Criatividade brasileira pode reinventar IA, dizem Dora Kaufman e Giselle Beiguelman

admin
25 Jul, 2026
A IA (inteligência artificial) vai dizimar o trabalho dos artistas e acabar com a arte que se conhece hoje? Ou nunca vai ser capaz de substituir os humanos porque as nossas mentes são, supostamente, excepcionais? Para Dora Kaufman e Giselle Beiguelman, convidadas deste episódio, discutir as relações entre arte e IA nesses termos não faz sentido. Em "Tecnologias da Invenção" (Autêntica), as autoras se recusam a contrapor pessoas e máquinas. Em vez disso, propõem que uma análise mais sofisticada deve levar em consideração que, há décadas, é impossível separar criatividade humana e tecnologia no terreno da criação artística e que a IA, com uma lógica de funcionamento e vieses próprios, muda os termos desse entrelaçamento. O livro traz conversas com artistas e o psicanalista Christian Dunker —os entrevistados falam sobre como usam chatbots e outras aplicações em seu processo criativo—, e as pesquisadoras defendem que a arte produzida com IA não é só uma possibilidade, mas uma realidade atual. Kaufman e Beiguelman lembram que as bases de dados usadas para treinar IAs carregam as marcas do colonialismo e que big techs dos Estados Unidos e da China dominam o desenvolvimento da tecnologia. Ao mesmo tempo, indicam que a IA abre espaço para práticas artísticas que contestam essa ordem social e repensam o mundo de hoje. Hoje, no Ocidente, a pesquisa, o desenvolvimento e a implementação da IA está na mão de seis ou sete big techs. Quando você está desenvolvendo, o desenvolvedor já está trazendo para os sistemas a sua cultura, as variáveis iniciais que ele define, o banco de dados que ele usa para o treinamento. Tudo isso são decisões e não são decisões neutras –são decisões a partir da experiência, do repertório e dos interesses daquele grupo Um dos maiores problemas da IA são os humanos, porque esses dados, no ponto de partida, são dos bens que nós produzimos e que, vorazmente, essas empresas se apoderam de forma mais ou menos legítima, em geral menos legítima. Isso faz com que uma ordem social injusta, cruel e violenta –a ordem patriarcalista, do colonialismo, que vem se atualizando– se aprofunde nos sistemas de IA. A IA não inventou o racismo, ela está criando novas camadas de exclusão, mas também toda uma potência criativa represada que não encontrava saída nos canais institucionais Na entrevista, as autoras também destacam o horizonte de precarização do trabalho e o papel do Brasil nesse cenário: o país, afirmam, pode se tornar uma fazenda de data centers ou virar a chave para produzir soluções que impulsionem a nossa diversidade cultural. Dora Kaufman é professora da PUC-SP, pesquisadora do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e autora de artigos e livros, como "Desmistificando a Inteligência Artificial", sobre as implicações éticas e sociais da IA. Giselle Beiguelman, artista e professora titular da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP), desenvolve pesquisas sobre arte digital e tecnologias da imagem e tem obras em acervos de museus brasileiros, como o MAC-USP e a Pinacoteca de São Paulo, e estrangeiros. O Ilustríssima Conversa está disponível nos principais aplicativos, como Apple Podcasts e Spotify. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios. O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa. Já participaram do Ilustríssima Conversa Djamila Ribeiro, que relançou "Lugar de Fala", Jairo Nicolau, cientista político que investiga as transformações do eleitorado brasileiro, Paula Sibilia, ensaísta que discute o solo moral das sociedades contemporâneas, Adriana Negreiros, biógrafa de Dercy Gonçalves, Benjamin Moser, autor de livro sobre os grandes pintores holandeses, João Paulo Charleaux, jornalista que examina a história do direito de guerra, Rita Carelli, que conta a história de um missionário assassinado na amazônia e do povo indígena enawenê-nawê, Uirá Machado, biógrafo do enxadrista Mequinho, Vladimir Safatle, filósofo que analisa a emergência do fascismo no mundo contemporâneo, Elvia Bezerra, pesquisadora da obra de Manuel Bandeira, entre outros convidados. A lista completa de episódios está disponível no índice do podcast.