O pensamento crítico na era dos algoritmos

admin
26 Jun, 2026
Romper a bolha algorítmica significa enfrentar o desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no senso comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital. Por Leandro do Erre – de São Paulo A ilusão da escolha e a reificação digital. Em termos técnicos, um algoritmo é apenas uma descrição matemática de um processo. No entanto, no capitalismo contemporâneo, eles se transformaram na infraestrutura invisível que filtra a realidade, selecionando a enorme quantidade de informação disponível e tomando decisões por nós. O algoritmo aprisiona e limita o pensamento , uma vez que delimita o nosso acesso a temas fundamentais de nossa vida. O algoritmo aprisiona e limita o pensamento Quando permitimos que uma fórmula matemática decida a próxima notícia que vamos ler, o próximo vídeo que vamos assistir ou a opinião que devemos ter sobre um fato político, nossa capacidade de escolha fica restrita a interesses que não são os nossos. Mais do que isso, estamos vivenciando o que se chama de reificação: o processo pelo qual relações sociais e humanas (como a comunicação, o debate e a formação de opinião) ganham o caráter de “coisas” independentes que passam a governar nossas vidas. O algoritmo, desenhado para maximizar a extração de lucro, reter a atenção e nos manter numa bolha que dita o que vamos pensar e como vamos viver. Ele não tem compromisso com a verdade ou com a profundidade, mas apenas com o engajamento. Ele prioriza o que choca e o que conforta. Nesse cenário, resistir ao algoritmo não significa abandonar a tecnologia, mas recusar o que é imposto de forma passiva. É fazer escolhas ativas para preservar nossa soberania intelectual. É, nos termos de Paulo Freire, recusar a condição de objeto — de mero receptáculo passivo de depósitos informacionais — e assumir-se como sujeito que lê criticamente o mundo (Freire, 1970). O pensamento crítico tornou-se nossa principal forma de resistência na era do algoritmo. A leitura crítica do mundo: superação dialética do senso comum. Mas precisamos entender o que é o pensamento crítico, pois existe uma armadilha perigosa no debate sobre ele: reduzi-lo a um ceticismo genérico. Dizer que pensar criticamente é “questionar tudo” é abrir as portas para o cinismo paralisante e para teorias da conspiração. A dúvida pela dúvida não constrói; a crítica sem perspectiva é inócua e serve à manutenção do poder. ela apenas destrói e te aprisiona numa eterna negação sem rumo. O pensamento crítico é, antes de tudo, uma postura intelectual que rompe com a absorção passiva dos conteúdos impostos pelo algoritmo, é uma leitura crítica do mundo — e essa leitura precede sempre a leitura da palavra (Freire, 2000). Isso significa que antes de “checar fatos” ou “verificar fontes”, precisamos compreender as condições materiais e históricas que produzem esses fatos. É aqui que o materialismo histórico se torna uma ferramenta indispensável para a construção de um pensamento crítico, sendo um dos pilares de nossa independência intelectual. Ele nos ensina que as ideias — inclusive a desinformação e as “fake news” — não existem no vazio. Elas são produzidas por condições materiais específicas: o modelo de negócios das grandes plataformas de tecnologia, a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a necessidade de extrair lucro através da retenção da nossa atenção. Pensar criticamente exige identificar essas raízes materiais, não apenas combater as ideias no plano abstrato. Parafraseando Max não basta explicar – ou entender – a realidade, é preciso transformá-la. A superação das oposições teóricas não é apenas uma questão de conhecimento, mas também uma exigência da vida concreta e prática. Freire nos ensina que essa leitura crítica envolve dois movimentos simultâneos: a denúncia do que existe (a realidade injusta, a manipulação, a desinformação, o capitalismo desigual) e o anúncio do que ainda não existe (o mundo possível, a sociedade justa, o “inédito viável”, a superação do capitalismo) (Freire, 2000). Pensar criticamente, portanto, não é apenas desmontar mentiras, denunciar a desigualdade — é construir alternativas concretas para a superação desta realidade. É a