Você não precisa responder às mensagens assim que elas chegam
22 Jul, 2026
Você não precisa responder às mensagens assim que elas chegam Resumo É possível que nunca nos tenhamos sentido tão cobrados a responder imediatamente a uma mensagem como agora. Seja pelo outro, seja por nós mesmos. Se foi entregue, já é "socialmente esperado" que não demore muito para a tela piscar de volta, com alguma resposta. Na última semana, em conversas com três pessoas bem diferentes entre si, trabalhadoras de áreas bem diferentes entre si, a conclusão foi a mesma e foi essa: até o nosso tempo de pensar o que quer dizer parece não ser mais tão nosso. Quais os impactos disso? Por um lado, essa quantidade de ferramentas que nascem todos os dias ajuda a encurtar as distâncias de quem nos importa. Por outro, inauguram desafios que não passavam por nossas cabeças há dez anos. Um amigo, prestador de serviços, foi cobrado por um cliente por não ter adiantado uma entrega, já que assistia a algum programa sobre a Copa do Mundo e poderia perfeitamente ter feito isso. Detalhe: tudo estava nos prazos, não havia nada fora do lugar. E, mesmo assim, o profissional recebeu três áudios até o meio da tarde. No último, uma reclamação pela falta de respostas aos outros. Uma espécie de invasão do tempo privado pelo tempo produtivo. A naturalização do desaparecimento dessa fronteira e a banalização do estado permanente de disponibilidade. Até um dia desses, em especial no trabalho, você tinha ali o seu ciclo de horas de dedicação e, quando aquele tempo se acabava, só se retomava no dia seguinte. Só em casos urgentes alguém ligava para você. Agora, a terça-feira difícil com as demandas que nunca acabam pode se arrastar até o último minuto antes da meia-noite, e madrugada adentro. O desafio, contavam-me essas pessoas, não é apenas o de se sentirem trabalhando o tempo todo. Qualquer coisa, defenderam, é só sinalizar a mensagem como não lida e voltar depois. O problema mesmo é cuidar de quem está do outro lado, que já naturalizou que mensagem recebida é mensagem que precisa ser respondida o quanto antes. Mesmo que não haja urgência alguma. E, se essa resposta não acontecer, o clima pode ficar bem estranho no "bom dia" do dia seguinte. No fim de semana, conversando com pessoas que já estão nesse mundo há mais tempo que eu, escutei de uma liderança social de algumas décadas que as pessoas estão cada vez mais impacientes. Que, se você não responde em uma ou duas horas, já chega cobrança ou cara feia. Perguntei se ela se lembrava de como era antes disso tudo. Ela respondeu que se lembrava muito pouco e afirmou que a sensação que tinha pela manhã era a de não pensar seus próprios pensamentos. Que só fica respondendo ao que o outro pede, ao que o outro quer. Daí, pegou o celular e mostrou: 16 novas mensagens em pouco mais de horas longe do celular. Com tudo isso na mesa, é possível que não seja uma coincidência tão grande que em uma roda de conversa com amizades, seja cada vez mais comum que uma maioria levante a mão quando perguntada se anda mais ansiosa que o normal no trabalho e na vida. Com a comunicação instantânea buzinando novidades nos nossos ouvidos o tempo todo, a espera, que é parte da experiência humana do descanso, da imaginação e da elaboração, passou a ser vista muitas vezes como falha: "por que não respondeu?", "por que demorou?". A pessoa do outro lado precisando de um abraço, e nós, deste lado, acreditando que até o tempo do outro é sobre nós. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.