Denise Fraga revela como a morte da mãe mudou sua vida e decisões
1 May, 2026
Quando a atriz Denise Fraga disse à mãe que sentiria muito a sua falta, Wilma Fraga respondeu: "mas aí não vai ter mais Rio e São Paulo. Não vai ter mais mundo. Não vai ter mais distância pro nosso amor." "Não vai mesmo. Sinto que, aos poucos, a falta dela vai virar completude minha. A mulher da minha vida vai estar amalgamada em mim", Denise escreveu após a morte de Wilma. Acompanhava e me admirava com a beleza das palavras, tão tristes quanto vivas, que Denise escolhia para elaborar a realidade de que a vida da mãe estava chegando ao fim. Mas, naquela frase que exprimia o luto em carne viva, encontrei um sentido diferente. Ao mesmo tempo em que queria abraçar a dor, tão longínqua quanto próxima, também me senti abraçada. Senti que, quando for a minha vez, se assim tiver que ser, eu talvez possa ajustar a tristeza devastadora que vou sentir, transformando a falta da minha mãe em completude também. Nós nos falamos, pela primeira vez, pouco tempo depois do fim. Ainda atordoada com a mensagem que trazia a voz que reconheço desde a infância, e desta vez dizia meu nome, ouvi Denise concordar em falar comigo para o Morte sem Tabu. Esta conversa aconteceu depois de muitos abraços, trocas e do olhar generoso da Denise, que faz o outro se sentir sempre especial. Morte Sem Tabu: Quando minha mãe adoeceu, ela me disse que não ficávamos tão juntinhas assim desde o útero. O que vivemos mudou a minha relação com ela e com tudo. O que a doença da sua mãe mudou em você? Denise Fraga: Eu comecei a viver mais como se fosse morrer. De vez em quando esqueço. Mas sinto que hoje, ao tomar decisões, eu penso: vou fazer 62 anos. A gente devia toda hora ir pra um lugar de observar a vida de camarote, que é uma coisa que acho que a arte faz, ajuda a recuperar o fascínio pela existência. Precisamos falar mais sobre o morrer, lembrar que isso aqui é uma jornada, que tem que aproveitar. Não de forma irresponsável, porque a conta chega. A minha mãe usou cadeira de rodas nos últimos três anos e, mais perto do fim, já não conseguia mais passar da cadeira para outro lugar sozinha. No caso dela, isso veio muito da forma como ela escolheu viver, de fumar, não fazer exercício. Mas penso, sim, que devemos viver sob a lembrança de que vamos morrer e que precisamos falar disso com todos, inclusive as crianças. Morte Sem Tabu: Você sempre diz que sua mãe viveu intensamente. Como foi, para ela, o entendimento de que a vida estava chegando ao fim? Denise Fraga: A minha mãe dizia que, se não saísse de casa, ia morrer. Ela fazia as coisas com muita dificuldade, pouca mobilidade, sem fôlego, mas ela ia, estava sempre no teatro, gostava de ver gente. Minha mãe foi professora, foi diretora de uma escola técnica de publicidade que ela mesma montou, era muito querida, uma figura muito forte e criativa. E tinha uma exigência muito grande de a vida não ser banal. Acho que herdei isso dela. Mas, no final, ela estava cansada, dizia que queria ir embora. Ela dizia: "minha filha, eu vivi!" e falava da morte com uma tranquilidade assustadora. Morte Sem Tabu: O luto foi mais difícil do que você imaginou? Denise Fraga: Apesar da lucidez sobre o que estava acontecendo, a morte me surpreendeu. Eu sabia que ela ia morrer, mas na hora que realmente foi, depois de quatro vezes em que nos despedimos e ela ficou, levei um susto. Acho que, só ali, eu entendi o que sente a Gilda, no filme "Sonhar com Leões", quando constata que vai embora e o mundo continuará sem ela. Quando me deparei com a ausência concreta, mesmo que estivesse consciente de que a vida dela estava acabando, fui pega de surpresa. Costumo falar que nós somos um mosaico das nossas relações. Quando perde alguém, a gente perde uma parte nossa. E quando essa pessoa é a mãe, você perde o papel de filha, que é nosso primeiro papel no mundo, a raiz de tudo. Hoje eu não sou mais filha, não tenho mais ninguém para chamar de pai e de mãe. E essa consciência só vem depois da perda, não