Como o excesso de telas está diminuindo a nossa capacidade de leitura
19 Jan, 2026
“Quem mal lê, mal fala, mal ouve, mal vê.” A frase de Monteiro Lobato, escrita muito antes de a internet mergulhar o mundo num estado de hiperconectividade, soa como um diagnóstico do nosso tempo. A leitura (no Brasil e na maior parte do planeta) ocupa cada vez menos espaço no cotidiano das pessoas. Em contrapartida, nunca estivemos tão expostos a estímulos visuais, a vídeos curtos e a um fluxo incessante de informação fragmentada. Os efeitos disso vão muito além de nosso escasseado gosto por livros. Eles vão determinar qual será a nossa realidade nos próximos anos. De acordo com a 6a edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, lançada no final de 2024, o Brasil perdeu quase 7 milhões de leitores entre 2021 e 2024. Ao todo, 53% dos entrevistados afirmam não ter lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Foi a primeira vez na série histórica que o país teve mais não leitores do que leitores. “Se considerarmos somente livros inteiros lidos, no período de três meses anteriores à pesquisa, o percentual de leitores é ainda menor, de 27% dos brasileiros”, informa a pesquisa. Mas essa queda no interesse pela leitura não se dá num vácuo. Afinal, nas últimas duas décadas, nossos hábitos digitais mudaram radicalmente — e o “radicalmente” aqui não é um exagero. Para grande parte da sociedade, celulares e smartphones se tornaram uma extensão indispensável do corpo humano. Esse pequeno aparelho, fruto do trabalho e das pesquisas de tantas mentes brilhantes ao redor do mundo, transformou nosso modo de vida nos últimos 30 anos de tal modo que é quase impensável viver sem um. É difícil conceber a vida contemporânea sem um smartphone para trocar mensagens instantaneamente, resolver questões financeiras instantaneamente, pedir comida instantaneamente, fazer compras instantaneamente ou assistir a todo tipo de vídeo instantaneamente. De fato, “instantaneamente” define nosso estilo de vida contemporâneo — assim como fugazmente, efemeramente ou temerariamente. O sinal mais evidente disso talvez seja nosso consumo de entretenimento, em que a leitura de textos longos perdeu espaço para vídeos de poucos segundos, frases soltas, manchetes descontextualizadas e narrativas que se encerram antes mesmo de exigir esforço cognitivo. Ao navegarmos pela internet, somos bombardeados por plataformas que foram desenhadas para maximizar o engajamento imediato, não a compreensão. A instantaneidade desses nossos hábitos digitais é muito agradável (alguém discorda?), mas diversos estudos recentes apontam que esse modelo de consumo afeta diretamente nossa capacidade de atenção sustentada. Vídeos curtos, especialmente quando consumidos em sequência, ativam mecanismos de gratificação rápida no cérebro, reforçando um padrão de estímulo-resposta que dificulta o engajamento prolongado com uma única ideia. De acordo com a psicóloga Andreia Vieira, é notável em seus atendimentos clínicos a necessidade cada vez maior que seus pacientes têm por estímulos visuais. Ela alerta que esse comportamento em crianças e adolescentes pode fazer o cérebro deles se desenvolver com esse padrão, que afeta o controle da impulsividade, a regulação emocional e o planejamento. Isso, segundo a especialista, pode levar a pessoa a desenvolver dependência de telas. Essa dependência se manifesta por alguns sintomas: “Falta de paciência para tarefas simples, dificuldade em ler textos mais extensos, ansiedade quando não se tem o celular por perto, sensação de estar sempre ocupado mas sem produtividade real, alterações no sono e mudanças na forma como nos relacionamos”, explicou a psicóloga em entrevista ao New in Town . Antes que você entre em negação, essas informações não buscam demonizar a tecnologia. Elas apenas reconhecem que certos formatos treinam o cérebro para a dispersão contínua. Quando esse padrão se torna dominante, a leitura — que exige tempo, esforço e tolerância ao tédio inicial — passa a ser percebida como árdua