passagem da constatação passiva ao projeto de transformação social. O pensamento crítico não é um dom individual, mas uma construção coletiva e histórica. Ele se manifesta como a transição da curiosidade ingênua — aquela associada ao saber do senso comum — para a curiosidade epistemológica: uma curiosidade que se torna crítica e metodicamente rigorosa em sua aproximação ao objeto (Freire, 1996). Essa passagem não é uma ruptura absoluta, mas uma superação dialética. A dialética nos ensina que o desenvolvimento do pensamento não se dá descartando o conhecimento anterior como puro erro, mas incorporando-o em formas mais ricas e concretas. A curiosidade do trabalhador que se pergunta por que seu salário não acompanha a inflação é a mesma curiosidade do cientista político que investiga a concentração de renda — o que muda é o rigor metódico. O senso comum “só se supera a partir dele e não com o desprezo arrogante dos elitistas por ele”. Algorítmica Por que a leitura crítica do mundo é decisiva na era digital? Porque o algoritmo funciona exatamente nos moldes daquilo que Freire chamou de educação bancária (Freire, 1970): deposita conteúdos em sujeitos passivos, sem diálogo, sem problematização. A timeline é o novo “banco” onde se depositam informações fragmentadas, que servem à dominação na medida em que impedem a visão de totalidade. Mais profundamente, o ecossistema das redes sociais é a forma contemporânea da Indústria Cultural, conceito central desenvolvido pela Escola de Frankfurt. Adorno e Horkheimer mostraram como, sob o capitalismo monopolista, a cultura é destituída de seu potencial de expressão autêntica e passa a funcionar como mercadoria padronizada e massificada, destinada a estabilizar a ordem social. A lógica industrial se traduz hoje nos algoritmos, que reproduzem a mesma dinâmica: oferecem a ilusão de diversidade infinita, mas, na prática, aprisionam os usuários em bolhas de retroalimentação, reforçando o conformismo e neutralizando o pensamento crítico (Adorno e Horkeimer, 1944). A Escola de Frankfurt nos alerta para o perigo da razão instrumental — a lógica cega da eficiência e do cálculo (a própria essência do algoritmo) que se divorcia dos fins éticos e humanos. Essa racionalidade transforma tudo em objeto de manipulação, reduzindo pessoas a estatísticas e interações a métricas de engajamento, sem qualquer preocupação com emancipação ou justiça. Trata-se do desdobramento da mesma matriz de pensamento que, historicamente, atingiu seu ápice destrutivo ao viabilizar sistemas tecnicamente eficientes, mas moralmente devastadores, como o nazismo ou a produção da bomba atômica (Adorno e Horkeimer, 1944). Em contraste, a razão crítica questiona os fins e não apenas os meios: indaga a serviço de quem está essa eficiência, quem se beneficia do tempo que passamos rolando uma tela e se tais estruturas promovem autonomia ou apenas reforçam a alienação. Enquanto a razão instrumental naturaliza o conformismo e a passividade, a razão crítica denuncia as contradições e busca abrir espaço para a reflexão e a transformação social. Freire já antecipava essa preocupação em relação à mídia de massa: “Não temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em televisão sem ter em mente a questão da consciência crítica. É que pensar em televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação, processo impossível de ser neutro.” (Freire, 1996). Se substituirmos “televisão” por “algoritmo”, a advertência de Freire se torna ainda mais urgente. O poder dominante leva uma vantagem sobre nós: “ para enfrentar o ardil ideológico de que se acha envolvida a sua mensagem na mídia, nossa mente ou nossa curiosidade teria de funcionar epistemologicamente todo o tempo. E isso não é fácil” (Freire, 1996). Não é fácil, mas é necessário. Ferramentas A leitura crítica do mundo, porém, precisa de ferramentas. A curiosidade epistemológica exige rigor metódico. É aqui que a lógica informal nos instrumentaliza (WALTON, 2012). Pensar criticamente é a capacidade de qualificar se estamos diante de um bom ou de um mau argumento. Na lógica informal, um argumento é um conjunto de premissas (fundamentos) que sustentam uma conclusão. Para testar a solidez de um discurso, seja a fala