Perseguição religiosa: Justiça paquistanesa protege assassinos de cristãos
29 Jul, 2026
É de 17 de julho a notícia de que os assassinos de um jovem casal de cristãos paquistaneses acusado injustamente de blasfêmia e queimado vivo na fornalha em que trabalhava em Lahore, no Paquistão, foram absolvidos. A história é ainda mais preocupante à medida que o Paquistão tenta emergir como um ator de destaque na cena internacional, com o papel de intermediação do primeiro-ministro paquistanês no conflito entre os Estados Unidos e o Irã. A Nuova Bussola Quotidiana conversou sobre este grave episódio de intolerância religiosa com Zarish Imelda Neno, escritora e educadora católica paquistanesa, nascida em Karachi e moradora da Itália. Há anos Neno dá voz aos cristãos perseguidos no Paquistão por meio de conferências, artigos e engajamento no campo; fundou em Faisalabad o Jeremiah Education Centre, em apoio às crianças das famílias mais vulneráveis, e é autora do livro Una piccola matita – Vita di una donna cristiana in Pakistan (Um pequeno lápis – Vida de uma mulher cristã no Paquistão). Você poderia reconstituir a história para os nossos leitores? Shama Bibi e Shahzad Masih eram um jovem casal cristão que trabalhava em uma olaria de tijolos em Kot Radha Kishan, no Punjab. Eram escravos por dívidas, uma realidade que no século XXI continua a existir no Paquistão. Tinham contraído uma dívida com o proprietário da olaria e, como acontece com milhares de famílias pobres, essa dívida tinha se tornado uma condenação que se transmitia dia a dia, sem uma real possibilidade de se libertar. Eram pais de quatro crianças. Shama estava grávida do quinto filho. Em 4 de novembro de 2014, foram acusados de ter queimado algumas páginas do Alcorão. Uma acusação nunca provada. Bastou, porém, esse boato para que a população fosse convocada pelos alto-falantes das mesquitas. Uma multidão enfurecida os capturou. Foram espancados, torturados e arrastados diante de milhares de pessoas. Depois foram jogados vivos na fornalha onde tinham trabalhado por anos. Shama morreu com o bebê que carregava no ventre. Quatro crianças perderam ambos os pais no mesmo dia. Quando penso nesta história, não consigo ver apenas duas vítimas. Vejo quatro crianças que ficaram órfãs. Vejo um bebê que nunca nasceu. Vejo uma multidão que presenciou aquele horror. E hoje vejo também um sistema judiciário que, depois de tantos anos, não foi capaz de lhes dar justiça. Por isso esta absolvição não diz respeito apenas a uma sentença. Diz respeito à mensagem que é enviada a todo o país: que mesmo um crime desta magnitude pode ficar sem consequências. Você esperava a absolvição dos responsáveis? Infelizmente sim. E o fato de não me surpreender é talvez o aspecto mais trágico de toda esta história. Não é apenas a absolvição dos assassinos de Shama e Shahzad que me faz sofrer. É o fato de que este parece ser o destino de quase todos os casos que envolvem as minorias religiosas no Paquistão. A cada vez o mundo se indigna. A cada vez são prometidas investigações, prisões, justiça. Depois o tempo passa. A atenção internacional desaparece. E os responsáveis voltam a viver suas vidas, enquanto as vítimas continuam debaixo da terra e suas famílias continuam a conviver com uma dor que nenhum tribunal jamais reconheceu. Foi o que houve em Jaranwala. Em agosto de 2023, mais de vinte igrejas foram incendiadas, centenas de casas cristãs destruídas e milhares de pessoas forçadas a fugir. O mundo falou de Jaranwala por alguns dias. Depois, o silêncio. Hoje me pergunto: onde está aquela justiça prometida? Quantos daqueles que devastaram uma comunidade inteira estão realmente cumprindo pena? É uma pergunta que vale também para tantos outros casos. Para os sequestros das garotas cristãs. Para as conversões forçadas. Para as falsas acusações de blasfêmia. Para os homicídios. A minha raiva nasce daqui: no Paquistão, o problema não é apenas que estes crimes acontecem. O problema é que quem os comete aprendeu que, muito provavelmente, nunca pagará. E enquanto um país não demonstrar que matar, perseguir ou incendiar