Fábio Barros: IA e o novo mapa do rosto
27 May, 2026
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante na saúde e começou a ocupar espaço real dentro dos consultórios. Na estética facial, ela já aparece em softwares de imagem, análise de pele, planejamento de procedimentos e exames que ajudam a visualizar estruturas internas da face com mais precisão. Ao contrário do que muitas campanhas publicitárias sugerem, a IA não substitui o olhar clínico, a experiência ou o conhecimento do profissional. Seu papel hoje é ajudar na tomada de decisão, ampliar a capacidade de análise e tornar procedimentos mais individualizados e seguros. Esse avanço acontece em um momento de crescimento acelerado da demanda por tratamentos minimamente invasivos. Segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), foram realizados em 2024 mais de 20,5 milhões de procedimentos estéticos não cirúrgicos no mundo. A toxina botulínica liderou o ranking global, com quase 7,9 milhões de aplicações, seguida pelos procedimentos com ácido hialurônico, que ultrapassaram 6,3 milhões. Quanto maior o número de procedimentos, maior também a necessidade de planejamento, precisão e redução de riscos. É justamente nesse ponto que a tecnologia começa a ganhar espaço. Uma das aplicações mais relevantes atualmente é a ultrassonografia facial com recursos de inteligência artificial. O exame permite visualizar músculos, vasos sanguíneos, tecidos e até produtos aplicados anteriormente na face. Na prática, isso permite planejar o procedimento com base na anatomia real daquele paciente, e não apenas em referências gerais do rosto. A face humana não é igual em todas as pessoas. A posição dos vasos, a espessura dos tecidos e a distribuição anatômica variam de paciente para paciente. Em procedimentos com preenchedores e outros injetáveis, essas diferenças podem interferir diretamente tanto no resultado estético quanto na segurança. Artigo publicado na Revista Brasileira de Harmonização Orofacial aponta que a ultrassonografia feita no próprio atendimento, associada à IA, pode auxiliar na visualização da arquitetura vascular da face, das diferentes camadas anatômicas e na prevenção de complicações relacionadas a procedimentos estéticos. A literatura internacional segue a mesma linha. Revisão publicada neste ano no Journal of Ultrasound descreve o uso da ultrassonografia antes, durante e depois de procedimentos injetáveis para mapear vasos, identificar variações anatômicas, acompanhar resultados e auxiliar no manejo de intercorrências. O estudo também destaca o avanço de ferramentas de IA aplicadas à interpretação de imagens ultrassonográficas. Na prática clínica, isso representa uma mudança importante. Durante muitos anos, diversos procedimentos estéticos foram realizados apenas com base em referências anatômicas externas e experiência profissional. Hoje, exames de imagem permitem uma abordagem mais personalizada, reduzem improvisos e ampliam a previsibilidade. Isso não significa que a tecnologia elimine riscos. Procedimentos estéticos continuam exigindo formação adequada, conhecimento anatômico profundo, avaliação individualizada e responsabilidade profissional. A IA funciona como ferramenta de apoio. A decisão clínica continua sendo humana. Empresas globais passaram a utilizar IA preditiva, simulação molecular e machine learning para acelerar o desenvolvimento de fórmulas e personalizar produtos cosméticos. A L’Oréal anunciou parceria com a NVIDIA para ampliar o uso dessas ferramentas em pesquisa e inovação. Mas o avanço tecnológico também trouxe uma discussão importante sobre ética e padrões irreais de beleza. Imagens criadas por inteligência artificial, filtros e edições digitais passaram a influenciar a percepção estética de muitos pacientes. Em alguns casos, isso gera expectativas incompatíveis com a anatomia humana real. Por isso, o debate sobre IA na estética não pode se limitar à inovação tecnológica. Ele também precisa incluir responsabilidade, limites éticos e saúde mental. A Organização Mundial da Saúde já alertou para a necessidade de supervisão humana, proteção de dados e governança no uso de inteligência artificial em saúde. Na estética, o melhor uso da IA talvez seja justamente aquele menos visível, que é ajudar profissionais a enxergar melhor, planejar melhor e tratar cada paciente de forma mais individualizada, sem transformar tecnologia em promessa milagrosa ou padronização artificial da beleza. A tendência é que a estética seja cada vez mais tecnológica, como já acontece em outros ramos da saúde. Mas esse avanço também precisará ser cada vez mais responsável. Fábio Barros é cirurgião bucomaxilofacial, referência em harmonização facial no Rio