Brasil diz querer IA aberta chinesa, mas dependência dos EUA chegou antes

admin
3 Aug, 2026
Brasil diz querer IA aberta chinesa, mas dependência dos EUA chegou antes Resumo Um ano e meio atrás, no Brasil também em choque diante do "momento DeepSeek", houve quem defendesse que a inteligência artificial aberta chinesa só seria aceitável se incorporada pela IA proprietária americana. Ainda há quem fale assim no Brasil, mas, nos EUA, o movimento agora é inverso. Após um ataque autônomo de um modelo fechado da americana OpenAI, a Hugging Face —plataforma colaborativa de IA— recorreu a um modelo aberto da chinesa Z.ai para se defender. Ato contínuo, big techs americanas reunidas pela Nvidia, de Google a Microsoft e Meta, lançaram um manifesto em defesa da IA aberta —em resposta às ameaças de Washington, sob lobby de Anthropic e OpenAI, contra os modelos chineses. Não foi essa disputa global que levou à ligação de uma hora de Lula para Xi Jinping na semana passada. O presidente brasileiro vem de seguidas intervenções eleitorais dos EUA no Brasil, inclusive tarifárias, a dois meses do primeiro turno. E Xi deixou clara a posição de Pequim, após mencionar a eleição brasileira: "A China apoia o Brasil a rejeitar interferências externas". Mas Lula também falou de IA com Xi, até porque dias antes o Brasil foi um dos fundadores da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico, na sigla em inglês), em Xangai. Ele diz que espera ampliar a cooperação em IA com a China. Segundo nota do Itamaraty, uma cooperação "inclusive em ecossistemas de código aberto". Questionei o embaixador para Tecnologia e Inovação, Eugênio Vargas Garcia, que veio à China para o lançamento da Waico, o que o governo Lula pretende encaminhar, especificamente. A resposta não poderia ser mais protelatória, sobre a organização: "É importante salientar que a Waico acaba de ser criada e seu acordo constitutivo irá entrar em vigor depois da entrega do terceiro instrumento de ratificação por parte dos países signatários. O próximo passo será, portanto, que seus Estados-membros discutam os detalhes operacionais para o trabalho prático da organização, incluindo orçamento, pessoal e estruturação institucional. Somente depois de concluído esse processo será possível vislumbrar o escopo dos projetos de cooperação que seriam desenvolvidos no âmbito da Waico." Autoridade chinesa envolvida no estabelecimento da organização diz que o Brasil, embora estado-fundador, ainda nem confirmou sua condição de estado-membro, situação descrita como estranha. Mas Vargas Garcia acrescentou que, no âmbito bilateral Brasil-China, a chinesa iFlytek e o brasileiro Serpro (Serviço de Processamento de Dados), entre outros órgãos, "estão trabalhando em um acordo de parceria para a constituição de uma aliança estratégica, com o objetivo de desenvolver um modelo de IA soberano do Brasil". A aliança poderia envolver a Huawei, que fornece os chips usados para o desenvolvimento dos modelos da iFlytek. Outras autoridades brasileiras não estão esperando mais o governo Lula. A cidade do Rio, agora com o prefeito Eduardo Cavalieri, que era vice de Eduardo Paes, morou na China e fala chinês, lançou o Rio 3.5 Open 397B. É uma IA soberana criada a partir do Qwen, do Alibaba, considerado mais avançado do que o modelo da iFlytek. Procurado para comentar sobre a Waico e o Brasil, o analista de tecnologia TP Huang afirmou que o avanço da China em IA fará a tecnologia muito mais acessível: "Tornar a IA aberta significa que você pode desenvolver a sua própria indústria de IA. Não vejo por que o Brasil não possa fazer o mesmo. Deveria investir em um dos principais laboratórios da China para que trabalhasse com uma empresa de tecnologia brasileira, treinando seus modelos mais recentes com dados em português para, assim, construir seu próprio LLM." Vargas Garcia, questionado se é tarde demais, se o cenário no Brasil já é de dependência da IA proprietária dos EUA, ou seja, de OpenAI e Anthropic, repetindo o que ocorreu anteriormente em tecnologia, respondeu: "É fato que hoje o Brasil não possui um ecossistema digital soberano devido ao alto grau de dependência tecnológica de outras nações, principalmente no caso de plataformas digitais, serviços de nuvem e IA. É um desafio que precisa ser atacado com uma visão estratégica de longo prazo, pois mudanças significativas não serão alcançadas no curto prazo." Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.