a casa de um cristão traz consequências reais, estes crimes continuarão. Não porque sejam inevitáveis, mas porque são tolerados pela impunidade. Este grave episódio se insere em um clima de crescente perseguição aos cristãos no Paquistão. Na sua opinião, qual é a razão desta escalada? Eu acredito que a resposta seja simples, embora dolorosa. Porque os criminosos não são punidos. Porque a proteção das minorias religiosas no Paquistão continua a ser insuficiente. Porque quem persegue um cristão, com muita frequência, sabe que tem grandes chances de ficar impune. E porque a comunidade internacional exerce pouquíssima pressão para que o Paquistão garanta de fato os direitos fundamentais de suas próprias minorias. Me dá raiva pensar que estamos em 2026 e que, em vez de presenciarmos uma diminuição da perseguição, ainda estamos falando de novas vítimas, novas acusações de blasfêmia, novas garotas sequestradas, novas conversões forçadas, novas igrejas atacadas. A cada vez dizemos: “Esperamos que seja o último caso.” E, em vez disso, chega outro. Depois mais outro. Depois outro. Nós, cristãos paquistaneses, continuamos a esperar. Continuamos a rezar. Continuamos a acreditar que o nosso país pode mudar. Mas seria desonesto dizer que essa esperança não é colocada à prova quando quase todos os dias lemos uma nova história de perseguição. A perseguição não continua porque é inevitável. Continua porque quem deveria pará-la não está fazendo o suficiente. Ultimamente Islamabad almeja conquistar um papel significativo no cenário internacional. Na sua opinião, os Estados com os quais o Paquistão dialoga ignoram as violações dos direitos humanos em curso no país ou fingem não saber? Não acredito que o problema seja a falta de informação. É impossível não saber. As organizações internacionais recebem relatórios. Os governos recebem relatórios. As embaixadas recebem relatórios. Os casos são documentados todos os anos. No entanto, as perseguições continuam. Isso me leva a pensar que, com muita frequência, seja mais conveniente olhar para o outro lado. Me magoa dizer isso, mas às vezes parece que a vida de um cristão perseguido no Paquistão não tem o mesmo peso da vida de outras vítimas no mundo. Eu gostaria de ver a mesma indignação, a mesma pressão diplomática e a mesma determinação que a comunidade internacional demonstra diante de outras violações dos direitos humanos. Porque a liberdade religiosa não é um direito de segunda categoria. E o sofrimento dos cristãos paquistaneses não deveria ser uma tragédia para ser lembrada apenas quando vira manchete de jornal. Por fim, como paquistanesa e cristã católica, na sua opinião uma convivência entre religiões diferentes, entre cristãos e muçulmanos, no país é impossível? Absolutamente não. Se cristãos e muçulmanos não pudessem conviver, hoje nós, cristãos, não existiríamos mais no Paquistão. A nossa própria presença demonstra que milhões de muçulmanos e cristãos vivem juntos, trabalham juntos, estudam juntos e se respeitam todos os dias. Eu cresci cercada também por amigos muçulmanos que considero parte da minha família. Seria profundamente injusto atribuir a uma comunidade inteira as culpas dos extremistas. Mas justamente porque acredito na convivência, acredito também que não basta falar de diálogo. É preciso ter a coragem de parar quem usa a religião para justificar a violência. É preciso ter a coragem de proteger quem pertence às minorias. É preciso ter a coragem de punir quem incendeia uma igreja, quem sequestra uma criança, quem mata em nome da religião. Porque a tolerância não se mede pelos discursos. Mede-se pelo quanto um Estado está disposto a defender o cidadão mais vulnerável. E no dia em que um cristão paquistanês souber que está protegido pela lei exatamente como qualquer outro cidadão, nesse dia poderemos finalmente dizer que a convivência não é apenas possível: tornou-se uma realidade. © 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano: Pakistan, dove la giustizia protegge chi brucia i cristiani. [https://lanuovabq.it/it/pakistan-dove-la-giustizia-protegge-chi-brucia-i-cristiani]