Futebol cresce nos EUA, mas NFL ainda domina o coração americano

admin
19 Jun, 2026
Durante décadas, a frase "os americanos não gostam de futebol" virou quase um consenso entre torcedores de outros países. Mas quem acompanha o cenário esportivo dos Estados Unidos percebe que essa realidade mudou. O futebol — chamado de soccer pelos norte-americanos — nunca teve tantos praticantes, espectadores e investimentos no país. A realização da Copa do Mundo de 2026 em solo americano acelerou ainda mais esse movimento. A questão é que crescimento não significa liderança. Embora o futebol esteja em expansão, ele ainda está distante de ameaçar a hegemonia do futebol americano, modalidade que continua sendo a principal paixão esportiva dos Estados Unidos. A Copa de 2026, realizada em conjunto por Estados Unidos, Canadá e México, oferece um retrato interessante dessa transformação: milhões de americanos passaram a acompanhar a competição, mas boa parte deles ainda reserva suas maiores emoções esportivas para a NFL. ### O esporte que deixou de ser "coisa de criança" Por muitos anos, o futebol ocupou um espaço curioso na cultura americana. Era extremamente popular entre crianças e adolescentes, mas poucos continuavam acompanhando a modalidade na vida adulta. Essa lógica começou a mudar por diversos fatores. A expansão da Major League Soccer (MLS), a chegada de estrelas internacionais, a facilidade para assistir às ligas europeias por streaming e o crescimento das comunidades latino-americanas ajudaram a criar uma nova geração de torcedores. Dados recentes indicam que os Estados Unidos já possuem uma das maiores bases de fãs de futebol do mundo, com mais de 62 milhões de seguidores da modalidade. O crescimento da popularidade do esporte na América do Norte superou 10% nos últimos cinco anos. A chegada de jogadores como Lionel Messi ao futebol americano também teve impacto imediato. A audiência da MLS disparou, enquanto patrocinadores e emissoras passaram a enxergar o esporte como uma oportunidade comercial cada vez mais relevante. Em cidades como Nova York, Los Angeles, Seattle, Atlanta e Miami, encontrar bares lotados durante partidas da Premier League inglesa, da Liga dos Campeões ou da seleção americana já não é algo incomum. ### Copa do Mundo desperta interesse recorde Se havia dúvidas sobre o potencial do futebol nos Estados Unidos, os números da Copa de 2026 começaram a respondê-las. A estreia da seleção americana contra o Paraguai registrou quase 16 milhões de telespectadores, tornando-se a transmissão mais assistida da história da equipe nacional e a maior audiência de um jogo de fase de grupos de Copa do Mundo na televisão americana em língua inglesa. Pesquisas realizadas às vésperas do torneio mostraram que cerca de um terço dos adultos americanos pretendia acompanhar a Copa, número superior ao registrado poucos meses antes. Outro indicador relevante é o interesse comercial. Estimativas apontam que o Mundial poderá movimentar cerca de US$ 19 bilhões na economia americana, beneficiando setores como turismo, hotelaria, alimentação, entretenimento e varejo. A atmosfera dos jogos também tem surpreendido. Em Seattle, por exemplo, mais de 66 mil torcedores lotaram o estádio para acompanhar a vitória dos Estados Unidos sobre a Austrália, resultado que garantiu vaga da equipe na fase eliminatória. ### O americano torce para sua seleção? A resposta é sim, mas com algumas particularidades. Ao contrário de países como Brasil, Argentina ou Inglaterra, onde a seleção nacional ocupa posição central na cultura esportiva, o apoio à equipe americana costuma crescer especialmente durante grandes eventos internacionais. Pesquisas de opinião realizadas antes da Copa apontaram que 30% dos americanos afirmavam apoiar prioritariamente a seleção dos Estados Unidos durante o Mundial. Entre aqueles que demonstravam algum interesse pela competição, esse percentual chegava a 55%. A seleção masculina dos Estados Unidos também vive um momento diferente daquele observado nas décadas passadas. A atual geração reúne atletas que atuam em grandes clubes europeus, aumentando a identificação do público com o time nacional. Ainda assim, muitos americanos acompanham a Copa sem o mesmo nível de envolvimento emocional observado em países tradicionalmente futebolísticos. É comum torcer pelos Estados Unidos e, simultaneamente, admirar seleções como Brasil, Argentina, França ou Inglaterra. ### A força quase imbatível da NFL Apesar do crescimento do futebol, a NFL continua ocupando um patamar isolado na cultura esportiva americana. O Super Bowl permanece como o evento esportivo mais assistido do país, reunindo audiências muito superiores às registradas por qualquer partida de futebol. Pesquisas sobre intenção de audiência mostram que a Copa do Mundo ainda fica bem atrás do interesse despertado pela NFL. Há razões culturais para isso. O futebol americano está profundamente ligado à identidade nacional dos Estados Unidos. Universidades, escolas, cidades e famílias construíram tradições centenárias em torno do esporte. Os domingos de NFL fazem parte da rotina de milhões de pessoas, algo semelhante ao que o futebol representa para muitos brasileiros. Outro aspecto é o calendário. Enquanto o futebol internacional aparece em grandes momentos específicos — Copa do Mundo, Copa América e competições europeias — a NFL mantém uma presença constante e altamente valorizada na mídia americana. Isso não significa que o futebol esteja perdendo espaço. O cenário atual parece mais próximo de uma convivência entre modalidades do que de uma substituição. ### O futuro do futebol americano... e do futebol O que se observa hoje nos Estados Unidos é um fenômeno semelhante ao que aconteceu com a Fórmula 1 nos últimos anos: um esporte internacional conquistando novos públicos sem necessariamente derrubar os gigantes já estabelecidos. Pesquisas indicam que quase metade dos americanos demonstra algum nível de interesse pela Copa do Mundo de 2026 e que muitos acreditam que seu interesse pelo futebol continuará crescendo após o torneio. Entre os mais jovens, especialmente integrantes das gerações Z e Millennials, o futebol já ocupa uma posição muito mais relevante do que ocupava entre seus pais e avós. O resultado é um país que continua apaixonado pela NFL, mas que passou a olhar para o futebol com muito mais atenção. A pergunta já não é se os americanos gostam de futebol. Os números mostram que sim. A questão agora é até onde esse crescimento pode chegar após uma Copa do Mundo disputada dentro de casa. Talvez o maior legado de 2026 não seja transformar os Estados Unidos em uma nação do futebol da noite para o dia, mas consolidar definitivamente o esporte como parte relevante da cultura esportiva americana nas próximas décadas.