de um político ou a manchete de um jornal, precisamos aplicar cinco critérios fundamentais: Critério Pergunta-chave Exemplo de violação Validade A estrutura lógica (dedutiva) funciona? A conclusão simplesmente não decorre das premissas apresentadas. Força O cenário faz sentido no mundo real? O argumento se baseia em uma generalização apressada ou amostra insuficiente. Clareza Os termos e conceitos são precisos? O uso de palavras ambíguas ou polissêmicas (como “Liberdade”) sem definir para quem. Verdade As premissas são factualmente verdadeiras? Uso de dados inventados, estatísticas distorcidas ou fake news . Plausibilidade A afirmação é compatível com o conhecimento comum e com as evidências disponíveis? A premissa adotada é mais difícil de aceitar e acreditar do que a própria conclusão. A aplicação rigorosa desses critérios é, em última análise, o exercício prático daquilo que a Escola de Frankfurt conceituou como Razão Crítica. Na sociedade contemporânea, o discurso público é frequentemente colonizado pela Razão Instrumental — uma lógica cega que prioriza a eficácia técnica, o cálculo político e o engajamento a qualquer custo, esvaziando-se de compromissos éticos ou humanos. A Razão Instrumental produz discursos esteticamente polidos e tecnicamente eficientes, mas que operam violando deliberadamente a clareza, a força ou a verdade para induzir o conformismo e neutralizar o debate (Adorno e Horkeimer, 1944). Quando um discurso viola esses critérios propositalmente para manipular o público, estamos diante de uma falácia. É o caso do argumento Ad Hominem , que ataca a pessoa em vez de debater a estrutura lógica do argumento, ou da falácia do Espantalho , que distorce a posição do oponente para enfraquecer a verdade dos fatos. Identificar essas armadilhas por meio da razão crítica é o primeiro passo para desmascarar a racionalidade instrumental e escapar da manipulação cotidiana. Três camadas A desinformação não é um acidente de percurso; é um sintoma estrutural. Por isso, a nossa análise não pode parar na superfície. Ela exige três camadas de profundidade: A camada lógica é onde aplicamos os cinco critérios acima. Mas, só ela não basta. Precisamos da camada dialética: É aqui que investigamos as mediações entre o objetivo e o subjetivo, perguntando: quem fala? De onde fala? Quais interesses de classe estão subjacentes a esse discurso? Aqui lidamos com uma forma de imposição da dominação que não usa a força. A ideologia não opera por meio de uma imposição violenta e explícita; sua maior força reside na capacidade de colonizar o cotidiano e moldar o vocabulário comum, fazendo com que a dominação e as desigualdades sejam assimiladas como a ordem natural das coisas. É no nível da linguagem que o intolerável é domesticado: quando a perda de direitos e a precarização brutal do trabalho são rebatizadas docilmente como “empreendedorismo”, a sobrevivência passa a ser vista como escolha, e o poder se reproduz sem contestação. Diante disso, ir além das estruturas aparentes exige o que Freire propõe: a leitura crítica do mundo como uma “prática educativa crescentemente desocultadora de verdades. Verdades cuja ocultação interessa às classes dominantes” (Freire, 1993). É necessário, ainda, a camada histórica: Por fim, compreendemos que as ideias não brotam no vazio. Elas são a expressão superestrutural de uma base material concreta. Entender o contexto histórico e econômico — ou seja, recorrer ao materialismo histórico — que gerou um argumento, moldou uma timeline ou arquitetou uma narrativa política é o passo definitivo para desnaturalizá-los e, finalmente, desmontá-los. Estratégias Como construir essa resistência sem que ela se torne um fardo exaustivo? O pensamento crítico deve ser uma prática diária, uma passagem constante do “senso comum” para o “bom senso” gramsciano (uma visão de mundo coerente e emancipatória). Em termos freirianos, é a promoção permanente da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica. Algumas estratégias práticas ajudam nesse processo: Aceleração intencional da dúvida: Crie o hábito de pausar por 10 segundos antes de compartilhar qualquer conteúdo que cause uma reação emocional extrema (raiva ou validação absoluta). A emoção imediata