Djavan aquece Curitiba com show apaixonante na Pedreira

admin
14 Jun, 2026
Pisei na Pedreira Paulo Leminski na noite do dia 13 de junho desiludido com canções de amor. Eu gostava do Djavan, mas não entendia como um homem consegue fazer a carreira inteira com um só tema. Acreditava que era desonesto tratar o amor, coisa tão bela, como uma fórmula para o sucesso. Na minha cabeça, repetia o dizer: “Se alguém lhe escreve um poema, ele te ama. Se lhe escreve mil, ele ama poesia”. Fui no show com a minha namorada, a quem eu nunca admitiria isso tudo, porque ela é apaixonada por canções de amor. Um oceano de pessoas fluía da entrada para o palco. Ainda eram 18h, três horas antes do começo da apresentação, mas era dia da estreia da seleção brasileira na Copa e transmitiriam o jogo no telão. Sempre que a câmera parava no Neymar, a plateia de mais de 20 mil pessoas vaiava. Ficou um silêncio monástico depois do primeiro gol da partida: Um a zero para Marrocos. Mas logo depois a Pedreira explodiu com o gol do Brasil. O jogo acabou. Um a um — más notícias para Djavan, que pegaria uma platéia aflita. E eu achei que o show seria igual, um empate. Djavan subiria no palco, cantaria os sucessos, a galera imitaria a letra e daí iríamos embora — o oceano de pessoas fluindo na direção oposta. Talvez algum fanático até choraria. Mas nada demais. Foi quando ele apareceu e começou a me cantar “Sina” que eu me toquei que a platéia aflita não seria um problema. Djavan estava com um casaco que parecia ser muito aconchegante e quentinho. Dava para ver suas palavras condensando e virando névoa por causa do frio. Trezentos canhões de luz apontavam para o poeta, roubando todo o brilho das estrelas. “Tocarei seu nome pra poder falar de amor / Minha princesa, art-nouveau da natureza” Mexi o corpo mas não estava convencido. Olhei para minha namorada, iluminada pelo reflexo do artista. Olhei nos olhos dela e peguei sua mão. Abri meu coração para a canção. Decidi que já que estava lá, tentaria sentir o que Djavan propunha. Começou a tocar “Linha do Equador”. “Luz das estrelas, laço do infinito / Gosto tanto dela assim / Rosa amarela, voz de todo o grito / Gosto tanto dela assim” Senti um enorme aperto no peito. Escutar Djavan é bastante como finalmente admitir um amor reprimido com todas as palavras. Ao vivo foi como se ele me implorasse para sentir tudo que eu julgava como vulnerável demais e bobo. Uma paz enorme caiu sobre mim e eu dancei juntinho da minha namorada, aborrecendo todos na muvuca ao redor. Então veio “Oceano”. “Amar é um deserto e seus temores / Vida que vai na sela dessas dores / Não sabe voltar, me dá teu calor / Vem me fazer feliz, porque eu te amo / Você deságua em mim, e eu, oceano / E esqueço que amar é quase uma dor” Aí me lembrei de Safo e seu único ode sobrevivente. Na pequena ilha de Lesbos, há mais de 2,5 mil anos ela já sabia: “Afrodite eterna de etéreo trono, Filha de Zeus que urde enganos, peço- Te: com mágoa e náusea não domines, Dona, minh’alma”. Camões também tentou me contar: “Amor é fogo que arde sem se ver, / é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer.” Senti aquelas borboletas na barriga quando olhei para minha namorada. Veio um medo enorme de me abrir à música, mas do mesmo jeito o fiz. Djavan começou a cantar “Samurai” e a plateia gritou mais do que quando o Brasil fez gol. “Eu quis lutar contra o poder do amor / Caí nos pés do vencedor / Para ser o serviçal de um samurai” Acabou que o fanático que chorou fui eu, sentindo tudo que o poeta cantava. Beijei minha namorada e senti minha cara aquecer com o choro. Decidi naquele momento amar sem limites, ser menos chato e escutar mais Djavan. Foto: Franklin de Freitas O bis de “Sina” começou e aquele oceano de gente fez o mundo inteiro tremer. Eu também pulei, cantando: “O luar, estrela-do-mar / O Sol e o dom / Quiçá, um dia, a fúria desse front / Virá lapidar o sonho até gerar o som / Como querer caetanear o que há de bom”. O show foi magnífico. A banda estava arrasando e o Djavan estava com a voz impecável de um imortal. Ele agradeceu depois de todas as músicas. No final, teve até confete. Foi uma oportunidade inesquecível de presenciar alguém que canta com o coração sobre um tema que dá para escrever mais de mil poemas: o amor. *João Marcelo Simões supervisionado por Josianne Ritz O post Djavan aquece Curitiba com show apaixonante na Pedreira apareceu primeiro em Bem Paraná .