Anfavea pressiona governo contra BYD e menciona risco de demissões em massa
20 Jan, 2026
A decisão que sacudiu a indústria automotiva há seis meses está de volta ao centro das atenções. No dia 31 de janeiro, termina o prazo de validade para a isenção de imposto de importação sobre veículos eletrificados desmontados, nos modelos CKD (completely knocked down) e SKD (semi knocked down). A medida, autorizada em julho de 2025, previa uma cota adicional de US$ 463 milhões por seis meses com alíquota zero, em meio à guerra de bastidores entre montadoras tradicionais, como Volkswagen, General Motors, Stellantis e Toyota, e a BYD - que atualmente produz veículos na modalidade SKD na sua fábrica em Camaçari (BA), inaugurada em outubro do ano passado. Agora, às vésperas do fim do prazo, a Anfavea, que representa as fabricantes mencionadas acima e outras empresas do setor, pressiona o governo federal a não renovar o benefício. Em nota divulgada ontem (19), a entidade que representa as montadoras com produção local afirma que incentivos à produção no modelo CKD e SKD poderiam eliminar até 69 mil empregos diretos, afetar 227 mil postos indiretos e provocar uma perda econômica bilionária para a cadeia automotiva, caso todas as montadoras decidissem seguir por esse caminho. "As empresas conseguiriam se adaptar adotando um modelo simplificado de produção, mas o problema seria relevante para a cadeia como um todo: perderiam as empresas fornecedoras, os trabalhadores, a engenharia nacional, a academia e o poder público. Ou seja, a sociedade brasileira inteira", afirma o presidente da Anfavea, Igor Calvet. Como tudo começou A tensão começou no primeiro semestre de 2025, quando a BYD pleiteou junto ao governo uma redução mais longa do imposto de importação para veículos desmontados, na tentativa de usar esse modelo de entrada até que sua fábrica na Bahia estivesse pronta para produzir carros com maior nível de nacionalização. O pedido previa isenção de imposto para carros eletrificados desmontados até junho de 2028, o que gerou forte reação da Anfavea e das maiores montadoras do país. Volkswagen, Toyota, Grupo Stellantis e Chevrolet chegaram a enviar uma carta ao presidente Lula alertando para os riscos de uma concorrência desleal ao acatar o pedido e pedindo o fim imediato da redução de imposto de importação para modelos eletrificados. Foi nesse contexto, em julho de 2025, que a BYD soltou um comunicado em tom crítico, sugerindo que a resistência ao seu pleito vinha de "concorrentes obsoletos". "Chega uma empresa chinesa que acelera fábrica, baixa preço e coloca carro elétrico na garagem da classe média, e os dinossauros surtam." A Camex (Câmara de Comércio Exterior) decidiu então por um meio-termo : isentar o imposto por seis meses, mas adiantar o fim da isenção definitiva para kits CKD/SKD. A alíquota cheia passará a ser cobrada a partir de julho de 2026, e não mais 2028 como previsto inicialmente. A decisão foi celebrada pelas montadoras tradicionais como um sinal de previsibilidade, mas a porta deixada aberta para renovação incomodou. Gatilho para renovação Embora não existam pedidos formais para prorrogação do incentivo, fontes ouvidas por esta coluna confirmam que há pressão nos bastidores para estender o regime por mais seis meses. O principal ponto de atenção é que a própria deliberação publicada pela Camex, em julho de 2025, já previa a possibilidade de renovação automática, caso haja decisão do governo. A influência do ministro Rui Costa, um dos articuladores da fábrica da BYD na Bahia, é considerada um fator decisivo. Rui tem interlocução direta com o presidente Lula e acompanha de perto o cronograma da montadora chinesa no país. Procurada, a BYD não comentou o caso até o momento - a empresa tem prometido ampliar ainda em 2026 o percentual de componentes locais nos veículos produzidos no Brasil. Já a GWM, outra chinesa que se beneficiou com as isenções, disse que não tem posicionamento, pois não fez nenhum pedido ao governo. E agora? Sem pedido formal, mas com articulações nos bastidores, o governo ainda não confirmou se renovará ou não o regime por mais seis meses. A expectativa é que a definição ocorra nos próximos dias, e a decisão deve voltar a dividir a indústria. Afinal, o Brasil quer estimular a industrialização de alta complexidade ou facilitar o caminho para mais montadoras chegarem ao país com planos de montagem simplificada? A resposta virá até o fim do mês.