é o combustível do algoritmo. Lembre-se: “é preciso contar de um a dez antes de fazer a afirmação categórica” (Freire, 1996). O teste da recomendação: Quando a plataforma sugerir o próximo vídeo ou texto, recuse ativamente e busque um tema diferente por conta própria. Quebre o padrão que o algoritmo desenhou para você. Isso é recusar a “domesticação” e exercer a autonomia. Triangulação de perspectivas: Leia a cobertura de um mesmo fato político em veículos de linhas editoriais distintas. Anote mentalmente quais adjetivos e recortes cada um utilizou para moldar a narrativa. Freire nos lembra que “o papel do educador progressista é salientar que há outras ‘leituras de mundo’, diferentes da sua e às vezes antagônicas a ela” (Freire, 1992). Sem superficialidades: Dedique tempo a textos longos e livros. A estrutura do livro exige fôlego e encadeamento lógico, o exato oposto da fragmentação das redes sociais. A leitura profunda é o exercício mais completo de curiosidade epistemológica. Debate coletivo: Participe de algum clube de leitura (logo vou criar o Clube de Leitura Crítica), assine newsletter (como essa), enfim, busque informação com pessoas que tenham uma visão crítica de mundo. A leitura do mundo antes da leitura da palavra: Antes de verificar se uma notícia é “verdadeira ou falsa”, pergunte-se: por que essa notícia está circulando agora? Quais condições materiais (materialismo histórico) permitem sua difusão? A quem interessa que eu sinta raiva ou medo diante dela? A práxis como horizonte: denúncia e anúncio. Os desafios são grandes. Romper a bolha algorítmica significa enfrentar o desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no senso comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital. É o exercício de pensar além das fronteiras impostas, mesmo quando isso gera estranhamento ou resistência. Quem desenvolve o pensamento crítico adquire maior capacidade de concentração, repertório argumentativo robusto e tolerância à complexidade, conseguindo enxergar a realidade em sua totalidade. Mas o pensamento crítico não é um fim em si mesmo, nem um mero exercício acadêmico de vaidade intelectual. Seu objetivo final é a práxis — a união indissociável entre a reflexão teórica rigorosa e a ação prática para transformar a realidade. Não pensamos criticamente apenas para entender o mundo, mas para mudá-lo. Paulo Freire sintetiza isso com precisão: a leitura crítica do mundo envolve, simultaneamente, a denúncia da realidade injusta e o anúncio do que ainda não existe (Freire, 2000). A denúncia sem o anúncio é cinismo. O anúncio sem a denúncia é ingenuidade. O pensamento crítico maduro articula os dois: desmonta a mentira e constrói a alternativa. “A denúncia e o anúncio criticamente feitos no processo de leitura do mundo dão origem ao sonho por que lutamos” (Freire, 2000). Ao exercitarmos o pensamento crítico assumimos o controle de nossas escolhas, recuperamos nossa autonomia e pavimentamos o caminho para uma sociedade genuinamente livre. Mas não basta pensamento crítico isolado, a essência do pensamento crítico está na sua síntese coletiva. É no debate que construímos alternativas melhores para os problemas reais. O pensamento crítico não é fruto de alguma “mente iluminada” que vai “descobrir” soluções mágicas. Nas palavras de Paulo Freire: ninguém se conscientiza sozinho — nos conscientizamos em comunhão, mediatizados pelo mundo. Mais isso é assunto para outro dia. Referências Adorno, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. Freire, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. Freire, P. Pedagogia da Indignação: Cartas Pedagógicas e Outros Escritos. São Paulo: UNESP, 2000. Freire, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. Freire, P. Política e Educação. São Paulo: Cortez, 1993. [11] Freire, P. Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. Walton, Douglas N. Lógica Informal: um manual de argumentação crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2012. Leandro do Erre , mestrando em Sociologia e Ciência Política na PUCRS e responsável pelo canal no YouTube “A questão política”. Redes Sociais: X: @leandrodoerre Facebook: Leandro do Erre As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil