Júlio e a leveza do Mamute
29 May, 2026
Júlio e a leveza do Mamute Uma conversa boa com o influenciador que divide sua jornada de emagrecimento com mais de dois milhões de seguidores Créditos: arquivo pessoal Com mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais, Júlio Mamute transformou uma luta íntima em um relato público que mobiliza milhares de pessoas. Nascido em Recife, ele chegou a pesar mais de 300 quilos e hoje documenta diariamente o processo de retomada da própria vida. Entre vídeos bem-humorados, reflexões sobre autoestima e relatos sinceros sobre compulsão alimentar, ele conquistou uma audiência que enxerga nele muito mais do que uma história de emagrecimento. Na entrevista ao Trip FM, Julio fala sobre dor, propósito, saúde mental, preconceito e a busca por uma vida sem limitações físicas. Na conversa com Paulo Lima, ele rejeita explicações simplistas para a obesidade extrema. Apesar de reconhecer a influência de fatores biológicos, prefere olhar para a própria responsabilidade: “Eu atribuo realmente ao meio, às escolhas. Obesidade é um pântano escuro, uma areia movediça: você tenta sair e ela vai te puxando mais pra baixo.” O influenciador também reflete sobre os mecanismos emocionais que sustentaram décadas de compulsão alimentar. “Nunca duvide da capacidade de um homem se aprisionar nas próprias sombras”, diz. Para ele, a obesidade não pode ser tratada apenas como uma questão física: “Se você quiser tratar a obesidade apenas pelo corpo, as outras partes vão te puxar para baixo em algum momento. O ser humano não é só corpo.” Ao longo da conversa, Julio fala sobre as chamadas “canetas emagrecedoras”, bariátrica, atividade física e a relação entre prazer, dor e mudança de comportamento. “As pessoas só fazem as coisas por dois motivos: ou para se aproximar de um prazer ou para fugir de uma dor”, afirma. Hoje, depois de eliminar mais de 110 quilos, ele aposta em uma combinação de natação, musculação, caminhadas e uma profunda transformação de hábitos e mentalidade. Mas talvez o momento mais emocionante do papo aconteça quando ele relembra o nascimento do sobrinho. Isolado em casa e já enfrentando severas limitações físicas, Julio percebeu que não conseguiria sequer entregar um presente ao recém-nascido. “Eu me senti um lixo. Foi naquele momento que eu disse: eu preciso fazer alguma coisa.” Pouco depois, deu os primeiros passos rumo ao processo que mudou sua vida. Sem romantizar a obesidade nem reduzir sua trajetória a números na balança, Julio diz que busca algo maior do que o emagrecimento. “Eu quero viver sem uma limitação física.” O objetivo final não é apenas perder peso, mas recuperar possibilidades que julgava perdidas: construir uma família, envelhecer com autonomia e experimentar plenamente a vida. “Em algum momento eu achei que isso não ia mais acontecer.” No papo, ele também fala sobre bullying, relacionamentos, fé, redes sociais, corrida de rua e sobre o que aprendeu ao transformar uma dor pessoal em uma história compartilhada por milhões de pessoas. Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube e outras plataformas de áudio, ou ler alguns trechos da entrevista a seguir. Você falou uma coisa muito forte aqui: “Nunca duvide da capacidade de um homem se aprisionar nas próprias sombras”. Como alguém chega a mais de 300 quilos? Júlio Mamute. É engraçado porque realmente é algo muito abissal, muito grande. Eu já vi comentários de pessoas falando: “Como é que é possível um ser humano?”. E eu digo: nunca duvide da capacidade de um homem se aprisionar nas próprias sombras. Eu era obeso já na fase adulta, empreendi a vida toda, mas fui me aprisionando. E a obesidade é uma areia movediça. Você tenta sair e ela vai te puxando mais para baixo. Eu atribuo muito ao meio, às escolhas, às situações da vida. Sempre procuro trazer a responsabilidade para mim. Eu evito o vitimismo. A vida é dura, claro que é, mas eu assumo as escolhas que fiz e a vida foi me levando a tudo o que eu passei. Em que momento você percebeu que precisava mudar? Meu sobrinho nasceu no dia do meu aniversário e exatamente na hora em que eu nasci. Eu não escutei voz nenhuma falando comigo, mas senti que Deus estava querendo me dizer alguma coisa. Eu senti que a vida valia a pena. Só que, na semana seguinte, veio a dor. Eu não consegui entregar um presente para ele. Não consegui sair de casa. Eu me senti um lixo. Como é que eu não consigo levar um presente para um sobrinho que nasceu justamente no dia em que eu entendi que aquilo era uma mensagem para mim? Pela dor eu mudei. Imediatamente e radicalmente eu disse: “Eu preciso fazer alguma coisa”. Foi ali que me matriculei na hidroginástica e começou, de fato, o meu processo de emagrecimento. E o que você está buscando no fim desse caminho? Viver. Viver sem uma limitação física. Eu quero ter filhos, quero ter netos. O cenário ideal da minha vida é estar mais velho, numa fazendinha, vendo meus filhos e netos correndo por ali. Eu falo disso e até me emociono, porque em algum momento eu achei que isso não ia mais acontecer. Eu estou tentando encontrar felicidade no caminho. Não quero colocar toda a minha felicidade no resultado final, porque senão vem a pergunta: “E agora?”. O que eu quero é recuperar possibilidades. O ser humano nasceu para caminhar, para correr, para viver. E, por algum momento, a obesidade me roubou até caminhar pequenas distâncias. Hoje eu estou tentando recuperar isso. Estou tentando recuperar a vida. LEIA TAMBÉM MAIS LIDAS - Trip FM Ela tem o antídoto para um país sem graça - Trip FM Nos últimos dias da Eldorado, a visão de quem faz a rádio dos melhores ouvintes - Trip FM Dias antes do fim da Eldorado FM, um papo reto com o diretor artístico da rádio - Trip FM A batida leve e poderosa da maior percussionista do Brasil - Trip FM A incrível trajetória do arquiteto que projetou Itamambuca - Trip FM Senna, Agente Secreto e Hamlet: as muitas vidas de Gabriel Leone - Trip FM Mohamad Hindi, o chef que retemperou a linguagem da gastronomia