Por que ladrões preferem golpes virtuais ao roubo? ‘Mais fácil ser preso na rua do que na internet’
26 Jul, 2026
A epidemia de golpes vivenciada pelo País demanda ações em diferentes frentes, na avaliação do presidente do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC), Fábio Diniz. Segundo ele, o Estado é mais forte que o crime, mas hoje está em desvantagem, sobretudo no ambiente digital. “É muito mais fácil você, como criminoso, ser preso na rua com uma arma de fogo do que ser pego através de um servidor na internet, no computador”, disse, em entrevista ao Estadão . Diante disso, o especialista cobra desde maior priorização do tema pelas autoridades até a criação de uma agência nacional de cibersegurança. Como referências a serem seguidas, Diniz cita os casos do Chile e dos Estados Unidos, ambos com iniciativas consideradas mais robustas na área. O presidente do INCC foi um dos convidados do terceiro encontro do Brasil Adiante , série de eventos promovida pelo Estadão até agosto. O ciclo de debates busca apresentar propostas concretas para o presidente que for eleito em outubro sobre os principais problemas do País. As soluções serão consolidadas em um documento que será entregue em novembro ao vencedor do pleito. Leia abaixo a entrevista completa: O Estado está perdendo para o crime hoje? Qual diagnóstico o senhor faz da situação atual? O Estado já nasce com uma desvantagem grande em relação ao crime organizado justamente pela velocidade como se implementa qualquer mudança. O crime organizado, quando vai implementar uma mudança, só precisa mandar um WhatsApp para todos e aquilo está valendo. É imediato. O Estado está sempre em desvantagem, tem uma liturgia para ser seguida. Sem dúvida nenhuma estamos em desvantagem, mas o Estado sempre foi e sempre será mais forte do que qualquer crime organizado. O que precisa é de prioridade e vontade política. Dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que os golpes ultrapassaram a marca de 2 milhões pelo terceiro ano consecutivo. Durante painel do Brasil Adiante, o senhor afirmou que o crime se aproveita da infraestrutura concedida pelo Estado para justamente prosperar em cima disso. Como que o senhor enxerga esse avanço dos golpes e a perspectiva do País no combate a essa modalidade? O aumento dos golpes dialoga com a teoria econômica de Gary Becker: o crime vai migrando para onde vê maior capacidade de ganho com menor chance de punição. É muito mais fácil você, como criminoso, ser preso na rua com uma arma de fogo do que ser pego através de um servidor na internet, no computador. O crime organizado e o crime não organizado também perceberam isso e foram migrando para onde eles têm um custo menor. O primeiro ponto é: eu tenho chance de ser pego? O segundo ponto é: se eu for pego, eu vou ser preso? E o terceiro ponto: se eu for preso, eu vou ficar preso? Essa tríade que o crime tem na cabeça o Estado precisa combater justamente nesta sequência. Se eu vou ser identificado, preso e, mais do que isso, ficar preso, eu vou fazer outra coisa. A migração correu para o digital justamente pela capacidade de aumento de ganho e também pela punição baixa por causa da identificação baixa. As investigações apontam modus operandi distintos, que vão desde falsas centrais telefônicas e golpes do WhatsApp até golpes mais sofisticados, como os que usam biometria facial. Apontam também configurações distintas das quadrilhas que aplicam esses golpes, que podem ser grupos mais autônomos até envolvidos com o crime organizado. Há uma tendência específica? O crime organizado tem diferentes portes. Nós temos 88 organizações criminosas no Brasil atuando e temos os lobos solitários também. Não é só organização criminosa que pratica golpe, fraude pelo meio digital. Porém, quanto mais elaborado é o tipo de fraude, quanto maior é a quantidade de recursos que você vai tentar tirar de uma vez só, mais você precisa de tecnologia, de conhecimento e de robustez na estrutura criminosa. Fazer uma campanha de phishing e disparar 30, 40 milhões de e-mails é fácil. Eu gasto 5 minutos para fazer essa campanha usando inteligência artificial e disparo isso de forma muito rápida. Não preciso de uma grande infraestrutura para isso, de grandes investimentos. Eu compro um ransomware hoje por US$ 100 (cerca de R$ 500), um ransomware como serviço. Agora, para um caso como o da C&M, onde roubaram R$ 400 milhões, a estrutura criminosa está muito mais robusta, muito mais organizada. Precisa da corrupção do agente interno, dos hackers. É um crime especializado, focado em determinadas ações que precisam de robustez tecnológica e até mesmo de inteligência. Pensando nos antídotos que a gente tem hoje, o que há de mais efetivo sendo feito no País hoje? E qual seria a importância da criação de uma agência de segurança cibernética? Hoje a gente tem o poder, a fiscalização, a sanção e a governança como um todo divididos entre vários entes. Então, você tem o GSI, que é o Gabinete de Segurança Institucional, tem o CertBR, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) e a Anatel, que acaba sendo envolvida nisso também. Todos têm uma parte, mas ninguém tem o poder todo. Ou seja, está fatiada a forma como você regulamenta, normatiza, fiscaliza e sanciona ou pune aqueles que estão deixando de seguir essas diretrizes. Com a criação de uma agência, você coloca em uma estrutura, em uma autarquia central, todos os poderes necessários para se fazer isso de forma nacional, e não de forma pontual. E mais: sempre vem uma questão de orçamento, queixas de que “a agência custa R$ 600 milhões”, mas isso representa 0,03% das perdas potenciais de produção que a gente teve, de R$ 2,29 trilhões em 2025 e R$ 2,3 trilhões em 2024, isso só de perda de produção. 