Todd Haynes ganha mostra em SP e fala sobre ser ícone do cinema queer: ‘Ativismo articulado’
20 Jan, 2026
O ano de 2025 foi turbulento para Todd Haynes . O cineasta conhecido por narrativas de pessoas marginalizadas (geralmente, indivíduos LGBTQIA+) estava pronto para filmar seu novo romance, intitulado De Noche . No entanto, um dos atores principais, Joaquin Phoenix, abandonou o projeto cinco dias antes do começo das filmagens. Em consequência, a obra foi suspensa, sem previsão de retorno. PUBLICIDADE Felizmente, um ano depois, o filme reencontra seu caminho, com Pedro Pascal interpretando o papel em aberto. Além disso, em 2026, ele ganha uma retrospectiva no Brasil com 23 filmes , seja dirigidos por ele, seja de outros realizadores, porém em diálogo com o estilo do norte-americano. “O único problema desta retrospectiva é eu não poder estar aí”, ele brinca, em conversa descontraída com o Estadão . De fato, o artista se encontrava na Cidade do México durante a conversa, pronto para iniciar as filmagens da parte mexicana de De Noche . “Minha ideia era finalmente conhecer o Brasil! Nunca fui. Meu editor, Affonso Gonçalves, é brasileiro, e meu grande amigo Karim Aïnouz, também. Sempre quis ir”. Para o público paulistano, a mostra gratuita ( veja a programação aqui ) ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB-SP), entre os dias 21 de janeiro e 12 de fevereiro. Publicidade Entre os filmes confirmados, encontram-se Carol , romance com Cate Blanchett e Rooney Mara, indicado a 6 Oscars, além de Segredos de um Escândalo , Velvet Goldmine , O Preço da Verdade , Não Estou Lá , Longe do Paraíso , Veneno , Mal do Século , e mesmo o primeiro filme do diretor, o raro O Suicídio . Em paralelo, o evento inclui debates e atividades formativas. Haynes é normalmente associado ao New Queer Cinema, termo cunhado pela crítica de cinema B. Ruby Rich nos anos 1990, em referência à proliferação de filmes realizados nos Estados Unidos, na esteira da crise de HIV/AIDS. O cineasta declara o orgulho de ter integrado este grupo. “O Novo Cinema Queer foi uma das várias consequências de uma comunidade inteira tentando sobreviver às condições da pandemia que afetava nossas vidas de todas as maneiras possíveis, enquanto o governo permanecia em silêncio. Então, surgiu um ativismo articulado dentro desta comunidade inconformada”, ele pontua. “Fui muito presente neste ativismo social, nas manifestações na rua, para enfrentar as consequências do HIV/AIDS pelo mundo. Tivemos sucesso por meio da desobediência civil e da resistência — algo importante de lembrar nos dias atuais. Mas, em partes, foi uma resposta política”. Publicidade Em contrapartida, Haynes estima que sua principal contribuição veio na forma dos primeiros filmes de sua carreira: “Superstar: The Karen Carpenter Story, Veneno e Mal do Século abordavam a doença, e nunca poderiam ter sido criados fora deste contexto. No ano seguinte a Veneno e Paris Is Burning, vieram diversos filmes neste contexto, enquanto se criava um mercado de arte engajado. Enquanto isso, surgiu uma plateia gay, interessada em assistir não apenas a filmes sobre a AIDS e as questões contemporâneas, mas também temas ligados à alteridade e ao medo do desejo homoerótico na sociedade”. ‘A pior coisa de envelhecer é perder pessoas’: Maria Ribeiro encara o tempo em audiossérie íntima Série ‘Teerã’ é o conflito Israel vs. Irã recontado como um thriller de espionagem Refletindo sobre sua filmografia, o artista admite uma transformação profunda em seus trabalhos, desde as criações independentes e rebeldes dos anos 1990 até o formalismo de melodramas como Carol e Longe do Paraíso . “Olho para os filmes do começo da carreira, como Veneno e Mal do Século, e vejo um tipo de energia típico dos iniciantes, uma radicalidade de me posicionar firmemente fora das narrativas tradicionais, brincando com formas experimentais e políticas. Eu me pergunto se ainda tenho a mesma ousadia daquela época”, ele pontua, sorrindo. De fato, ao mencionar O Suicídio , curta-metragem de 1978, Haynes confessa que este era o “filme perfeito para o Todd de 16 anos de idade”, por combinar suas principais influências da época (produções como Perdidos na Noite , de 1969), e a paixão por flashbacks, ou