BAP diz não se inspirar no Real Madrid por soberba e projeta o Fla sem SAF
9 Jun, 2026
Resumo A atual gestão do Flamengo pretende revolucionar o clube com uma administração realmente profissional. Entre as mudanças sugeridas, pessoas contratadas para os cargos ocupados tradicionalmente por dirigentes amadores, remuneradas e 100% dedicadas ao clube. Se aprovada a ideia pelo conselho deliberativo, os rubro-negros acreditam que darão um salto na direção do crescimento. Sim, o Flamengo quer seguir o caminho trilhado pelo Real Madrid. Sobre esse e outros temas, Luiz Eduardo Baptista, o BAP, presidente do campeão carioca, brasileiro e da Libertadores, concedeu a entrevista abaixo ao blog, via WhatsApp. Qual sua expectativa quanto à aprovação das importantes mudanças propostas? BAP - Foi uma promessa de campanha. Tenho convicção de que clubes associativos não precisam virar SAF, mas podem ser organizados como tal, via "gestão garantida", que ainda que não possa ser garantida, pode ser estruturada adequadamente. E é isto que estamos propondo. Penso que será aprovado, estou otimista. Acredita que em alguns anos o Flamengo seja um raro clube brasileiro sem dono propriamente dito? BAP - Piamente. Trabalho para isto aí há anos. Condições nós temos. A "incompetência", muitas vezes é o meio, não por acaso, com o objetivo de venderem o clube. Na sua visão a tendência é, a partir das SAFs, surgirem mais adversários fortes do Flamengo, contudo eventuais, como o Botafogo de 2024, ou fortes e duradouros? BAP - Querem ter rapidamente um corpo sarado, sadio e esbelto sem abdicarem de nenhum doce? Não existe milagre. A primeira onda, o primeiro ciclo de SAFs por aqui trouxe aventureiros irresponsáveis que se aproveitam da leniência punitiva do futebol, onde ou não há penalidades ou elas demoram demais, permitindo então abusos, como vemos todos os dias. Haverá, sim, um amadurecimento do modelo, com mais gente chegando e trabalhando de forma menos irresponsável. Com isso, virá o aumento de concorrência com toda a certeza, como houve na Premier League. O Flamengo tem tomado algumas iniciativas, caso da luta contra a tributação diferenciada entre SAFs e clubes associativos, por exemplo. Agora parte para um modelo de gestão inédito nas agremiações tradicionais do país. No longo prazo, qual a sua projeção para o futuro do clube? BAP - Seguir independente, monetizando tudo aquilo que representamos de positivo para a sociedade, para a nossa torcida. Somos uma Nação, e nações não podem depender apenas de uma fonte de renda (jogos). Neste contexto mais amplo, estaremos preparados para enfrentar qualquer um. Quando eu digo que queremos ser o Real Madrid das Américas, isso tem um significado mais amplo embutido: o da independência econômica, principalmente. Eles são um clube até hoje. E dos mais ricos. Por que não aqui? Por que não o Flamengo, um São Paulo, um Palmeiras? Basta vontade política, competência de gestão e resiliência. Quando você se refere ao Real Madrid, há quem interprete como soberba e quem entenda como projetar crescimento tendo como referência um dos maiores, ou o maior dos clubes de futebol. Como recebe essas distintas interpretações? BAP - Tolices. Acham que é arrogância. Não é. É seguir o exemplo de um clube que jamais negou suas origens, foi se reinventando ao longo de décadas sem jamais perder a relevância. Cresceu sem se vender, monetizou suas forças, dentro e fora de campo. Vivemos uma era de pouca profundidade, então esses comentários rasos não têm nenhum impacto aqui. O Maracanã não lotou em todos os jogos neste ano. O Real Madrid, o Borussia Dortmund e o River Plate jogam todas as suas partidas para 100% de ocupação. No caso do clube argentino são mais de 100 partidas consecutivas com público superior a 85 mil torcedores (a capacidade do Más Monumental de Nuñez). E aí estamos falando de um time sul-americano, como o Flamengo. O que pretende fazer para chegar nesse patamar? BAP - Ninguém joga 70 partidas ou mais na mesma temporada em nenhum desses exemplos. Nenhum deles disputa campeonatos estaduais (11 jogos) com baixo interesse. As amostras não são comparáveis. Temos gratuidades e meias entradas que prejudicam essas comparações. Ainda assim, somos os maiores em público e renda comparados a qualquer outro clube da América do Sul. Somos o melhor visitante do ponto de vista de vendas de ingressos. Não falta uma flexibilidade de preços em partidas