0,03% disso custeia uma agência que vai mitigar muito esse problema no País, vai diminuir a taxa de crescimento desse problema e vai afetar o setor produtivo, a parte social e o Brasil como um todo. O senhor vê boa inclinação para criação de uma agência com esse perfil? Qual seria o desenho ideal? Olha, o GSI desenhou uma agência. Esse projeto nasceu lá e é um desenho relativamente simples. Você tem mais ou menos 500 servidores, é um projeto que vai escalando e chega a 800 servidores em cinco anos. Começa com profissionais emprestados de outras estruturas para minimizar o custo e vai instrumentalizando, dando ferramenta e criando essa robustez orçamentária até ela atingir a maturidade dela. Esse desenho está pronto e o nosso problema é vontade política, priorizar isso do ponto de vista político - olhando para o País como um todo, temos problemas de segurança pública, econômico, social, de saúde, de educação, muitos deles vindo por origem da questão da falta de proteção cibernética. A criação de uma agência não coloca um prédio em pé de uma vez, mas constrói isso aos poucos. Marcelo Godoy (repórter especial e colunista do Estadão); Cristina Pinotti (economista e sócia da Pinotti Schwartsmann Associados); Fábio Diniz (presidente do INCC); e Lincoln Gakiya (promotor de Justiça) durante o Brasil Adiante. O avanço do estelionato não é algo específico do Brasil, mas partilhado por outros países da América Latina e do mundo todo. Tem algum país que seja referência na implementação de medidas para combater esse tipo de problema e que possa servir de norte pelo Brasil? Sem dúvida, isso é um fenômeno mundial, por conta da digitalização, do uso de inteligência artificial e da internet como um todo. Quando a internet foi criada e usada comercialmente na década de 80, você tinha uma parcela muito diminuta usando a internet. Hoje, dos quase 8 bilhões de pessoas do planeta, 5 bilhões usam a internet. Ou seja, quando você está dentro da internet, você está tendo acesso direto a 5 bilhões de pessoas de alguma forma. A infraestrutura cresceu. Quando se fala em América Latina, a gente tem o Chile que saiu na frente com criação de agência, normatização, regulamentação, mas eu acho que um ótimo exemplo acaba sendo os Estados Unidos, que vêm levando isso muito a sério há muito tempo, com a CISA (Cybersecurity and Infrastructure Security Agency) e com outras agências que estão acopladas ali. O Anuário mostrou que os golpes têm crescido mesmo com a queda dos roubos e furtos de celular, que é justamente a principal porta de entrada para aplicação desses golpes. Isso indica uma espécie de evolução da tecnologia, que consegue fazer mais golpes com menos celulares subtraídos? O celular hoje é uma dupla extensão da gente. Primeiro que é uma extensão do nosso corpo, que a gente está o tempo todo com ele na mão, e também por ser um repositório de informação, de dados, de funções e de atividades que você tem que fazer como cidadão. O fato de você ter celulares roubados, hoje, não é porque o interesse é o aparelho, é o que está dentro dele, da parte lógica dele. Não é o hardware, é o software. O que tem de informação ali? O que eu consigo nesse celular? A gente tem estudos que mostram que cada celular roubado rende em média R$ 50 mil para o crime. O celular de R$ 1 mil pode te render R$ 50 mil. Roubar celular na verdade é só a forma como o crime achou para subtrair uma coisa que vai dar acesso a uma outra coisa: é a chave para que ele abra uma outra porta, e lá nessa porta onde está a riqueza que ele está buscando. Em relação aos bancos, quais têm sido as medidas adotadas para conter também esses danos? Como tem sido essa articulação do poder público com o setor privado? Os bancos fazem, sim, ações. Porém, o foco deles não é na sociedade, não é na economia, não é no social. O foco deles é na proteção deles, como instituição, para diminuir as perdas. E está tudo bem eles olharem para isso. O ponto é: a forma como os golpes acontecem hoje, especialmente pela engenharia social, faz com que as pessoas acabem dando elas mesmas aquilo que o crime quer: ela faz o Pix, ela entrega a senha, ela manda o token, ela manda o código. No momento que a vítima está fazendo isso, o banco já não está se responsabilizando, porque ele fala: “você digitou a senha, você fez o Pix”. Mas tem um ponto: quando você troca a conta de um banco, normalmente o banco aciona você pelo WhatsApp. É o próprio gerente que te chama com o celular do gerente anterior ou com um novo telefone falando: “Olha, eu sou o novo gerente da sua conta, eu estou aqui à disposição”. Então, você percebe que o banco mesmo dá a chance, pelas políticas dele, pela governança, de o crime atuar de uma forma que parece ser legítima? Se nenhum banco fizesse isso, permitisse esse tipo de contato, as pessoas nunca iriam cair num golpe sabendo que isso não acontece, porque o gerente não vai vir falar com você pelo WhatsApp. Os bancos, então, têm muito ainda a melhorar em relação à forma como eles estão protegendo os cidadãos e a sociedade. Como o governo federal pode auxiliar nesse processo de conscientização, inclusive com criação de cartilhas e explicação sobre os modus operandi nas escolas? O letramento digital, como qualquer conhecimento, sempre vai ampliar sua capacidade de entendimento e de resposta a determinadas situações, em qualquer aspecto da vida. Se você estudar sobre Medicina, você vai ser mais capaz dentro da Medicina. Se você receber informação sobre o ambiente digital, como ele funciona, onde estão os riscos, como evitar, você vai gerir isso melhor também. É papel do Estado difundir essa informação, esse letramento digital.