ainda a combinação entre cores fortes e o preto e branco. Publicidade PUBLICIDADE Em relação às obras mais recentes, muitas delas indicadas ao Oscar, ou premiadas em festivais como Cannes e Berlim, ele admite que seus trabalhos se tornaram “polidos, com maior competência formal e estilística”. E confessa: “Tenho orgulho do que aprendi com minha prática como diretor”. Uma das principais modificações na carreira de Haynes, habituado a filmar seus próprios roteiros, foi a abertura para dirigir projetos oferecidos por terceiros. Segredos de um Escândalo teve roteiro de Samy Burch e Alex Mechanik, por exemplo, enquanto Carol foi adaptado por Phyllis Nagy, a partir do romance O Preço do Sal , de Patricia Highsmith. O autor explica que a decisão de adaptar Alma em Suplício ( Mildred Pierce ) funcionou como porta de entrada para este movimento. Nesta minissérie de 2011, Kate Winslet interpreta uma mãe tentando se reerguer junto à filha, durante a Grande Depressão, após o divórcio. Carol representava, portanto, o próximo passo . “Houve tentativas de adaptar O Preço do Sal por muito tempo. Talvez seja estupidez minha, enquanto pessoa queer com tantas amigas lésbicas, mas eu não conhecia ainda o romance. Não sabia o quanto ele era significativo para a comunidade lésbica”, reconhece. Publicidade “Quem me falou sobre este projeto pela primeira vez foi minha figurinista, Sandy Powell, que comentou: ‘Talvez eu faça este filme de época com Cate Blanchett’. Ela me contou que era uma história de amor lésbico, situada nos anos 1950, e eu pensei: ‘Como assim outra pessoa vai dirigir este filme, e não eu?’. Fiquei muito interessado, morrendo de vontade de conseguir essa oportunidade. Quando o diretor em questão não pôde mais assumir o filme, as coisas evoluíram rapidamente”. Algo semelhante ocorreu com O Preço da Verdade , história real proposta ao cineasta pelo ator Mark Ruffalo, e com Segredos de um Escândalo , a partir do convite de Samy Burch. O suspense com Julianne Moore e Natalie Portman aborda uma jovem atriz se preparando para encarnar uma versão fictícia da mulher que, décadas atrás, foi rejeitada pela sociedade por se relacionar com um adolescente. “Era preciso um estilo muito forte e controlado para esta história, de modo a transcender o aspecto de tabloide televisivo e o caráter de escândalo real”, justifica o cineasta. “A austeridade permite a estas mulheres funcionarem dentro de um suspense de desconforto, porque existem pouquíssimos cortes na montagem, além de uma trilha sonora fortíssima. O enquadramento agressivo força os espectadores a entrarem em certo estado de interpretação, antes mesmo de saberem que existe algo a interpretar”. No próximo ano, os festivais e salas de cinema devem acolher De Noche , que Haynes descreve como sendo de baixíssimo orçamento. Publicidade “A história se passa em Los Angeles, 1938. É um romance entre dois homens: um nativo-americano e um detetive. Então ele começa como uma história de detetive, mas se transforma numa história de amor. Vai ser estrelado por Pedro Pascal e Danny Ramirez. O filme se torna ainda mais relevante diante de tudo o que acontece no mundo ao nosso redor, embora se passe em 1938”. Sem mencionar diretamente o incidente com Joaquin Phoenix, ele confessa o transtorno decorrente das reviravoltas no projeto. “Conseguimos trazer de volta muitas das pessoas que trabalharam arduamente no ano passado. Isso torna o projeto ainda mais precioso para todos os envolvidos, por causa da maneira como ele foi interrompido, e pela tensão que gerou em todo mundo. É ótimo poder retomá-lo”. Logo após esta conversa, Haynes precisou voltar rapidamente ao set de De Noche — pessoas da equipe já solicitavam sua presença. Publicidade Enquanto este novo romance — com roteiro do próprio diretor, desta vez — se materializa, os espectadores do Rio de Janeiro (através da Mostra Todd Haynes no CCBB-RJ) e de São Paulo descobrem o trabalho de um dos diretores mais interessantes em atividade. Há mais de 40 anos, Haynes se equilibra muito bem na construção de obras provocadoras, porém, de perfeita comunicação com o público médio (algo que os fãs de Carol e Segredos de um Escândalo sabem bem). Esta retrospectiva representa, de fato, uma oportunidade preciosa.