Edgar Morin viu a fragmentação antes de todos nós e propôs soluções

admin
30 May, 2026
A morte de Edgar Morin, aos 104 anos, encerra uma trajetória intelectual que atravessou praticamente toda a história contemporânea. Entretanto, limitar sua importância à dimensão biográfica seria reduzir o alcance de uma obra que procurou responder a uma das questões mais decisivas do mundo moderno: por que a humanidade ampliou extraordinariamente sua capacidade de produzir conhecimento e, ao mesmo tempo, demonstra crescente dificuldade para compreender as consequências desse conhecimento sobre si mesma? A pergunta acompanhou Morin durante mais de oito décadas e ajuda a explicar por que sua reflexão continua tão atual num planeta marcado por guerras simultâneas, instabilidade geopolítica, degradação ambiental, polarização política, migrações em massa e enfraquecimento dos mecanismos internacionais de cooperação. A relevância de Morin não reside apenas na extensão de sua obra, estimada em cerca de setenta livros, nem na variedade dos temas que abordou. Sua singularidade decorre da tentativa persistente de compreender relações onde a maioria enxergava apenas compartimentos. Enquanto a academia avançava na especialização crescente do conhecimento, ele procurava reconstruir pontes entre áreas que haviam deixado de dialogar entre si. Sociologia, filosofia, antropologia, biologia, comunicação, política, educação, ecologia e cultura tornaram-se partes de uma mesma investigação intelectual. Os grandes jornais franceses que o acompanharam durante décadas frequentemente destacavam essa característica. Morin não se interessava apenas pelos acontecimentos. Seu interesse estava voltado para os vínculos ocultos que ligavam acontecimentos aparentemente separados. Enquanto especialistas examinavam fenômenos isolados, ele procurava compreender as relações entre eles. Essa preocupação não surgiu apenas da observação acadêmica. Foi construída ao longo de uma vida marcada por experiências históricas extremas que lhe ensinaram a desconfiar das explicações simplificadoras. Filho de judeus sefarditas oriundos de Tessalônica, perdeu a mãe ainda na infância. Décadas mais tarde, essa ausência reapareceria em O Homem e a Morte, obra na qual a reflexão filosófica sobre a finitude emerge da experiência vivida e não apenas da especulação teórica. A perda precoce ensinou-lhe algo que jamais abandonaria: a experiência humana não pode ser compreendida apenas por estatísticas, teorias ou sistemas de pensamento. Ela precisa ser observada em sua dimensão concreta, emocional, histórica e existencial. A Segunda Guerra Mundial ampliou dramaticamente essa percepção. Ao ingressar na Resistência Francesa, Morin não apenas combateu a ocupação nazista. Confrontou uma forma de pensamento que reduzia seres humanos a categorias raciais e ideológicas. Décadas depois continuaria afirmando que os totalitarismos prosperam quando a riqueza da experiência humana é substituída por definições estreitas e excludentes. A lição adquirida naquele período ultrapassou o contexto do nazismo e passou a orientar sua reflexão sobre todas as formas de dogmatismo político e intelectual. Essa experiência ajuda a compreender sua posterior ruptura com o Partido Comunista Francês. Inicialmente atraído pelo ideal de transformação social, afastou-se ao perceber as deformações autoritárias do stalinismo. Sua ruptura não foi apenas política. Foi intelectual. Representou a rejeição de qualquer sistema que reivindicasse para si o monopólio da verdade. Morin compreendeu muito cedo que a busca pela justiça pode produzir novas formas de opressão quando deixa de admitir crítica, revisão e autocrítica. Sua trajetória intelectual o aproximou de algumas das figuras mais influentes da cultura francesa do pós-guerra. Conviveu com Albert Camus, Roland Barthes, Maurice Merleau-Ponty, Cornelius Castoriadis e Marguerite Duras. De cada um absorveu elementos distintos, mas preservou uma independência rara. Nunca pertenceu integralmente a uma escola de pensamento. Preferiu circular entre correntes intelectuais diversas, preservando a liberdade de construir uma visão própria. Essa abertura explica também sua aproximação com o cinema. Ao lado de Jean Rouch, participou da realização de Chronique d’un été, obra considerada fundadora do cinéma vérité. O projeto não era apenas cinematográfico. Investigava a relação entre realidade, representação e observação. Muito antes de as redes digitais transformarem imagens em instrumentos permanentes de mediação da experiência humana, Morin já refletia sobre a influência dos meios de representação na maneira como percebemos o mundo. Foi essa disposição para cruzar fronteiras disciplinares que o levou posteriormente ao Instituto Salk, na Califórnia. O contato com biólogos, geneticistas e pesquisadores das chamadas ciências duras ampliou ainda mais sua visão. Em vez de reforçar a compartimentalização dos saberes, procurou integrar descobertas científicas numa compreensão mais ampla da existência humana. Daí surgiu a obra que o tornaria mundialmente conhecido: O Método. A contribuição mais conhecida de Morin, frequentemente resumida pela expressão “pensamento complexo”, continua sendo mal compreendida. Complexidade, para ele, não significava obscuridade. Significava reconhecer que os fenômenos humanos são constituídos por múltiplas dimensões conectadas entre si. Quando escreveu que “a inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades”, estava criticando uma tendência profundamente enraizada na modernidade: a perda da visão de conjunto. O século XXI oferece inúmeros exemplos dessa limitação. A crise climática não é apenas um problema ambiental. Ela envolve padrões de consumo, modelos econômicos, relações geopolíticas, fluxos migratórios e decisões tecnológicas. As guerras contemporâneas não podem ser explicadas exclusivamente por fatores