Venda de participação da Fifa reacende debate sobre escândalos do passado
31 Jul, 2026
Resumo A proposta da Fifa de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que concentraria a exploração comercial de seus principais ativos e poderia receber investimento privado, provocou reação imediata das federações europeias e reacendeu comparações com modelos adotados pela entidade no passado. Negócios da Fifa Embora especialistas ouvidos pelo UOL ressaltem que não há indícios de irregularidades na iniciativa, eles afirmam que o projeto revive um debate antigo sobre a relação entre a entidade e empresas responsáveis por transformar direitos esportivos em receita. A comparação surgiu após a Fifa apresentar a ideia de criar uma subsidiária responsável pela gestão comercial de ativos como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes. A intenção é vender uma participação minoritária da empresa a investidores, mantendo o controle da entidade. Para o especialista em marketing esportivo e PhD em Comportamento do Consumo Fernando Fleury, a proposta guarda semelhanças com modelos utilizados por empresas como ISL, Traffic e LiveMode, mas representa um passo além. A ISL era uma empresa externa que recebia ou comprava direitos da Fifa e ganhava com sua revenda. A Traffic operava de forma semelhante, sobretudo em mercados e competições regionais. A LiveMode representa uma evolução, ao integrar comercialização, produção, distribuição e construção de audiência. Mas todas continuam sendo empresas externas. Fernando Fleury, especialista em marketing Segundo ele, a principal mudança é que a Fifa deixaria de apenas contratar terceiros para explorar seus ativos comerciais. A Fifa pretende concentrar sua operação comercial numa empresa própria e vender uma participação dessa companhia a investidores. Portanto, não estará apenas contratando alguém para explorar seus direitos. Estará permitindo que terceiros participem economicamente da estrutura que transforma esses direitos em receita. Fleury resume a diferença da seguinte forma: "A ISL privatizava parte da comercialização. A FFE pretende privatizar parcialmente o motor comercial." Apesar da semelhança estrutural, o especialista afirma que a comparação não deve ser feita sob a ótica dos escândalos de corrupção que marcaram o futebol internacional. "Isso não permite comparar a proposta atual aos esquemas de corrupção da ISL ou da Traffic. Até agora, não há evidência nesse sentido. A comparação válida é de arquitetura, incentivos e governança", disse. O que mudou agora? A antiga ISL foi a principal parceira comercial da Fifa durante as décadas de 1980 e 1990, negociando direitos de marketing e patrocínio de competições da entidade. Após sua falência, vieram à tona investigações que revelaram o pagamento de propinas a dirigentes esportivos para assegurar contratos comerciais. Anos depois, o chamado Fifa Gate também revelou esquemas de corrupção envolvendo empresas de marketing esportivo na negociação de direitos comerciais e de transmissão de competições, especialmente nas Américas. Para o advogado especialista em direito esportivo internacional Eduardo Carlezzo, entretanto, a estrutura proposta pela Fifa difere significativamente daqueles modelos. Existem algumas diferenças importantes entre as operações que não podem ser ignoradas. Ao contrário da ISL, que era uma empresa terceira, plenamente independente e detentora dos direitos, a FFE é apresentada como uma subsidiária na qual a Fifa manteria o controle majoritário, com investidores privados entrando apenas como sócios minoritários e sem poder de gestão. Eduardo Carlezzo, advogado Ele também destaca que o projeto dependerá da aprovação das federações filiadas, algo inexistente nos contratos firmados no passado. Também há um processo de aprovação do projeto a ser votado pelas federações-membro, o que nunca existiu com a ISL Segundo Carlezzo, a própria estrutura de governança da entidade mudou desde os escândalos que marcaram a gestão da Fifa nas últimas décadas. "Do ponto de vista formal, a Fifa hoje tem uma estrutura de compliance e investigação interna muito mais sofisticada do que tinha durante a era ISL. O Comitê de Ética foi dividido em uma câmara investigativa e uma câmara julgadora, foram criados um Código de Conduta, um comitê de auditoria independente e canais de denúncia confidenciais", continuou. Pressão comercial preocupa especialistas Na avaliação de Fleury, a principal discussão não está na legalidade do projeto, mas nos incentivos econômicos que podem surgir caso investidores privados passem a participar da estrutura comercial da Fifa. Entre as dúvidas levantadas pelo especialista estão a forma de remuneração dos investidores, a duração do investimento, a possibilidade de recompra das participações e o grau de influência que esses sócios poderão exercer sobre decisões estratégicas. "O risco é diferente do caso ISL. Antes, a dependência estava na relação com uma empresa externa. Agora, o interesse privado poderá estar incorporado contratualmente à própria governança comercial da Fifa. Isso não torna a FFE automaticamente pior, mas pode torná-la mais duradoura e mais difícil de desfazer." Para ele, justamente por se tratar de uma estrutura permanente, a discussão precisa ocorrer antes da implementação do projeto. A Fifa não está vendendo a Copa do Mundo. Está vendendo uma participação na máquina que transforma a Copa do Mundo em dinheiro. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.