Isa Colli: A força da Copa em tempos de divisão
8 Jun, 2026
A cada quatro anos, acontece um fenômeno raro: pessoas que nunca discutem futebol passam a comentar escalações, horários de jogos e até superstições. As ruas ganham bandeiras, vitrines mudam de cor, crianças correm com camisas da seleção e, por alguns instantes, o país parece respirar no mesmo ritmo. A Copa do Mundo é mais do que um campeonato. É um sentimento coletivo. Mesmo quem não acompanha campeonatos ou mal sabe explicar a regra do impedimento acaba envolvido por essa atmosfera. O filósofo francês Émile Durkheim chamava de “efervescência coletiva” aqueles momentos em que uma comunidade compartilha emoções capazes de fortalecer laços sociais. Talvez seja exatamente isso que a Copa provoque: um raro instante em que desconhecidos se cumprimentam, famílias se reúnem e o cotidiano ganha uma pausa para celebrar algo em comum. É claro que nem tudo escapa às tensões do nosso tempo. Nos últimos anos, a polarização política invadiu até temas que antes pareciam universais. A convocação de Neymar, por exemplo, gerou debates que ultrapassaram o campo esportivo, assim como aconteceu quando até marcas populares, como as Havaianas, passaram a ser associadas a posicionamentos ideológicos. O problema não está na diversidade de opiniões, mas no risco de transformar qualquer símbolo coletivo em motivo de divisão permanente. Porque o futebol, especialmente durante a Copa, também é território de encontro. É a memória afetiva do churrasco em família, do vizinho gritando gol pela janela, da criança pintando o rosto de verde e amarelo sem entender exatamente o tamanho daquele evento, apenas sentindo que algo importante está acontecendo. E há muito valor nisso para as novas gerações. O encantamento pelo esporte desperta interesse pela prática de atividades físicas, incentiva o movimento, a disciplina, o trabalho em equipe e a convivência. Em tempos de sedentarismo crescente e excesso de telas, ver crianças brincando de bola na rua ou no recreio renova o fôlego. O esporte ensina sobre persistência, frustração, superação e coletividade de uma maneira que poucos discursos conseguem alcançar. Até a febre dos álbuns de figurinhas carrega algo de positivo. Trocar cromos repetidos, negociar jogadores raros e completar páginas são interações reais, olho no olho, num tempo em que muitos vínculos infantis acontecem apenas por meio de celulares e jogos online. Há um valor afetivo nessas pequenas experiências compartilhadas. A Copa talvez seja justamente isso: um tempo em que adultos recuperam memórias da infância e crianças constroem lembranças que levarão para sempre. E mesmo para quem não gosta de futebol, existe algo difícil de ignorar quando as ruas começam a ganhar as cores da seleção, quando as conversas mudam de assunto e quando a esperança, ainda que por noventa minutos, parece unir milhões de pessoas ao mesmo tempo. Porque, no fundo, não é apenas sobre esporte. É sobre emoção coletiva. E que venha o Hexa! Isa Colli é jornalista e escritora