Análise: Espanha foi melhor na bola do que a Argentina na briga
20 Jul, 2026
Ferrán Torres marca para a Espanha na prorrogação da final contra a Argentina Reprodução/SEFutbol Há grande mérito em uma equipe que se recusa a perder. A Argentina representa isso como poucas. Mas se a grande virtude da Seleção Albiceleste é lutar até o fim, o maior defeito é querer ganhar acima de qualquer coisa. São ideias próximas, mas com resultados bem distintos. Se durante outras partidas do mundial, torcedores de outros países invejaram os argentinos pela garra e vontade dos jogadores hermanos, na final da Copa do Mundo contra a Espanha , apareceu o lado mais sombrio deste excesso, pois existe uma linha tênue entre competir no limite e entrar em campo pensando que se está em uma verdadeira batalha. Ela começa a desaparecer quando qualquer recurso passa a ser aceitável para impedir o adversário. Quando a falta tática vira método permanente. Quando a intimidação substitui a marcação. Quando o árbitro passa a ser pressionado a cada decisão. Quando o jogo deixa de ser uma disputa de futebol para se tornar uma disputa de nervos. Assim, vencer deixa de ser consequência do futebol e passa a ser um objetivo que pretende se colocar acima dele, das regras do jogo, da ética e dos valores do esporte. A pancadaria argentina inclusive ultrapassou os limites da partida, pois bastou o apito final para Leandro Paredes, experiente volante do Boca Juniors, agredir adversários no gramado. Paredes x Gavi Reprodução/X Espanha, a primeira bicampeã deste século Por isso, há vitórias que salvam uma ideia de futebol. A Espanha voltou a ser campeã do mundo porque lembrou uma verdade que costuma ser esquecida de tempos em tempos: jogar bem continua a ser uma forma extremamente eficiente de vencer. A Espanha teve mais a bola, ocupou melhor o campo e produziu muito mais oportunidades. Não controlou apenas a posse. Controlou a partida. Fez a Argentina correr. E talvez o maior legado desta Copa não seja o nome gravado na taça. Seja a lembrança de que ainda vale a pena acreditar na bola. O amor à figura mais emblemática deste esporte é indiscutivelmente o grande projeto desta Seleção, que também obteve o título, em 2010 , com um modelo de jogo similar. A posse da bola é inegociável para a identidade já bem estabelecida da Fúria. E por isso esta seleção não necessita da figura de um gênio. Vale lembrar que dezesseis anos atrás, mesmo que o primeiro título mundial tenha sido conquistado por craques como Iniesta e Xavi, a FIFA elegeu o atacante uruguaio Diego Forlán o melhor jogador da competição. Já em 2026, Rodri, capitão e responsável por levantar a taça, ganhou também o prêmio individual , apesar de não ter o brilho singular de outras personagens da Copa. Basta lembrar que a Argentina foi toda moldada para Messi ser o protagonista e a França tem Mbappé como figura central. Ou seja, na Espanha a luz é de todos. É de Lamine Yamal, que recém completou 19 anos, a grande revelação. De Ferran Torres, o grande herói da decisão, autor do gol do título na prorrogação. E O goleiro Unai Simón, que sofreu apenas um gol em toda a competição e foi premiado com o troféu Luva de Ouro? Não à toa, com este conjunto, a Espanha está a 38 jogos seguidos sem perder, estabelecendo um novo recorde no futebol de seleções. Nesta Copa, a Fúria foi mais organizada, criativa e capaz de transformar talento coletivo em futebol de altíssimo nível. E o que é melhor: mereceu o título sem precisar renunciar ao jogo para conquistá-lo. A final contra a Argentina acabou 1 a 0. A diferença no placar foi curta. A distância entre os dois jeitos de jogar, não.