“Bessias” rumo ao STF? Relembre o caso que tornou Jorge Messias conhecido

admin
29 Apr, 2026
O Senado deve decidir nesta quarta (29) se aprova o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O advogado-geral da União vai passar por uma sabatina na Comissão de Constituição e Justiça e, se aprovado pela CCJ, terá o nome submetido ao plenário. Caso alcance os 41 votos necessários, Messias alcançará o ápice de uma carreira que, aos olhos do público, ainda é marcada pela alcunha de "Bessias". O apelido remonta a 16 de março de 2016. O auxiliar da então presidente Dilma Rousseff que entregaria a Lula um termo de posse como ministro da Casa Civil. O papel serviria para garantir foro privilegiado ao petista e tirá-lo dos inquéritos sob a condução do juiz Sergio Moro. Assim, ele evitaria (ou pelo menos adiaria) uma prisão que parecia inevitável. Dia agitado A posse de Lula como ministro estava marcada para 17 de março. Um dia antes, a Polícia Federal interceptou e divulgou uma ligação telefônica entre Dilma e Lula. Na conversa, Dilma dizia que estava enviando a Lula o “termo de posse” e que ele poderia “usar em caso de necessidade”. O Ministério Público interpretou o ato da então presidente como uma tentativa de obstrução da Justiça. Sergio Moro, que era o juiz responsável pelas investigações da Lava Jato na 1a instância, já possuía todos os indícios de autoria e materialidade para condenar Lula. Faltava apenas conquistar a opinião pública. Então, Moro decidiu retirar o sigilo [https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/caixa-zero/conversa-interceptada-mostra-dilma-dando-posse-secreta-a-lula-para-caso-de-necessidade/]sobre os dados colhidos na 24a etapa da operação, tornando públicos áudios que, segundo os investigadores, tornavam patente que o líder petista fora nomeado ministro da Casa Civil para evitar ser alvo de ações da Justiça do Paraná. No dia seguinte à nomeação, o ministro Gilmar Mendes, do STF, suspendeu a posse de Lula, afirmando que o ato poderia ter desviado de sua finalidade ao tentar garantir foro privilegiado. Com essa decisão, Lula nunca chegou a exercer o cargo, e a assinatura do termo de posse que Dilma enviou — o papel mencionado na ligação — nunca foi usada. “Tchau, querida” Imediatamente, uma multidão de manifestantes tomou as ruas do país, especialmente a Avenida Paulista em São Paulo, onde, aos gritos de "Renuncia, renuncia" e "Vem pra rua", os participantes em polvorosa pediam a saída ou impeachment de Dilma. Quem era o advogado de Lula na ocasião? Cristiano Zanin. Indignado, o fiel defensor chamou de “arbitrário” e “grave” o grampo “envolvendo a presidente da República”. Afirmou, acima de tudo, que a decisão de Moro estimulava a “convulsão social, o que não é o papel do Judiciário”. Zanin defendia o foro privilegiado para Lula e, portanto, Moro já não teria competência para tomar a decisão, já que a partir daquela data Lula já era ministro. O Advogado Geral da União de Dilma, José Eduardo Cardozo, disse que o diálogo entre os petistas, ao contrário da interpretação da oposição, não estava dando a Lula um documento para ele se livrar de possível ação policial. Segundo Cardozo, a presidente estava enviando a Lula o termo de posse para ele assinar. Isso porque Lula, de acordo com Cardozo, estava com problemas para comparecer à cerimônia de posse. Veja a transcrição do célebre diálogo abaixo. Transcrição da ligação No áudio, a voz de Dilma parece meio cacofônica. Na transcrição feita pela Polícia Federal, “Messias” foi identificado como “Bessias”. E a última frase da ligação tornou-se o símbolo da defesa pela retirada da presidente do cargo: “Tchau, querida”. Mas o mundo dá voltas e aquele menino de recado pode tornar-se, assim que aprovado pela sabatina no Senado Federal, o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal. "Bessias" foi um personagem de ficção”, diz Jorge Messias Em junho de 24, Jorge Messias afirmou à Veja que o episódio que o tornou conhecido como “Bessias” foi fruto de uma distorção política. “Se tivesse me atrapalhado, não estaria aqui”, disse, ao negar ter sido prejudicado pelo rótulo. Para ele, o “Bessias foi um personagem de ficção criado pela Lava Jato” com o objetivo de “desestabilizar o governo”. Messias afirmou ter “muita clareza” sobre o contexto da gravação entre Dilma Rousseff e Lula e considerou que a sociedade “teve plenamente acesso a todos os fatos”. Ao comentar o conteúdo do documento citado no áudio, Messias explicou que “o termo de posse serve a um único propósito: dar posse a uma pessoa”. Segundo ele, “o objetivo era dar posse ao presidente como ministro”, e a gravação foi “cortada em dez minutos para ser manipulada pela imprensa”. “Se você ouvir as cinco horas de gravação, vai entender exatamente a que se prestava”, concluiu. Outros áudios vazados No mesmo dia em que foi deflagrada a 24a fase da Lava Jato, Lula conversou com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Essa conversa, como outras de menor repercussão [https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/03/pf-libera-documento-que-mostra-ligacao-entre-lula-e-dilma.html]também vieram a público. Nela, o prefeito Paes diz para Lula: "Agora da próxima vez você para com essa vida de pobre, com essa alma de pobre comprando esses barcos de m...., sitiozinho vagabundo”. Lula ri, e Paes continua: “O senhor tem uma alma de pobre. Eu, todo mundo fala aqui no meio, imagina se fosse aqui no Rio esse sítio dele. Não é em Petrópolis, não é em Itaipava, é como se fosse em Maricá”. Lula segue rindo. O diálogo entre os dois foi interpretado tanto pela opinião pública quanto para os investigadores do caso que Lula realmente admitia ser o verdadeiro dono do sítio em Atibaia, que teria sido reformado por empreiteiras como forma de pagamento de propina [https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/moro-aceita-denuncia-contra-lula-no-caso-do-sitio-em-atibaia-652f9pk5vykxfza2f0l2l9l84]. O prefeito Eduardo Paes declarou que a conversa tinha sido completamente informal e chamou as brincadeiras que fez como "de mau gosto". “Só use em caso de necessidade” Jorge Messias tem 45 anos. Dada a regra atual, pode ficar por 30 anos no cargo de ministro do Supremo. Membro da Igreja Batista, Messias chegou trazido pelo apoio de bispos evangélicos no Palácio do Planalto, mesmo a contragosto da bancada evangélica no Congresso. O papel que Messias levou para Lula não fez muita diferença. A permanência da presidente no poder ficou insustentável, assim como a nomeação de Lula para o ministério. Dez anos depois, "Bessias" pode chegar ao STF graças a Lula, que, por sua vez, teve as condenações anuladas pelo STF em 2021.