de menor demanda, que tragam também o não sócio-torcedor e sirva de experiência que o estimule a se associar, inclusive? BAP - Os setores populares (norte e sul) estão sempre lotados. Então não tem nada a ver com preços populares. Este é um discurso raso e político, nada a ver com o negócio. O Flamengo não pensa em diversificar preços, criar novos modelos de sócio torcedor e atrair mais gente a esses jogos? No River, por exemplo, há quem pague mensalidade que dá direito a ir em todas as partidas e quem só consegue desembolsar menos, mas só pode ir a, digamos, um a cada cinco jogos como mandante. O sujeito sabe que chegou a vez dele e não quer perder essa partida, independentemente do adversário. Ele vai ao estádio. Formatos assim não seriam interessantes, se adaptáveis, para que o Flamengo consiga lotar o Maracanã em todas as partidas, mesmo com as diferenças existentes em relação a esses clubes citados? BAP - Trabalhamos buscando a maximização destas variáveis. Incluir ingressos em programas de sócios torcedores é uma possibilidade mas também uma armadilha. Se todo mundo adquirir, você acaba não tendo mais vendas, criando uma reserva de mercado para alguns sócios. Isto posto, temos analisado esta possibilidade para áreas específicas do estádio que tradicionalmente não lotam. Ou seja, aqueles espaços vazios de fato podem gerar alguma receita a mais, além de trazer de volta quem está afastado do estádio, não? BAP - Outro desafio: você não pode fazer preços diferentes. Em companhias aéreas, não há um único voo em que de todos pagam a mesma coisa. Havendo flexibilização, certamente lotaríamos todos os jogos. A obrigação de abaixar preços para todos não é razoável. Se 24 horas antes de um jogo há baixa procura dos sócios em determinados setores, seria possível abrir a preços de sócios para os não associados? O sujeito teria que fazer um cadastro, que seria posteriormente utilizado pelo Flamengo para convida-lo a se associar. E o sócio sabe que aquele preço de "liquidação" foi especificamente naquela partida, e que para ver jogos maiores terá que seguir associado e pagando mensalidade, porque não vai haver esse tipo de promoção em partidas grandes. Assim, esse não sócio consumiria, além de desembolsar pelo ingresso, tornaria o "Match Day" mais robusto. Além disso, provavelmente parte dessas pessoas se associaria adiante. Algo nesse sentido não seria razoável? BAP- Se você já tiver vendido ingressos para o mesmo setor por preços mais caros, não poderia fazer o que você sugere. Faria todo o sentido se o Procon aceitasse o fato de que há diferentes realidades entre clientes e que preços diferentes para o mesmo setor seriam naturais e uma realidade de mercado. Domingo o Flamengo emitiu nota sobre Arrascaeta, que se contundiu a serviço da seleção uruguaia, que o teria submetido a carga excessiva de treinamentos em meio à recuperação de uma fratura de clavícula. O que explica a subserviência de tantos clubes gigantescos diante dessa relação de exploração das federações e confederações nacionais, que usam jogadores caros e os devolvem machucados, forçam em treinos e os estouram? BAP- Poucos clubes sofrem problemas porque muitos não têm tantos jogadores convocados. Então não há nenhum senso de solidariedade entre os clubes no assunto, nem mesmo nos critérios de compensação financeira pela utilização dos atletas. Veja só, 5 mil dólares por dia com teto de 25 dias pela utilização do seu ativo. Você não tem o direito de opinar sobre o valor da remuneração do seu ativo. Isso significa que o Flamengo receberá 125 mil dólares (pouco menos de R$ 650 mil) para que o Uruguai tenha por até mais de um mês jogadores que custam milhões de reais a cada 30 dias? BAP- Que serão pagos em dezembro! Mas mesmo clubes europeus que são seleções transnacionais, como o já citado Real Madrid, não reagem tanto a tamanha exploração do chamado "ativo" dos clubes? BAP- Há um atenuante para eles: sempre estão de férias nesses momentos de Copa. Mas, sim, é isso mesmo. No Mundial nos Estados Unidos, por exemplo, eles pagaram valores diferentes aos times europeus de ponta, então de alguma forma compensaram a reclamações deles, que sem dúvida nenhuma são mais consideradas do que as nossas. O time do Flamengo está no trem certo? BAP- Não existe perfeição, então sempre há ajustes necessários em qualquer trajetória, faz parte. O que não devemos é pular do trem com ele em movimento.