Igreja Católica argentina adverte governo Milei sobre crise social
26 May, 2026
O arcebispo de Buenos Aires, Jorge Cuerva, advertiu nesta segunda-feira (25) o governo de Javier Milei que a Argentina está às portas do "desmembramento social" e cobrou da classe política consenso e diálogo para superar "a paralisia".Diante do presidente e de seu gabinete na Catedral de Buenos Aires, Cuerva presidiu o tradicional Te Deum em um novo aniversário da Revolução de Maio, que em 1810 conduziu à independência da Coroa espanhola."O povo argentino, apesar das crises crônicas, segue em frente e carrega a pátria nas costas. Falta-nos uma classe dirigente que, com a força desse povo, anime-se ao diálogo, ao encontro e que faça isso por aqueles que não aguentam mais, os que sofrem com a falta de trabalho, educação e oportunidades", disse Cuerva."Não podemos nos permitir ser ingênuos, a sombra de uma nuvem de desmembramento social desponta no horizonte enquanto diversos interesses fazem seu jogo alheios às necessidades de todos", acrescentou.A mensagem da Igreja Católica ocorre em meio a tensões sociais após dois anos de severo ajuste econômico e deterioração do poder aquisitivo, com precarização do emprego e retração da atividade econômica, apesar da queda da inflação.O índice de confiança no governo caiu em maio pelo quarto mês consecutivo, segundo uma medição da universidade privada Di Tella, enquanto cresce a preocupação social com o salário e o desemprego.A política de corte dos gastos públicos de Milei, chamada de "motosserra", acabou com o déficit fiscal crônico da Argentina, embora à custa de milhares de demissões e da redução de recursos para saúde, educação e aposentadorias."Temos a enorme responsabilidade de ajudar a curar tantas paralisias pessoais, familiares e também sociais", sustentou Cuerva, que também fez um apelo ao diálogo."Chega de incitar a divisão e a polarização", disse diante do presidente ultraliberal, que costuma se gabar da intolerância."Comecemos a desarmar a linguagem, renunciando às palavras ferinas, ao julgamento imediato e às calúnias", pediu o religioso, que também condenou "a ostentação, o esbanjamento e o desperdício".O governo atravessa uma crise interna por um escândalo que envolve o chefe de gabinete, Manuel Adorni, acusado de gastos suntuosos e compras de propriedades sem que tenha conseguido justificar esses pagamentos. O caso está sob investigação judicial.