Beatriz Milhazes: Um sol para cada tempo
18 Jan, 2026
Beatriz Milhazes: Um sol para cada tempo Artista inaugura primeira mostra individual em Salvador com obras produzidas ao longo de 30 anos. Crédito: Gabriel Brito 100 Sóis marca a primeira individual da artista Beatriz Milhazes em Salvador. Uma relação com a Bahia que nunca foi apenas geográfica. Ela passa pela memória, pela pesquisa e por uma história familiar que, aos poucos, foi se tornando mais nítida para a própria artista. É nesse ponto de encontro entre trajetória pessoal e percurso artístico que se insere sua primeira exposição individual na cidade, no dia 29, no Museu de Arte da Bahia. PUBLICIDADE Intitulada Beatriz Milhazes: 100 Sóis , a mostra reúne obras produzidas ao longo de cerca de trinta anos e coloca em diálogo uma pesquisa abstrata consolidada, com reconhecimento internacional, e raízes baianas redescobertas recentemente, agora incorporadas ao contexto da exposição. Ao falar de origem, Beatriz se refere a uma base que sempre orientou seu trabalho. “Eu tive a sorte de ter pais intelectuais que eram contra a ditadura”, diz, em entrevista à coluna. “A minha geração cresceu nesse período, mas meus pais nunca deixaram de ter orgulho de ser brasileiro. Em casa, eu convivi com uma cultura muito forte, essa mistura entre o popular e o erudito.” Filha de professora de história da arte e de advogado, criada em Copacabana, Beatriz Milhazes, hoje com 65 anos, cresceu em um ambiente em que cultura brasileira e política faziam parte da vida cotidiana. Publicidade “O Rio tem uma energia muito própria. Essa energia do Carnaval, que está no ar. Eu digo que sou uma carnavalesca conceitual. Nunca fui do samba, mas essa energia brasileira carioca eu sempre quis trazer para a minha obra.” Desde o início da carreira, Beatriz trabalhou com uma ambição clara: construir uma linguagem abstrata capaz de incorporar referências da cultura brasileira — populares e eruditas — sem que isso fosse lido de forma folclórica ou periférica no contexto internacional. “Foi extremamente difícil”, afirma. “Toda a história da arte está muito pautada na pintura, considerada alta arte, e essa história foi feita inicialmente na Europa e depois nos Estados Unidos. Quando você trabalha com arte contemporânea a partir do Brasil, você está fora desse circuito de construção da história.” A dificuldade, portanto, estava na posição que sua obra ocupava. “A minha grande ambição sempre foi, exatamente a partir do meu entorno, do meu universo ao redor, introduzir algo novo no pensamento da arte abstrata”, diz. Para isso, fez escolhas conscientes desde cedo. “Eu fui pisando em ovos, porque não queria abrir mão do que me interessava no meu trabalho. Eu queria dialogar com um pensamento que vinha da Europa sem ser interpretada de forma estereotipada.” Para sustentar esse equilíbrio, construiu um eixo claro de referências. “Tarsila, Matisse e Mondrian foram meus guias.” Publicidade Além das questões formais, houve também um atravessamento estrutural. “Ingressar nesse meio predominantemente masculino e ser considerada séria foi um grande desafio”, afirma. CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE A consolidação internacional começou nos anos 1990, quando o Brasil ainda ocupava uma posição periférica no circuito global. “Nós queríamos entrar nesse cenário de uma maneira de primeiro time.” O contexto era outro. “Era fax, tinha que viajar, era tudo muito mais difícil.” Ainda assim, ela sabia que o reconhecimento exigia mais do que circulação. “Ser artista internacional não é só expor fora do Brasil, é compor uma série de coisas.” Décadas depois, ao se tornar a primeira artista mulher brasileira a realizar uma exposição individual no Guggenheim, Beatriz entendeu o gesto como resultado de um longo percurso. “Você não dorme de um jeito e acorda de outro”, diz. “Quando você chega lá, você tem que manter um nível. Muita gente me descobriu naquele momento, mas eu já tinha mais de 30 anos de vida internacional.” Para ela, não há atalhos. “Ninguém chega em lugar nenhum se não tiver qualidade.” Essa lógica aparece de forma clara no ateliê. Não há rupturas bruscas, mas um percurso contínuo de investigação. “O meu processo é sempre evolutivo”, explica. “Eu me comparo a um cientista: introduzo questões novas nas já existentes, isso cria uma reação em cadeia e, depois de alguns anos, aquilo se torna uma nova imagem.” Publicidade A pintura segue como eixo central do trabalho. “A pintura é o tronco. É o meu tronco.” À medida que a obra se consolida, o desafio aumenta. “Voltar à tela em branco exige criar motivações para evoluir.” Para preservar o espaço de trabalho, Beatriz tomou uma decisão importante: não emigrar. O início da carreira internacional passou por convites e circulação fora do Brasil, incluindo Nova York, mas o ateliê permaneceu no Rio. “Manter minha residência e meu ateliê no Rio foi fundamental”, afirma. A escolha tinha uma razão prática. “Quando eu voltava para cá, para o meu ambiente, eu tinha a paz necessária, um conforto quase espiritual.” A possibilidade de viver fora colocava uma questão objetiva. “Que horas eu vou trabalhar?” Criar exigia tempo, foco e condições materiais. “Artista não consegue criar sem comer, sem dormir, sem ter uma casa. Isso é ficção.” É a partir dessa escolha que Salvador ganha peso específico em sua trajetória. “Nada dá mais prazer do que ter reconhecimento na sua própria terra.” No caso da Bahia, há ainda uma dimensão pessoal. Ao reconstruir a história da família paterna, Beatriz identificou sua ligação direta com Cachoeira, no século XIX. “Esses encontros foram muito felizes e generosos”, conta. “Reconheço que essa trajetória hereditária me surpreende, me emociona e é parte intrínseca da história da Bahia.” Publicidade A exposição no Museu de Arte da Bahia se estrutura a partir desse ponto. “A mostra vai ser um panorama da obra”, explica. Com curadoria de Tiago Mesquita, a decisão foi centrar a narrativa na pintura, sem abrir mão do diálogo com a arquitetura. Um vitral monumental reveste as janelas do museu, filtrando a luz, enquanto uma pintura inédita de grandes dimensões foi criada especialmente para o espaço. “Para quem não conhece, é possível entender o âmago da estrutura do meu trabalho”, diz. “E, para quem já conhece, é uma oportunidade de ver como isso foi se desdobrando ao longo do tempo.”