A pior solidão é a solidão a dois
30 Jun, 2026
Parece clichê, mas é a mais pura verdade: a pior solidão é a solidão a dois. Sempre me senti completamente sozinha. E esse isolamento sempre me doeu muito, dói até hoje, mas também me deu independência, força e coragem para construir uma vida que nunca sonhei ter. Foi no meu mais profundo recolhimento que descobri o propósito da minha vida, nas grandes e minúsculas escolhas diárias. Foi assim que realizei meus projetos, que comprei minha casa e paguei minhas contas. Tudo sozinha. Até hoje. Sempre me senti abandonada, negligenciada, desamparada na relação a dois. Quando não fui enxergada, escutada, abraçada. Quando fui silenciada, muitas vezes com violência. Quando me calei para não desagradar, não incomodar, não atrapalhar a vida de ninguém. Quando faltou reciprocidade, reconhecimento e respeito. Quando me senti invisível. Quando o silêncio não foi uma escolha livre, mas uma estratégia para não perder o amor do outro. A solidão a dois é aquela que implora por migalhas de carinho, de atenção e de cuidado. São duas solidões: uma me fortalece, outra me aprisiona. Esse isolamento é consequência das minhas escolhas existenciais. Precisei dele para sobreviver. Não encontrei outro caminho para minimizar meus pânicos, angústias e ansiedades. Sempre culpei meu desamparo e tristeza pela violência familiar que sofri. Mas não quero mais culpar o passado pelo isolamento que escolhi. Sou a única responsável por precisar desesperadamente de um abraço, de um carinho e de um colo. A pior solidão sempre, ou quase sempre, foi a dois. Tive amigos, amores e amantes que supostamente acalmavam meus medos, vazios e inseguranças. Supostamente, porque foi junto com eles que tive minhas mais assustadoras crises de pânico. Ou por causa deles. Só comigo mesma ou a dois, o que é pior? Na solidão comigo mesma não espero que alguém compreenda a dor que sinto. Consigo fazer minhas escolhas sem ficar à mercê de ninguém. Como vai ser meu dia? O que vou ler e escrever? A que horas vou fazer meus exercícios? Está na hora de lavar as roupas? Escrevo, choro, saio para caminhar descalça na areia da praia e sentir o sol queimando minha pele. Quem sabe encontro alguém que me dê o abraço de que eu tanto preciso? Assim não espero nada de ninguém. Na solidão a dois, espero calada, escondida, invisível, que o outro me salve da minha tristeza. Só preciso de um abraço, de mais nada. E ele não vem. Porque o outro está totalmente concentrado na própria tristeza e dor. Ele também está esperando o abraço que não vem. Já me separei muitas vezes por não aguentar a solidão a dois. Por não suportar sentir tanta tristeza porque o outro não consegue me dar o abraço de que eu mais preciso. Porque não consigo dar a ele o abraço de que ele mais precisa. Estou cansada de esperar que algum dia uma mágica aconteça e eu não sofra mais por me sentir machucada, abandonada, desamparada. Eu sei há muito tempo que ninguém, nunca, vai conseguir me dar o abraço de que eu mais preciso. É melhor simplesmente aceitar que esse dia nunca vai acontecer. E sair da minha caverna sombria para caminhar descalça na areia da praia em um dia de sol. Mas hoje faz frio e chove. E eu me sinto cada vez mais só. Passei a vida inteira acreditando que sofria por estar só. Hoje tenho a certeza de que sofri muito mais por esperar que um salvador me curasse da minha solidão. Para mim, a pior solidão é a solidão a dois. E para você?