militares. Envolvem disputas energéticas, memórias históricas, identidades nacionais, interesses estratégicos e transformações econômicas. A polarização política tampouco decorre apenas de divergências ideológicas. Ela se relaciona com mudanças culturais, sistemas de comunicação, insegurança econômica e profundas transformações na vida social. Morin insistia que enfrentar desafios dessa natureza exige mais do que informação. Exige capacidade de relacionar informações. Por isso escreveu que “conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza”. A frase adquire relevância especial numa época marcada por discursos categóricos e identidades rígidas. Ao longo da história, as maiores tragédias coletivas raramente nasceram da dúvida. Foram produzidas por convicções absolutas incapazes de reconhecer limites, ambiguidades e contradições. Outra de suas afirmações centrais permanece particularmente atual: “O ser humano é simultaneamente físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico”. A frase desafia reducionismos que continuam presentes no debate público contemporâneo. Ela lembra que nenhuma pessoa pode ser explicada por uma única identidade, uma única crença ou uma única condição social. Cada indivíduo carrega múltiplas dimensões que se entrelaçam e influenciam mutuamente. Nos últimos anos de vida, Morin passou a utilizar o conceito de policrise para descrever a situação contemporânea. A ideia tornou-se influente porque captava algo que muitas análises convencionais não conseguiam perceber. O mundo não enfrenta uma coleção de crises independentes. Enfrenta crises que interagem, reforçam-se mutuamente e produzem efeitos cumulativos. Instabilidade geopolítica, emergência climática, desigualdade econômica, fragilidade institucional e transformações tecnológicas não constituem processos paralelos. Formam um único sistema de tensões. Essa interpretação ajuda a explicar por que tantas respostas governamentais parecem insuficientes. Frequentemente tentam resolver problemas articulados por meio de estruturas concebidas para lidar com problemas isolados. Quando observamos os conflitos que atravessam o Oriente Médio, a guerra na Ucrânia, os impasses da governança global e as dificuldades de cooperação diante da emergência climática, encontramos precisamente o fenômeno que Morin procurou compreender durante toda a vida: problemas conectados sendo enfrentados por instituições incapazes de enxergar conexões. Seu legado, portanto, não se limita à formulação da teoria da complexidade. O legado mais profundo está na tentativa de reconstruir intelectualmente aquilo que a modernidade separou em compartimentos estanques. Ciência e ética, indivíduo e coletividade, humanidade e natureza, razão e emoção aparecem em sua obra como dimensões inseparáveis de uma mesma realidade. Essa perspectiva não oferece soluções prontas para os conflitos contemporâneos. Oferece uma ferramenta intelectual particularmente fecunda para enxergá-los em toda a sua profundidade. Essa dimensão de sua obra ajuda a explicar por que sua influência ultrapassou os limites da academia e alcançou educadores, cientistas, jornalistas, ambientalistas e formuladores de políticas públicas. Ao longo de décadas de leitura, reflexão e ensino, passei a considerar Edgar Morin não apenas um pensador robusto, mas um dos raros intelectuais capazes de devolver profundidade a palavras que o uso excessivo, a retórica política e a dissociação dos saberes haviam progressivamente esvaziado. Com ele, reaprendi a pensar conceitos como humanidade, civilização, dependência mútua, ecologia, responsabilidade coletiva e destino comum não como abstrações elegantes destinadas ao debate acadêmico, mas como realidades concretas que condicionam o futuro das sociedades. Sua obra ampliou minha compreensão da ordem mundial, das relações entre cultura e política, dos limites dos modelos reducionistas de interpretação da realidade e dos vínculos invisíveis que unem fenômenos aparentemente desconectados. Também ajudou a reconhecer os custos intelectuais, políticos e morais de permanecer aprisionado a paradigmas herdados de outras épocas, frequentemente incapazes de responder aos dilemas de uma civilização cada vez mais integrada e, paradoxalmente, cada vez mais dividida. Entre as muitas contribuições que deixou, talvez a mais relevante seja a demonstração de que a realidade raramente se deixa compreender por categorias rígidas, fronteiras disciplinares ou compartimentos estanques. Pensar com Morin significou aprender a enxergar relações onde antes havia separações, contextos onde antes havia fragmentos e possibilidades de construção coletiva onde muitos insistiam em enxergar apenas impasses. Talvez seja essa a razão pela qual Edgar Morin continuará dialogando com gerações futuras. Num período histórico marcado pela aceleração tecnológica, pela multiplicação de informações e pela crescente dificuldade de construir projetos coletivos, sua obra recorda que compreender exige relacionar, contextualizar e integrar. Em última análise, sua reflexão sugere que os grandes conflitos do nosso tempo não serão enfrentados apenas com mais conhecimento, mas com uma compreensão mais ampla das conexões que unem seres humanos, sociedades e destinos compartilhados. Se Morin estiver correto, as guerras, os nacionalismos agressivos, a degradação ambiental e a incapacidade de cooperação internacional não são crises independentes. São manifestações distintas de uma mesma dificuldade civilizacional: a incapacidade de perceber que destinos humanos permanecem ligados mesmo quando interesses políticos insistem em separá-los. Talvez seja essa a razão pela qual sua obra continua necessária. Ela não oferece conforto. Obriga-nos a enxergar aquilo que frequentemente preferimos ignorar: nenhum problema verdadeiramente decisivo será resolvido enquanto continuarmos pensando o mundo em fragmentos.