Tatá Werneck e Edu são inconvenientes

admin
14 Jun, 2026
A inconveniência é a alma do humor. Sem ela, a comédia vira piada monitorada, direcionada –e piada que quer ser engraçada, pra mim, mais irrita do que diverte. Num tempo em que tudo o que se fala parece ser fiscalizado por um comitê de prevenção de incêndio moral, E.T. – Edu e Tatá chega com um fósforo aceso e um balde de gasolina. O programa nasce do encontro entre a (invejável) liberdade caótica de Eduardo Sterblitch e a velocidade verbal e mental de Tatá Werneck. Os dois operam na mesma frequência de pane e, contra todas as normas de segurança, funcionam. A dupla consegue fazer rir sem se dobrar às sensibilidades coletivas e sem apelar para a velha grosseria fantasiada de ousadia. O resultado é um nonsense sem a mínima compostura. Tatá e Edu não têm medo do vexame. Pelo contrário: usam o vexame como matéria-prima. Edu não faz o caos. Ele é o caos. Um caos que, suspeita-se, acorda junto com ele, improvisa, faz com que esbarre na própria ideia no meio da frase e continue sem se lembrar —ou se importar— de onde tinha partido. Tatá é um fenômeno nervoso, um cérebro em 220 numa tomada de 110. Os dois brincam de perder a dignidade e transformam a TV num brinquedo nas mãos de duas crianças hiperativas –e nos puxam para dentro da bagunça, porque rir junto é admitir que vivemos o mesmo absurdo. Há uma certa beleza nesse tipo de desordem. A piada que se faz de boba, que se suja, que não se preocupa com a pose, tem uma franqueza que nos toca. Não é choque por choque —é um gesto que procura verdade no ridículo. Toda grande comédia é, no fundo, alguém dizendo: olha como tudo isso aqui é ridículo —inclusive eu, inclusive você. Tatá diz que conhece os defeitos de Edu desde antes do Pânico transformá-lo em patrimônio nacional. Ele devolve dizendo que Tatá só o trata bem quando está medicada. É uma troca com o mesmo nível de crueldade e de afeto. Coisa de amigos íntimos. Edu brincou que conseguiram levantar um programa de humor "com o orçamento de uma coxinha e um caldo de cana". Seja como for, o maior luxo de E.T. é a química impagável da dupla, coisa que não se compra com uma superprodução. Por isso, quando eles mergulham em esquetes, paródias, personagens e improvisos, a sensação não é de produto hermético feito para agradar um determinado público e para irritar outro, mas de brincadeira levada às últimas consequências. Quando a gente acha que bateram no limite, eles colocam o dedo mais fundo —às vezes até literalmente. Tem gente comparando a Monthy Python ou TV Pirata. Menos. Mas em tempos em que muita comédia escolhe primeiro a bolha a que pretende agradar e só depois procura a piada, E.T. faz o caminho contrário —e mais arriscado. Atira para todos os lados, inclusive para dentro da própria sala. O programa não escolhe o lado que o espectador deve rir. É apenas muito engraçado. Atualmente, quase um ato de subversão.