Método investigado na Lava Jato levantou suspeitas sobre suposto esquema no São Paulo

admin
20 Jan, 2026
Como Júlio Casares foi de presidente com amplo apoio até perder prestígio no São Paulo Crédito: Leonardo Catto/Estadão Um dos principais obstáculos da investigação da Polícia Civil sobre o suposto esquema de desvio de verba no São Paulo é o rastreio do dinheiro retirado das contas do clube. Entre 2021 e 2025, cerca de R$ 11 milhões em espécie foram sacados por meio de 35 operações na boca do caixa. De acordo com relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), as movimentações foram consideradas atípicas pelos bancos em que o dinheiro estava depositado. Os saques seriam para cobrir despesas como bicho (premiação) a jogadores, arbitragem e direitos de imagem e o uso de carros-fortes se motivou por segurança. Diferentemente de uma transferência eletrônica, como TED ou Pix, saques bancários interrompem a trilha de auditoria eletrônica, tornando o rastro do dinheiro invisível para os sistemas automáticos de fiscalização. Isso dificulta a identificação do beneficiário final e a comprovação do destino econômico real das verbas. ‘Bicho’ e direitos de imagem: as justificativas do São Paulo para os saques milionários PUBLICIDADE “O clube fica no Morumbi, um dos bairros mais perigosos de São Paulo, próximo da favela de Paraisópolis. Difícil seria explicar por que você tirou de uma transportadora para um funcionário desarmado fazer os saques”, disse ao Estadão o advogado Pedro Ivo Gricoli Iokoi, do escritório Iokoi Advogados, que representa o São Paulo. Outro ponto que levantou suspeita por parte da Polícia Civil foi o fato de o São Paulo, após o início dos saques, ter deixado de discriminar o responsável por realizar as operações e contratar uma empresa de segurança para retirar o dinheiro. Ao todo, 28 dos 35 saques foram realizados com a ajuda de um carro-forte. Publicidade O advogado criminalista Carlo Luchione, sócio do Luchione Advogados, comenta que a utilização de carros-forte já foi apontada em outras operações, como a Lava Jato , como um método comum na prática de lavagem de dinheiro. “Embora seja identificado documentalmente quem autorizou a retirada, na identificação de quem recebeu os valores — muitas vezes através de terceiros como empresas laranjas —, transportes para outras instituições e novamente retiradas por novos laranjas, dificulta em muito o rastro documental ou digital”, diz o especialista, que é vice-presidente do Instituto Brasileiro Compliance (IBC). Conforme apontam os advogados do São Paulo, os valores teriam sido destinados a “compromissos rotineiros do futebol que exigem dinheiro em espécie” . Um assistente técnico (perito contador) foi contratado para elaborar um laudo detalhado que será apresentado à autoridade policial para comprovar o destino de cada saque. “Queria deixar bem claro que a nossa posição é absolutamente técnica e isenta, de responsabilidade para com o patrimônio social do clube. Então, por ora, os saques, que eram uma preocupação, a gente já verificou, tão contabilizados. E se tiver algum outro desvio, a gente vai verificar onde é que ocorre esse desvio e aí recomendar as medidas cabíveis ao clube”, explicou, Iokoi. Entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, período analisado pela Polícia Civil, o São Paulo (futebol profissional masculino) fez 361 jogos. O valor médio por partida fica em R$ 30,47 mil. Levando em consideração também os jogos do profissional feminino no período (176), a quantidade de partidas aumenta para 537. Dessa forma, o valor por jogo seria de R$ 20,48 mil. Publicidade Entretanto, é sabido que não era feito um saque a cada partida. Conforme Coaf apontou à Polícia Civil, o ano com mais saques foi 2024, com 11 retiradas. O inquérito da Polícia Civil também analisa o depósito de R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo, sem origem detalhada, na conta do presidente Júlio Casares. Segundo o relatório do Coaf, o montante foi parar na conta do dirigente tricolor ao longo de 132 depósitos, realizados entre janeiro de 2023 e maio de 2025. O que levantou suspeita da Polícia é o fato de a quantia não condizer com o salário de Casares como presidente do São Paulo, função à qual ele se dedica de maneira exclusiva. De acordo com o inquérito, o mandatário tem direito a uma remuneração de R$ 27,5 mil. A quantia dessa natureza referente ao período é de aproximadamente R$ 617,5 mil. A investigação aponta que Casares chegou a receber 12 depósitos em um único dia no valor total de R$ 49 mil. De acordo com o inquérito, outras operações próximas do limite de notificação automática obrigatória para o Coaf (R$ 50 mil) sugerem uma gestão calculada dos depósitos. A prática é conhecida como “smurfing”, estratégia usada para disfarçar o recebimento de dinheiro ilícito. Publicidade CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE “É uma forma clássica de dissimular a origem dos valores, vem normalmente acompanhada de fragmentação dos depósitos para não entrarem no alerta do Coaf, dificultando em muito a investigação”, comenta o criminalista Carlo Luchione. “Se a investigação verifica que há uma constante movimentação de valores entre empresas, depois denominadas laranjas, muitos saques em espécie fracionados para não caírem no red flag do Coaf, já existe margem para uma suspeita real de cometimento de crime de lavagem de dinheiro", diz o especialista. Bruno Borragine, que integra a defesa de Casares, garante que o montante tem origem lícita e argumenta que serão demonstrados origem, lastro e finalidade das quantias. Os representantes do presidente também trabalham com um perito contador. O advogado justifica o movimento e aponta para a distinção da quantia movida por Casares (R$ 1,5 milhão) em relação ao valor que saiu do São Paulo (R$ 11 milhões). “Trata-se de dinheiro de economias do Júlio, enquanto ele trabalhava no mercado privado. Ele fez uma reserva financeira. Quando ele assumiu como presidente, com salário de R$ 27 mil, ele não tinha como manter a qualidade de vida que mantinha trabalhando na iniciativa privada”, explica, ao Estadão, Borragine. “Uma vez que ele entra na presidência, tem um decréscimo considerável (na renda). Ele recorre às economias que ele tinha em espécie. Esse dinheiro não tem a ver com os R$ 11 milhões sacados para gastos do São Paulo”, completa. Casares é advogado, mas fez carreira na área de marketing e televisão. Ele foi superintendente do SBT por 12 anos e era diretor comercial da Record quando foi eleito em 2020. “Em específico ao Júlio, o inquérito não nasceu para investigar o fato criminoso imputado a ele, mas para outras pessoas físicas e jurídica. Ele cai de paraquedas. Foi percorrido o caminho do dinheiro, do final ao começo. Mas o dinheiro é lícito e legítimo”, conclui a defesa.