Poder360 – 10.abr.2026[/caption] “O investimento na saúde nesses 2 mandatos do governador Ibaneis deixou a desejar. A saúde tem que ser o carro-chefe do Estado”, afirma. Um dos planos é a construção de um hospital para o Sol Nascente. A comunidade conta com unidades de saúde, mas o hospital mais próximo fica em Ceilândia. A administração de Ferreira diz que investiu cerca de R$ 1 bilhão desde 2019 em obras públicas e de infraestrutura. Entregou uma unidade básica de saúde com capacidade para atender a 300 pessoas. E tem em andamento o projeto para construir uma unidade de pronto atendimento com expectativa de ser a maior do Brasil. A escolaridade também é um desafio do Sol Nascente. Isso porque, apesar da maioria (62,8%) frequentar o ambiente escolar, outros 37,2% não vão para a escola. A comunidade tem 12 instituições de ensino. A atual gestão diz que entregou desde 2019 uma escola com capacidade para 950 alunos e 3 creches para 200 crianças cada. [caption id="attachment_2387865" align="alignnone" width="1919"] Escola Classe JK, que atende a alunos do Ensino Fundamental e Médio | Reprodução/Administração do Sol Nascente[/caption] CONTRASTES O Sol Nascente evidencia as desigualdades sociais de Brasília. Fundada em 1960 pelo presidente Juscelino Kubitschek, a capital federal tem a maior renda per capita do país: R$ 4.538. E abriga o bairro mais rico do Brasil, o Lago Sul, o que contrasta com a realidade dos moradores da 2a maior favela do país. Mas os contrastes também existem dentro da própria comunidade. Enquanto uma parte da população vive sem asfalto na rua e com energia à base de gambiarra, outra tem condições de viver em condições melhores. É o caso do professor William Resende, 36, que dá aulas para o curso de Pedagogia do IESB (Instituto de Educação Superior de Brasília). Ele vive em um condomínio de prédios inaugurado em 2023, ao lado do restaurante comunitário do Sol Nascente. A alguns metros dali, moradores vivem em casas com tijolo exposto e outros dormem nas calçadas. [caption id="attachment_2388533" align="alignnone" width="1620"] O professor William Resende vive em um condomínio de prédios no Sol Nascente cercado e com jardins | Sérgio Lima/Poder360 – 10.abr.2026[/caption] Resende é síndico de um dos prédios, que fica em uma quadra planejada da comunidade. Realidade bem diferente da maior parte do Sol Nascente, onde não houve nenhum planejamento e o crescimento se deu de forma desordenada. A quadra é pavimentada, iluminada e conta com abastecimento de água e conexão à rede de esgoto. FAVELA? O uso do termo “favela” pelo IBGE para definir o Sol Nascente não é unanimidade entre os moradores. Ivanete é uma das pessoas que discorda dessa definição. “Não temos morros, becos, temos ruas largas. Não temos casa de madeira, casa empilhada na beira do morro. Para se considerar como favela, precisa ter características de favela. Aqui você não compra uma casa com menos de R$ 150 mil”, afirma. Para o professor Resende, “favela mesmo é só para o IBGE”. O administrador do Sol Nascente afirma que seu objetivo é superar o título de "maior favela do Brasil" para consolidar o reconhecimento da região como uma cidade em pleno desenvolvimento. “Quero entregar uma cidade honrada porque tem moradores aqui que merecem, que lutaram a vida toda”. Em uma área de 40 km2, a paisagem da comunidade vai de ruas de terra e casas sem reboco para quadras planejadas e condomínios cercados. Em 2026, nos 66 anos de Brasília, o Sol Nascente ainda vive sob contrastes.