ou desinteressante. O impacto disso aparece de forma clara nos indicadores educacionais. No Brasil, como já dito, as pesquisas mostram queda consistente no hábito de leitura, inclusive entre jovens. Textos longos são cada vez menos visitados, mesmo em contextos escolares. Em 2023, 66% dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos de idade nunca haviam lido um texto inteiro com mais de 10 páginas. Sim, é preocupante a esse ponto. Nos Estados Unidos, avaliações nacionais indicam que estudantes do ensino médio apresentam hoje os piores níveis de compreensão leitora em três décadas. Questionados sobre esse dado, jovens em idade escolar dos EUA apresentaram possíveis razões para isso. “Eles [os estudantes] apontaram uma combinação de fatores [para o desempenho ruim em leitura], incluindo a perda de aprendizagem durante a pandemia, a carga de trabalho esmagadora do ensino médio moderno, a queda dos padrões acadêmicos e, acima de tudo, o puxão implacável das telas, que, nas palavras deles, dizimou a capacidade de atenção”, explica a equipe do The Learning Network, do The New York Times. Muitos relataram dificuldade para acompanhar argumentos complexos, interpretar textos densos ou manter atenção durante leituras prolongadas. Ler pouco não significa apenas conhecer menos palavras, mas desenvolver menos habilidades cognitivas fundamentais: interpretação, inferência, comparação de ideias, abstração. A leitura profunda é um exercício intelectual completo. Ela obriga o leitor a construir sentido, acompanhar encadeamentos lógicos, lidar com ambiguidades e sustentar hipóteses ao longo do texto. Quando essa prática enfraquece, o aprendizado como um todo se torna mais raso. Ser capaz de interpretar textos é ser capaz de interpretar a vida. Uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou que 67% dos estudantes brasileiros não são capazes de diferenciar fatos de opiniões ao lerem textos. Parte da culpa, segundo a organização, é do excesso de informações em rede e a excessiva fragmentação delas. Uma sociedade que lê pouco pensa de forma mais fragmentada. Argumentos longos perdem espaço para slogans, e análises complexas são substituídas por opiniões instantâneas. A realidade, em vez de ser interpretada, é consumida em pedaços — recortada em narrativas simples, frequentemente emocionais e quase sempre incompletas. Isso tem implicações diretas para a vida pública. A política contemporânea já não se organiza majoritariamente em torno de programas, ideias ou debates estruturados, mas de vídeos virais, frases de impacto e disputas simbólicas aceleradas. Cidadãos com baixa capacidade de leitura crítica tornam-se mais vulneráveis à desinformação, à manipulação emocional e a explicações simplistas para problemas complexos. Quando a compreensão do mundo é rasa, as decisões tendem a ser igualmente rasas. Na economia, o efeito não é menor. O mercado de trabalho exige aprendizado contínuo, interpretação de informações, adaptação a cenários complexos. Profissionais incapazes de ler criticamente relatórios, contratos, dados ou textos técnicos encontram mais dificuldades para se qualificar e progredir. A perda da leitura como prática cotidiana compromete não apenas a formação cultural, mas a autonomia intelectual do indivíduo. Nada disso significa que o livro precise competir com o celular como objeto físico, nem que o retorno a um passado analógico seja possível ou desejável. A questão central é reconhecer que determinados hábitos cognitivos precisam ser preservados. E a leitura profunda é um deles. Sem ela, nossa capacidade de interpretar a realidade se empobrece. E quando a interpretação falha, a ação também falha. Monteiro Lobato talvez não imaginasse algoritmos, feeds infinitos ou vídeos verticais. Mas compreendia que a leitura é o alicerce da percepção. Quem mal lê, de fato, mal fala, mal ouve, mal vê. Em um mundo saturado de informação, ler bem deixou de ser apenas um hábito cultural. Tornou-se uma condição para compreender — e transformar — a realidade que nos cerca.