Masculinidade sob pressão: os impactos da era dos algoritmos
29 Jun, 2026
Nas últimas décadas, a expressão “masculinidade frágil” saiu dos manuais e livros de sociologia e antropologia e passou a circular no vocabulário cotidiano digital. A frase usada para ironizar homens que se enfurecem ao ser associados à cor rosa, por exemplo, hoje virou piada na internet, e apesar da seriedade do assunto, o fato é que estamos diante de uma crise estrutural de identidade do homem moderno e da mudança de papéis na nossa sociedade, que ao longo do tempo vem modificando a cultura, para desespero de alguns. Na mesma velocidade com que a internet avança e evolui, assistimos o avanço agressivo de uma masculinidade frágil reativa, que se organiza em comunidades digitais, consome discursos de “influenciadores” de “alta performance” e prega o resgate de um homem primitivo e inabalável. Para o antropólogo Levi-Strauss (Textos Básicos de Antropologia), a identidade humana não é estática ou isolada, mas uma construção cultural, fundamentada na oposição e diferenciação, assim, desde sempre aprendemos que “ser homem” resume-se a “não ser como uma mulher” ou “não ser homossexual”. Esse cenário pode ser perfeitamente decifrado pelo cruzamento entre os estudos do antropólogo e a filósofa Simone de Beauvoir, que em sua famosa obra O segundo sexo argumenta que a sociedade colocou o homem no lugar de referencial universal, absoluto e dominante, enquanto relegou a mulher a uma categoria inferior e de submissão, assim, qualquer aproximação com o universo feminino é interpretado como uma perda de status ou de hierarquia social. O problema contemporâneo reside no fato de que as fronteiras que definiam o “ser homem” estão desmoronando. Também nas últimas décadas, as mulheres ocupam cada vez mais o mercado de trabalho, a política e as chefias de família, apagando as linhas de separação das tarefas e papéis tradicionais. Quando o homem perde a capacidade de se diferenciar nitidamente da mulher através de privilégios e papéis fixos, estabelecidos e reforçados por séculos, ele entra em uma crise de pânico identitário. A masculinidade atual tornou-se hiperdefensiva porque a sua antiga base de comparação ruiu. O avanço atual da masculinidade frágil é, na verdade, a reação desesperada do “absoluto” (homem), o qual percebe que a mulher que deveria ser o sexo frágil e inferior, não aceita mais a submissão. Movimentos contemporâneos, baseados em teorias como a redpill, nada mais são do que tentativas de restaurar essa hierarquia por séculos sustentada, vendendo a ilusão de que o homem precisa “retomar o topo” para ser feliz. O paradoxo mais cruel desse cenário é que a obsessão em manter essa fachada de poder absoluto está adoecendo a população masculina, o tornando cada vez mais frágil. Ao tentar se proteger do avanço das liberdades e força femininas, a masculinidade tradicional criou uma patrulha ideológica implacável entre os próprios homens. Sob o pretexto de forjar “homens fortes”, proíbe-se a vulnerabilidade, o choro, o pedido de ajuda e a expressão sincera de afeto. O custo psíquico dessa autovigilância é devastador. Dados globais de saúde pública mostram, ano após ano, que os homens são as maiores vítimas de suicídio, abuso de substâncias e mortes violentas, ao mesmo tempo em que são os que menos frequentam consultórios de terapia. O discurso de que o homem precisa ser forte o tempo todo, que precisa carregar uma armadura infalível, é devastador para a sua saúde mental. Quando o homem internaliza que ser vulnerável é o equivalente a tornar-se como mulher, ou, “tornar-se como o outro” fragilizado , como diria Beauvoir, ou perder sua diferenciação social, ele escolhe o silêncio e o isolamento, o próximo passo, então, é a ansiedade ou depressão, que é muitas vezes mascarada por crises de raiva e agressividade, resultado direto de uma identidade que não permite falhas. O homem moderno vive encurralado: sente a pressão das mudanças do mundo, mas o “manual do macho alfa” que consome na internet o proíbe de se adaptar, evoluir, exigindo que ele sangre por dentro contanto que pareça o homem de ferro por fora. O avanço da masculinidade frágil na modernidade e no mundo digital não reflete força, mas sim o pânico de uma estrutura que não se adapta ao presente e as mudanças na cultura. Enquanto os homens insistirem em construir sua identidade pela exclusão do feminino e pela negação da própria dor, continuarão prisioneiros e vítimas de seu próprio mito. A verdadeira evolução do masculino não acontecerá pelo isolamento em trincheiras digitais cheias de certezas falsas e frágeis, mas sim pela coragem de aceitar a alteridade e, finalmente, baixar a guarda. Afinal, homens são humanos e também sangram.