Vitamina B12 e câncer entram no radar de pesquisadores após novos estudos sobre riscos

admin
23 Jul, 2026
Durante décadas, a vitamina B12 foi vista como um nutriente essencial e seguro, inclusive quando utilizada em suplementos. Nos últimos anos, porém, uma série de estudos passou a investigar uma possível relação entre vitamina B12 e câncer, levantando dúvidas sobre os efeitos tanto da deficiência quanto de níveis persistentemente elevados da substância no organismo. O tema voltou ao debate científico após a divulgação de pesquisas analisadas por especialistas da Universidade de Reading [https://www.sciencedaily.com/releases/2026/05/260526022009.htm], no Reino Unido. Os trabalhos sugerem que alterações importantes nos níveis da vitamina podem estar associadas a diferentes desfechos de saúde, incluindo alguns tipos de câncer. Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que os resultados não demonstram uma relação direta de causa e efeito. Segundo Juliana Couto, médica e professora de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba, a principal mensagem é evitar interpretações simplistas. “Os estudos mais recentes mostram que a relação entre vitamina B12 e câncer é mais complexa do que se imaginava. É fundamental destacar que associação não significa causa. Quando um estudo mostra que pessoas com B12 elevada tiveram maior frequência de câncer, isso não quer dizer automaticamente que a vitamina tenha causado a doença”, afirma. A especialista explica que a vitamina B12 desempenha funções fundamentais no organismo. Além de participar da formação das células vermelhas do sangue e da manutenção do sistema nervoso, ela atua em mecanismos ligados à síntese e ao reparo do DNA, à divisão celular e ao metabolismo da homocisteína. “Do ponto de vista nutrológico, a B12 participa de vias metabólicas essenciais para o funcionamento celular. Por isso, sua deficiência deve ser levada a sério e tratada quando identificada”, diz. Por que a relação entre vitamina B12 e câncer passou a preocupar os cientistas? Uma das razões para o aumento do interesse científico é justamente o papel da vitamina na integridade do material genético. Quando há deficiência, o organismo pode apresentar dificuldades para produzir e reparar o DNA adequadamente, favorecendo erros na divisão celular [https://www.gazetadopovo.com.br/saude/por-que-cancer-colorretal-que-matou-preta-gil-tem-se-tornado-mais-comum-em-jovens-adultos/]. A carência prolongada da vitamina pode provocar alterações na metilação do DNA. Segundo Juliana, a carência prolongada da vitamina pode provocar alterações na metilação do DNA, aumento da homocisteína e prejuízos à formação das células sanguíneas. “Do ponto de vista teórico, alterações crônicas na síntese e no reparo do DNA poderiam contribuir para a instabilidade genômica, que é um dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento do câncer”, explica. O que os estudos mais recentes descobriram sobre a vitamina B12? Entre os estudos recentes está uma pesquisa caso-controle realizada no Vietnã e publicada em 2025. Os pesquisadores identificaram uma relação em formato de “U” entre a ingestão de vitamina B12 e o risco de câncer. Os resultados mostraram que tanto os menores quanto os maiores níveis de consumo estavam associados a uma maior ocorrência da doença. Os próprios autores, entretanto, alertam que o estudo apenas identificou uma associação estatística. Isso significa que não é possível afirmar que a vitamina tenha provocado os casos observados. Como a vitamina B12 pode influenciar o crescimento celular? Outra hipótese investigada pelos cientistas envolve a participação da B12 nos processos de crescimento celular. Em teoria, uma oferta muito elevada de nutrientes envolvidos na proliferação celular poderia favorecer o desenvolvimento de células pré-neoplásicas já existentes no organismo. Até o momento, porém, essa possibilidade não foi comprovada em humanos. Pesquisas observacionais também encontraram associações entre o uso prolongado de altas doses de vitaminas B6 e B12 e um discreto aumento do risco de câncer de pulmão em alguns grupos, especialmente homens fumantes. Novamente, os estudos não permitem concluir que a suplementação tenha sido a causa da doença. “Ainda não podemos afirmar que o excesso de vitamina B12 cause câncer. O que podemos dizer é que alguns estudos observacionais levantaram sinais de alerta que merecem ser investigados com mais profundidade”, afirma a médica. Vitamina B12 alta pode ser sinal de câncer? Outra descoberta que chamou a atenção dos pesquisadores foi a frequência com que pacientes oncológicos apresentam níveis elevados de vitamina B12 nos exames de sangue [https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/caes-treinados-conseguem-detectar-sinais-de-cancer-em-amostras-de-sangue/]. Por que pacientes com câncer podem apresentar vitamina B12 elevada? Estudos publicados em 2022 e 2024 concluíram que essa alteração costuma funcionar mais como um marcador da doença do que como sua causa. Em muitos casos, tumores podem afetar o fígado [https://www.gazetadopovo.com.br/saude/dietas-ricas-gordura-aumentam-chance-celulas-figado-cancerosas/] – principal órgão de armazenamento da vitamina – ou aumentar a produção de proteínas transportadoras da B12, elevando sua concentração na circulação. “Em alguns trabalhos, níveis mais altos de B12 aparecem com maior frequência em pacientes com doença avançada ou metastática. Isso não significa que a vitamina tenha provocado o câncer, mas que ela pode refletir alterações causadas pela própria doença”, explica a médica. O que significa encontrar vitamina B12 muito alta no exame de sangue? Uma pesquisa publicada em 2026 observou que pacientes com câncer colorretal e concentrações muito elevadas de B12 apresentaram menor sobrevida quando comparados àqueles com níveis normais. Resultados semelhantes foram identificados em estudos envolvendo câncer oral [https://www.gazetadopovo.com.br/lab/uso-frequente-maconha-triplica-risco-cancer-oral-estudo/] e pacientes submetidos à imunoterapia. Juliana ressalta que um exame alterado não deve ser interpretado isoladamente. “Ter B12 elevada no sangue não significa necessariamente intoxicação ou excesso de suplementação. A primeira explicação a ser investigada costuma ser o uso de suplementos, mas existem outras condições associadas, como doenças hepáticas, alterações renais, inflamações crônicas, doenças hematológicas e alguns tumores”, afirma. A especialista destaca ainda que o exame convencional mede a B12 total circulante e não necessariamente a vitamina disponível para utilização pelas células. Em determinadas situações, uma pessoa pode apresentar níveis elevados no sangue e, paradoxalmente, sinais de deficiência funcional. Quem realmente precisa suplementar vitamina B12? Apesar das novas descobertas, os especialistas reforçam que não há motivo para abandonar a suplementação quando ela é necessária. Veganos, idosos, pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e pessoas com doenças que comprometem a absorção intestinal continuam entre os grupos que mais frequentemente precisam de acompanhamento. “A B12 é indispensável para a saúde e deve ser reposta quando há deficiência ou risco real de deficiência. O principal problema hoje é a banalização da suplementação. Precisamos sair da lógica do ‘quanto mais, melhor’ e trabalhar com a lógica do quanto é necessário para cada paciente”, conclui Juliana.