tem como antecipar. Pra me resgatar, preciso de um esforço de memória. E até a lembrança de quem se é, a tristeza é muito grande. Morte Sem Tabu: Fazer o filme "Sonhar com Leões", em que você interpreta a Gilda, uma mulher com câncer terminal que busca uma forma de morrer antes das limitações físicas mais graves da doença, mudou a sua forma de ver a eutanásia? Denise Fraga: Eu acho que as pessoas têm que ter o direito de decidir. Mas, antes, eu era mais pragmática. Agora penso muito no: "temos o direito, vamos marcar a data?". E essa é uma conversa complexa. A definição do momento, do encerramento, que nós vivemos também com a minha cachorra Panqueca, fez com que eu reconhecesse a complexidade da hora X. Algo que acontece no parto também, o entrar em trabalho de parto, momento de nascer, momento de morrer. A questão ritualística, velório, enterro, o sax que tocou "Carinhoso" no enterro da minha mãe, como ela queria, o "Tocando em frente" que eu cantei, também passou a ser mais importante depois da minha mãe. Hoje, faço questão de ir a todos os rituais que eu posso, porque sei quão importante é. E sei que é ali que a gente conhece muito de quem aquela pessoa que morreu foi para os seus outros vínculos, em seus outros papeis sociais. Morte Sem Tabu: Você é uma das pessoas que mais acredita no humano que eu conheço. Na nossa capacidade de melhorar, de melhorar junto. A peça "Eu de Você" surge daí? Denise Fraga: Eu queria muito falar de histórias reais com as quais as pessoas pudessem se identificar, sobre questões que podem acontecer a qualquer um de nós, um relacionamento abusivo, uma mãe com Alzheimer. Queria encontrar algo que fosse comum a muita gente, mesmo naquele momento, 2018, 2019, em que o ódio tinha tomado um espaço tão grande. E queria um espetáculo que reconhecesse que a vida tá difícil, os tempos estão esquisitos, mas que fosse leve. O "Eu de Você", nessa mistura de arte e cotidiano, é a experiência mais incrível da minha vida. Acho que, enquanto meu corpo permitir, é uma peça que nunca vou parar de fazer. Morte Sem Tabu: A série "Queridos Amigos", em que você interpreta a Bia, uma mulher que foi torturada na ditadura, marcou a minha vida. Como é pensar nesse papel quase 20 anos depois, em um momento em que tanta gente volta a flertar com o passado autoritário do país? Denise Fraga: Eu fiz duas personagens que foram torturadas, a Bia, e a Vera, no filme "Hoje". E as duas foram fundamentais pra formar a cidadã que eu sou hoje. Apesar de tantos filmes e material sobre a ditadura, acho que as pessoas não entendem o que é ser uma pessoa torturada na prisão, a marca que fica numa mulher que, depois, encontra o próprio torturador. Essa é a história de um Brasil que ainda precisa ser contada. Eu me lembro que, quando vi os depoimentos e toda a pesquisa sobre pessoas torturadas, falei com a minha mãe sobre a sofisticação dos métodos, das unhas arrancadas, do sadismo envolvido. E mesmo tendo vivido todo aquele período, ela disse: "eu não sabia". Morte Sem Tabu: Você acha que nós ainda conseguimos estar por inteiro nas relações, na vida? Denise Fraga: Acho que a gente está aos pedaços. A gente vai criando afluentes por estímulos o tempo inteiro e, se não cuidar, nunca mais volta pro rio principal. Precisamos fazer esse exercício de volta, de presença, de escolha. A morte da minha mãe mostrou muito a importância da requisição de presença, porque é com ela que criamos memória. No fim da vida dela, a gente conversou muito sobre coisas que tinham acontecido, histórias da família. Resgatamos o passado que, em alguma medida, eu perderia com a partida dela. E criamos novas memórias, porque estávamos ali, comprometidas com o presente. O que faz a gente lembrar é o grau de presença nas experiências. E elas estão sendo prejudicada pelos focos múltiplos que a vida digital nos exige. Fiz diversos vídeos da minha mãe e é bom ter esses vídeos. Mas porque eu estava lá, vivendo aqueles momentos registrados. Sozinhos, eles não me trariam os sentimentos que me trazem.