Camundongos podem ter mutação associada ao dom da fala em humanos
27 May, 2026
Nas florestas da América Central, os cantos do camundongo Scotinomys teguina, um pequeno roedor de cauda curta conhecido por sua comunicação, podem frequentemente ser ouvidos ecoando entre as árvores. Esses minúsculos camundongos, cada um pesando menos que uma lâmpada, lançam sons únicos uns para os outros, que podem durar até 16 segundos. Tanto audíveis quanto ultrassônicos, eles fluem da boca dos espécimes, criando uma canção que lembra o zumbido de uma cigarra. E as criaturas nunca se interrompem. Seguram suas pequenas línguas até que seu parceiro de conversa termine de cantar. Os cientistas há muito se perguntam o que permite que esses animais tenham conversas tão complexas. Ao que parece, o cérebro deles pode não ser tão diferente em relação aos nossos. Em um estudo publicado no dia 6 deste mês na revista Nature, pesquisadores descobriram que uma simples expansão das vias neurais existentes permitiu que esses camundongos ampliassem seu repertório vocal —a mesma mutação que se acredita ter aberto caminho para o desenvolvimento da linguagem humana. Ao estudarem os cérebros dos camundongos Scotinomys teguina e de seus primos de laboratório que não cantam (mas são geneticamente próximos), pesquisadores do Cold Spring Harbor Laboratory, em Long Island, Estados Unidos, conseguiram determinar quais mudanças evolutivas no cérebro deram origem às canções cordiais e sinfônicas do camundongo cantor. Agora, os cientistas estão se perguntando se o mesmo método pode ser usado para descobrir a base neurológica de outros comportamentos animais. "Isso é relevante muito além dos camundongos cantores", disse Mirjam Knörnschild, ecologista comportamental que estuda bioacústica no Museu de História Natural de Berlim, na Alemanha. pesquisadora, que não participou do estudo, afirmou que o trabalho pode "contribuir para pesquisas sobre alternância vocal, aprendizado vocal e flexibilidade vocal em outros mamíferos, incluindo morcegos, primatas e humanos". Em 2019, o biólogo Arkarup Banerjee, do Cold Spring Harbor Laboratory, e seus colegas descobriram que as serenatas alternadas dos S. teguina soam surpreendentemente semelhantes às nossas conversas. Mas, na época, ele não conseguia entender por quê. Banerjee havia examinado os cérebros dos camundongos cantores e os de uma espécie de laboratório que não cantam. Eles pareciam mais ou menos idênticos. Cientistas diziam acreditar que comportamentos complexos, como o uso de ferramentas e a comunicação entre pares, exigiam circuitos neurais especializados. Mas, quando Banerjee foi procurar esse hardware neural dedicado nos S. teguina, ele não encontrou nada. "Não parecia que as coisas fossem tão diferentes", lembra Banerjee. Isso levou Banerjee e seus colegas a partirem em busca do que dava a esses camundongos cantores sua habilidade vocal. Eles recorreram a um método, identificado pela sigla MAPseq, que permite que cientistas mapeiem milhares de neurônios individuais infectando-os com um vírus que entrega códigos de barras de RNA únicos em cada célula. Quando os cientistas sequenciam geneticamente tecidos de todo o cérebro, os códigos de barras revelam um mapa detalhado de onde cada neurônio se conecta ao longo do cérebro. Quando os pesquisadores usaram o MAPseq nos cérebros de dezenas de camundongos de ambas as espécies, as diferenças ficaram claras. Os camundongos cantores tinham aproximadamente três vezes mais neurônios enviando sinais do córtex motor para duas regiões específicas do cérebro localizadas mais abaixo no circuito neural. Embora isso possa parecer uma diferença gritante, os cientistas afirmam ser mais do que "uma mudança relativamente sutil na fiação cerebral", segundo o neurocientista Anthony Zador, do Cold Spring Harbor Laboratory, coautor do estudo. De acordo com Zador, o fato de que mudanças neurais tão sutis podem resultar no desenvolvimento de um comportamento vocal completamente novo "levanta questões interessantes sobre quanta reconexão esteve envolvida na evolução da linguagem humana". Além de desafiar nossa compreensão sobre a evolução do nosso comportamento mais singular, as descobertas desse estudo podem ajudar os cientistas a aprender mais sobre a base neurológica de muitos comportamentos animais. "Esse trabalho aborda uma importante questão não respondida na neurociência: o que dá a alguns animais habilidades excepcionais que outros não têm?", afirmou o professor de neurociência David Schneider, da Universidade de Nova York, que não participou do estudo. Antes desse estudo, os cientistas nunca haviam usado o MAPseq para comparar os cérebros de duas espécies próximas com comportamentos notavelmente diferentes. Especialistas afirmam que o sucesso dessa abordagem abriu um mundo de possibilidades científicas. "Esse estudo nos dá um roteiro de como pensar e testar quantitativamente ideias sobre a evolução da estrutura cerebral", disse o professor de biologia Steven Phelps, da Universidade do Texas, em Austin, que não participou do estudo. Quando o estudo chegou ao fim, Banerjee disse que não conseguia tirar da cabeça uma citação do livro de Charles Darwin de 1871, "A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo": "A diferença mental entre o homem e os animais superiores, por maior que seja, certamente é uma diferença de grau e não de natureza". "Há cada vez mais evidências de que pode haver uma verdade profunda nessa ideia", disse Banerjee. Como seu estudo demonstrou, mesmo pequenas mudanças no cérebro podem ter impactos profundos no comportamento. Quando você tem isso em mente, acrescentou o biólogo, "de repente o desenvolvimento de coisas como a linguagem nos humanos não parece tão misterioso".