IA recicla histórias e ameaça o mercado editorial, diz Luiz Fernando Emediato

admin
1 Jul, 2026
247 - O jornalista e editor Luiz Fernando Emediato afirmou que a inteligência artificial já chegou ao mercado editorial, mas ainda não substitui a criação humana. A análise foi feita durante participação no Giro das Onze desta terça-feira (30), em transmissão do Brasil 247 no YouTube, na qual ele também criticou distorções em compras públicas de livros, avaliou mudanças no jornalismo e apontou a perda de força da televisão aberta. No programa, Emediato disse que o setor editorial brasileiro apresentou alguma recuperação nos últimos tempos, mas ponderou que esse crescimento precisa ser visto com cautela. Para ele, a melhora é desigual e concentrada em segmentos específicos, como livros religiosos, compras governamentais e obras impulsionadas por redes sociais. “Deu uma melhorada porque tava muito ruim, mas é uma melhorada, eu diria, fantasiosa e desigual”, afirmou. O editor fez críticas a editais municipais de aquisição de livros que, segundo ele, podem ser direcionados. Emediato explicou que o funcionamento comercial do setor, baseado em consignação e descontos elevados para livrarias e distribuidores, abre margem para irregularidades quando prefeituras fazem compras de grande volume. “Os políticos descobriram que com essa margem de 50% eles podem fazer editais viciados nas prefeituras”, disse. Segundo ele, esse tipo de operação também pode envolver empresas criadas apenas para viabilizar vendas públicas. “Foram criadas editoras fantasmas e distribuidoras fantasmas”, declarou. Emediato afirmou ainda que editores sérios muitas vezes identificam licitações em que “as cartas já estão marcadas”, o que inviabiliza uma disputa real. Outro ponto abordado por Emediato foi a ascensão da chamada “romantasia”, gênero que mistura romance e fantasia e tem forte apelo entre adolescentes e jovens adultos. O jornalista afirmou que muitas dessas obras ganham força primeiro no TikTok, no Instagram e em plataformas de autopublicação, antes de chegar às editoras tradicionais. Questionado sobre a qualidade literária desse tipo de produção, foi direto: “É baixíssimo”. Ao tratar da inteligência artificial, Emediato relatou ter feito um teste em que forneceu um roteiro e pediu a uma ferramenta que escrevesse um romance. “Em 40 minutos a inteligência artificial escreveu para mim um romance de 350 páginas”, contou. O resultado, segundo ele, era tecnicamente legível, mas sem originalidade. “A inteligência não é tão inteligente assim. Ela pegou o meu estilo e veio um Luiz Fernando Emediato robotizado”, afirmou. Para o editor, a IA não cria de fato, apenas recompõe referências já existentes. “A inteligência artificial, ela não cria, ela recicla”, disse. Emediato avaliou que essa característica pode ampliar riscos de plágio, já que os textos produzidos por ferramentas automatizadas misturam elementos de obras diversas. Na análise sobre o jornalismo, Emediato relembrou sua experiência no SBT, quando ajudou a implementar um modelo de telejornalismo com jornalistas no vídeo e interpretação de notícias. “Nós criamos um jornalismo independente”, afirmou. Ele criticou, porém, o excesso de comentarismo atual em canais de notícias. “Você pega uma GloboNews hoje, quase não tem notícia”, disse. Emediato também avaliou que a televisão aberta perdeu parte da influência que teve no passado diante do avanço das plataformas digitais e de experiências como a CazéTV. “A TV aberta hoje, não vou dizer que já era, mas ela perdeu a força”, declarou. Para ele, o cenário atual representa uma mudança estrutural no consumo de informação e entretenimento. “Não é o fim, mas é o começo do fim de uma era da TV aberta”, concluiu.