"Demorou, mas o Brasil começa a estar na moda", diz Adolpho Veloso

admin
20 Jan, 2026
Além do destaque de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura na temporada de premiações, outro brasileiro tem brilhado. O diretor de fotografia Adolpho Veloso participou do filme Sonhos de trem e seu trabalho impecável foi reconhecido na premiação do Critics Choice Awards. Adolpho também foi premiado pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles por Melhor cinematografia. O brasileiro está trabalhando com o diretor Clint Bentley pela segunda vez e contou ao Correio sobre a relação dos dois, o set de filmagem de Sonhos de trem, a experiência em premiações e como ele avalia o momento atual do cinema brasileiro. Fique por dentro das notícias que importam para você! Quando foi fazer o primeiro filme dele, ele tinha visto o documentário que eu fiz com o Heitor Dhalia, que é On Yoga. Ele queria fazer um filme, o Jockey, que transitasse entre documentário e ficção. E foi assim que a gente se conheceu. Foi um prazer fazer esse filme. Como era uma coisa no estilo guerrilha, a gente se aproximou muito, além da relação de trabalho. Quando chegou a hora de ele começar a pensar no próximo filme, a gente conversava bastante. Produtores ofereceram para ele adaptar Sonhos de Trem. Ele topou e começou a escrever. Foi incrível porque, como eu já estava na conversa, ele queria fazer comigo. Eu acompanhei essa evolução e a gente conversava desde o começo, não só sobre fotografia, mas sobre o filme em si, o significado da história e o roteiro. Eu acho que isso é o mais incrível de uma parceria, você não parte da estaca zero toda vez. Você já tem uma linguagem. A gente olhava para trás para pensar no que funcionou no Jockey e o que a gente queria repetir. Uma dessas coisas foi o fato de que, apesar de ter sido um filme muito difícil de filmar pelo tamanho dele, o Jockey tinha algo incrível. Por ter uma equipe muito pequena, a gente tinha uma liberdade muito grande. Isso seria muito benéfico para trazer para Sonhos de Trem. Isso tudo foi uma loucura também, porque a gente fez um filme independente e, em Sundance, a Netflix comprou o filme. Só que, basicamente, o que a Netflix faz é engavetar o filme por oito meses para lançar na época certa, que é essa época de premiações. Então, por oito meses, o filme deixou de existir. Você esquece ele por um tempo. E, aí, de repente, o filme volta quando eles decidem lançar. E tudo voltou, as reações incríveis, conversas sobre chances em premiações. E você vai muito cético para isso tudo, porque, sinceramente, quando você está fazendo o filme, a última coisa que você espera é que ele funcione. De repente, você entra nesse papo. Você começa a fazer entrevistas, screenings, jantares. Você vai indo, mas ainda muito cético. Quando vieram as indicações do Critics Choice, já foi surreal, porque é aquela sensação de ver seu nome numa lista com um monte de gente que você admira. Tudo isso ainda é muito surpreendente para mim. Eu fico muito feliz, mas ainda parece irreal. Parece que uma hora eu vou acordar e ver que era tudo mentira. A primeira grande surpresa foi quando saiu o prêmio da Associação dos Críticos de Los Angeles. Um jornalista que eu conheci aqui em Los Angeles me mandou uma mensagem falando que eu tinha ganhado, e eu não sabia nem o que. E é um prêmio importantíssimo. Um dos dois maiores círculos de crítica, junto com Nova York. Eu fui ver e, realmente, tinha ganhado. Sem entender absolutamente nada. Eu fiquei muito feliz só de estar lá, de conhecer as pessoas, ver todo mundo ao vivo. Cheguei lá, conheci o Kleber, o Wagner Moura, um monte de gente. Eu já estava muito feliz. A gente sentou na mesa do filme e a primeira coisa que a gente falou foi que o filme concorria em cinco categorias e a gente tinha certeza absoluta de que não ia ganhar nenhuma. Todo mundo estava feliz só de estar ali. É um filme pequeno perto de tudo aquilo. A gente estava competindo com filmes de diretores superestabelecidos, com orçamentos de mais de 100 milhões de dólares, com diretores que já ganharam Oscar, com Paul Thomas Anderson e Leonardo DiCaprio. Sonhos de trem era um filme de 8 milhões de dólares, dirigido por alguém no segundo longa, com um fotógrafo brasileiro. Um peixe muito pequeno. Então a gente combinou que a cada prêmio que a gente perdesse, a gente tomava um shot de tequila. Era para ser ao longo da noite inteira. Só que o primeiro prêmio que anunciaram do filme foi o de fotografia. Eu estava comendo tranquilamente. De repente anunciaram fotografia, apareceu meu nome e a mesa inteira explodiu. A gente gritou, comemorou, e os cinco shots de tequila que eram para durar a noite inteira aconteceram em 10 segundos. Foi uma surpresa gigantesca. É um prêmio votado por mais de 500 críticos. Para um filme do nosso tamanho, com todas as dificuldades, foi surreal. Depois ainda me falaram que eu fui o primeiro brasileiro a ganhar esse prêmio. Coisas que eu nem imaginava. A gente comemorou muito. Cada vitória é um vai Brasil e vai Corinthians. Eu acho que esse momento é muito merecido, mas vem tarde. O Brasil sempre teve filmes incríveis, talentos incríveis. Eu não acho que seja uma coisa nova. Vários fatores aconteceram para que isso esteja em voga agora, para o Brasil estar na moda. Eu acho que um grande motivo é a união de todos os brasileiros em relação a isso. As redes sociais, o quanto os brasileiros enchem o saco da galera da Academia. Coisas que, não só ajudam os filmes brasileiros e os profissionais brasileiros, mas também fazem o mundo perceber que precisa escutar os brasileiros. Eles têm um poder muito grande. Mas que bom que isso está acontecendo, que bom que o Brasil, de certa maneira, começa a estar na moda. Demorou 90 anos para o Brasil ganhar um Oscar, e que incrível que finalmente ganhou, com um filme que mereceu ganhar absolutamente. Mas acho que existiram outros filmes antes que também mereceram ganhar e que, infelizmente, não ganharam. Mas que incrível que, um ano depois, a gente já está aqui de novo. Eu espero muito que isso abra portas para muito mais gente, para trazer dinheiro de fora para mais produções brasileiras, para fazerem mais cinema no Brasil. E, acima de tudo, para a gente ter uma porta maior para todos os talentos que a gente tem no Brasil, que são inúmeros. Em 2003, no aniversário de Brasília, Wagner Moura participou de um projeto do Correio Braziliense e foi convidado a escrever um conto com a capital como personagem. Intitulado Jesus é brasiliense, o conto tinha como uma das suas inspirações o ator Saulo Humberto, que naquele ano, iria interpretar o Cristo na via-sacra de Planaltina pela primeira vez. Confira o conto de Wagner na íntegra através do QR Code abaixo. Estudante de Jornalismo na Universidade de Brasília.